Esta página é a segunda de uma série de três partes que nos levam dos calendários romanos primitivos ao calendário gregoriano atual, passando pelo calendário juliano.
Um pouco de história
NOTA: Existem muitos livros e também muitos sites de Internet que explicam a história romana desde os seus primórdios até ao seu desaparecimento.
Por isso, o nosso «breve apontamento histórico» parecerá mais uma cronologia do que explicações detalhadas. O seu objetivo principal será situar-nos no tempo para acompanhar a evolução dos nossos calendários.
A cronologia de cada página corresponde aos calendários explicados nessa mesma página. Por isso, prolonga-se ao longo das três partes mencionadas no preâmbulo.
Continuemos o resumo da nossa cronologia da história romana e projetemo-nos até ao fim da República.
Caius Julius César nasceu em Roma em 100 ou 102 a.C. e morreu em Roma em 44 a.C.
- Após alguns desentendimentos com o ditador Sila, foi obrigado a partir para a Ásia, mas regressou a Roma após a morte de Sila.
- Tornou-se Grande Pontífice em 63 a.C.
- Aliou-se, em 60 a.C., a Crasso e Pompeu para fundar o primeiro Triunvirato.
- Tornou-se cônsul em 59 a.C. e procônsul da Gália Cisalpina e Transalpina em 58 a.C.
- Em 53 a.C., Crasso morreu frente aos Partos e as suas legiões foram aniquiladas.
- Um único homem ainda se erguia contra César na conquista do poder: Pompeu.
- Em 49 a.C., César atravessou o Rubicão e marchou sobre Roma; foi o início da guerra civil. Em 48 a.C., Pompeu fugiu para o Egito, perseguido por César. Ali foi assassinado, e César entregou o trono a Cleópatra.
- César fez-se nomear ditador em 45 a.C. e obteve depois a ditadura perpétua em 44 a.C. Pôde então legislar à vontade, reformar as instituições e... o calendário, seguindo os conselhos de um astrónomo de Alexandria chamado Sosígenes.
- César foi assassinado a 14 de março de 44 a.C. pelo seu filho adotivo Bruto Marco Júnio. Esta morte arrastou os romanos para uma terceira guerra civil.
- A 20 de março de 44 a.C., a leitura do testamento de César fez de Otávio o seu herdeiro, e este aceitou.
Otávio Augusto nasceu em Roma (Veletri) em 63 a.C. e morreu em Nola em 14 d.C.
- Otávio tornar-se-á imperador sob o nome de Augusto, de 27 a.C. até 14 d.C.
- E é o início de uma longa lista de imperadores, entre os quais:
- Tibério, que sucede a Augusto e reina de 14 a 37;
- o segundo que nos interessa é Domiciano, que dirigirá o império de 81 a 96;
- e o último relacionado com o calendário é Constantino, cujo reinado vai de 324 a 337.
- O Império Romano terminará no Ocidente em 476.
Duas palavras sobre Sosígenes e o seu meio. Por várias razões, entre elas Cleópatra, César tinha criado gosto pelo Egito.
Graças a Ptolemeu, general de Alexandre Magno, que se proclamou rei do Egito em -305 com o nome de Ptolemeu I Sóter, Alexandria acolheu sábios de todos os horizontes. Ele fundou a Grande Biblioteca.
Sucede-se em Alexandria uma longa linhagem de astrónomos de renome:
- Aristarco (por volta de -270), que concebeu um relógio solar, realizou observações sobre o Sol e ousou avançar que a Terra se deslocava em relação ao Sol.
- Eratóstenes (-276 a -194), que mediu a inclinação do eixo da Terra.
- Hiparco, por volta de -130, descobriu a precessão dos equinócios e calculou a duração do ano solar com um erro de apenas seis minutos (365 dias, cinco horas e cinquenta e cinco minutos).
- Mais tarde, Cláudio Ptolomeu (100-170), grego e cidadão romano, escreveu uma vasta enciclopédia astronómica e geográfica que foi referência durante mais de dez séculos. Tomou de Hiparco a estimativa da duração do ano solar.
Talvez tenha sido numa festa organizada por Cleópatra que César conheceu Sosígenes, que lhe transmitiu as suas ideias sobre o calendário. Como a duração do ano que sairia da reforma seria inexata, pode perguntar-se porquê, já que é difícil imaginar que Sosígenes não conhecesse os trabalhos de Hiparco.
O(s) calendário(s)
A reforma do calendário romano por César deu origem a um calendário puramente solar.
Plutarco diz que «César recorreu aos melhores filósofos e matemáticos do seu tempo» para estabelecer o primeiro calendário. Naturalmente, Sosígenes estava entre eles.
Vimos na parte anterior que o ano antes da reforma se apresentava assim:
| 1-JANUARIUS: 29 j | 4-APRILIS: 29 j | 7-QUINTILIS: 31 j | 10-OCTOBER: 31 j |
| 2-FEBRUARIUS: 28 j | 5-MAIUS: 31 j | 8-SEXTILIS: 29 j | 11-NOVEMBER: 29 j |
| 3-MARTIUS: 31 j | 6-JUNIUS: 29 j | 9-SEPTEMBER: 29 j | 12-DECEMBER: 29 j |
O problema da reforma era duplo:
- Recuperar o tempo perdido.
- Implementar o novo calendário.
1) Para resolver o primeiro problema, a solução foi radical: César ordenou acrescentar ao ano 46 a.C. dois meses intercalares de 33 e 34 dias entre november e december. Estes acréscimos somavam-se ainda a um mês intercalar clássico em februarius. Assim, foram acrescentados 90 dias ao ano 46 a.C., que passou a ter 445 dias. Para saber mais sobre este tema, veja a página dedicada às confusões do calendário juliano. Macróbio, escritor latino (séculos IV-V), designou esse ano como ultimus annus confisionis (o último ano da confusão).
2) Resolvido o problema do atraso calendárico, o novo calendário passou a vigorar a partir de 45 a.C.
Pode definir-se assim:
- Confirmação do início do ano em 1 de januarius. Podemos considerar tratar-se de simples confirmação. Voltaremos a isto mais adiante, ao abordar o delicado problema do início do ano na história romana.
- Respeito pelo equinócio da primavera, fixado em 25 de março.
Segundo Plínio (História Natural XVIII), César colocou os equinócios e os solstícios no 8.º dia antes das calendas de abril, junho, outubro e janeiro, isto é, em 25 de março, 24 de junho, 24 de setembro e 25 de dezembro.
- Ano de 365 dias, com um 366.º dia de quatro em quatro anos.
- O dia suplementar de quatro em quatro anos seria colocado antes de 24 de februarius (ou depois, consoante as interpretações, o que na prática equivale estritamente ao mesmo). O dia 24 de fevereiro recebia o nome de sextilis ante calendar martius e o dia adicional o de bis sextilis ante calendar martius, daí «ano bissexto» e «bissexto».
- O número de dias dos meses é objeto de duas interpretações entre os autores atuais. Apresento, por isso, ambas.
A)
Primeira interpretação (fontes históricas desconhecidas): numa primeira fase, teria existido alternância estrita de meses de 31 e 30 dias, com exceção de februarius, que teria 29 dias (30 nos anos bissextos). Em 44 a.C., por proposta de António, quintilis tornou-se julius em homenagem a Júlio César.
Nesse momento, o ano apresentar-se-ia assim:
| 1-JANUARIUS: 31 j | 4-APRILIS: 30 j | 7-JULIUS: 31 j | 10-OCTOBER: 30 j |
| 2-FEBRUARIUS: 29 j (30 j) | 5-MAIUS: 31 j | 8-SEXTILIS: 30 j | 11-NOVEMBER: 31 j |
| 3-MARTIUS: 31 j | 6-JUNIUS: 30 j | 9-SEPTEMBER: 31 j | 12-DECEMBER: 30 j |
Sob Augusto, o Senado quis honrar o seu imperador, por uma razão que mencionaremos mais adiante, e deu o seu nome a sextilis, que se tornou augustus (agosto). Naturalmente, agosto não podia ter menos dias do que julius e passou, portanto, a 31 dias. Esse dia suplementar de augustus foi compensado com um dia a menos em februarius, que passou a 28 dias (29 nos anos bissextos). Além disso, para evitar uma sucessão de três meses de 31 dias, inverteu-se a duração dos meses em september, october, november e december, e o ano ficou assim:
| 1-JANUARIUS: 31 j | 4-APRILIS: 30 j | 7-JULIUS: 31 j | 10-OCTOBER: 31 j |
| 2-FEBRUARIUS: 28 j (29 j) | 5-MAIUS: 31 j | 8-AUGUSTUS: 31 j | 11-NOVEMBER: 30 j |
| 3-MARTIUS: 31 j | 6-JUNIUS: 30 j | 9-SEPTEMBER: 30 j | 12-DECEMBER: 31 j |
B) Segunda interpretação
Para esta versão, as fontes existem, e cito uma:
“Censorino, De Die Natali, Cap. XX: Para isso, aos trezentos e cinquenta e cinco dias que compunham o ano, ele (César) acrescentou dez, distribuídos pelos sete meses de vinte e nove dias, de modo que janeiro, agosto e dezembro recebiam dois, e os outros apenas um; e estes dias suplementares foram colocados apenas no fim do mês, para que as festas religiosas de cada mês mantivessem a sua data. É por isso que hoje, embora tenhamos sete meses de trinta e um dias, há quatro que, graças a esta disposição, se distinguem dos outros no sentido de que, para esses quatro meses, as nonas caem no dia 7, enquanto para os outros caem no dia 5.
Em 44 a.C., por proposta de António, quintilis tornou-se julius em homenagem a Júlio César e, mais tarde, sextilis tornou-se augustus.
Nesse momento, o ano apresentar-se-ia assim:
| 1-JANUARIUS: 31 j (+2) | 4-APRILIS: 30 j (+1) | 7-JULIUS: 31 j | 10-OCTOBER: 31 j |
| 2-FEBRUARIUS: 28 j (29 j) | 5-MAIUS: 31 j | 8-AUGUSTUS: 31 j (+2) | 11-NOVEMBER: 30 j (+1) |
| 3-MARTIUS: 31 j | 6-JUNIUS: 30 j (+1) | 9-SEPTEMBER: 30 j (+1) | 12-DECEMBER: 31 j (+2) |
Um fragmento de papiro (pOxy 61.4175), cuja análise foi publicada em 1999, permite saber mais sobre esta questão. Este papiro é uma efeméride de estrelas, tanto no calendário egípcio como no romano. Dataria de 730 A.U.C. (24 a.C.). A correspondência entre os dois calendários permite estabelecer que Kal. Sex. = 8 Mesorê e que Kal. Sept. = 4 Thot. Portanto, muito antes de Augusto, o mês sextilis já tinha 31 dias, o que reforça a segunda interpretação. Quanto à mudança de sextilis para augustus, teria ocorrido na reforma de Augusto, em 746 A.U.C. (8 a.C.). Seja qual for o método exato, o calendário juliano estava nascido.
Não foi preciso esperar muito para surgir um erro, pois em 44 a.C. (pouco tempo após a morte de César), o colégio dos pontífices - mais uma vez eles - passou a contar um ano bissexto de três em três anos, em vez de quatro. Este erro deve-se certamente ao hábito romano de contar como 1 o início de uma contagem (como já vimos). Contaram, portanto, 1,2,3,4 em vez de 0,1,2,3,4 (e com razão!! o zero ainda não existia).
Este erro durou algum tempo, já que só foi detetado no ano 8 a.C. Durante 36 anos, intercalaram-se 12 dias em vez de 9.
Augusto mandou corrigir esse erro, decretando que três anos bissextos seriam suprimidos (ao longo de 12 anos, portanto). Teria sido esta participação no calendário que lhe valeu ter um mês com o seu nome.
Para saber mais sobre o arranque errático do calendário juliano e as correções feitas por Augusto, veja a página dedicada às confusões do calendário juliano.
Os sucessores (ou a «boa vontade» desses sucessores) de Augusto tentaram em vão introduzir o seu nome no calendário (Neronius em abril, Claudius em maio, Germanius em junho, Tibérius em setembro). Para o último, foi o próprio Tibério quem se opôs.
Este calendário juliano, com a divisão dos seus meses, podia reproduzir-se de ano em ano sem qualquer modificação. Eis a sua estrutura:
Estrutura de um mês
Tomemos, por exemplo, o mês de janeiro (Januarius ou Ianuarius).
| 1 | Kalendis Januariis | Pequeno lembrete sobre as Calendas, Idos e Nonas: Três datas marcavam o mês e dividiam-no em períodos desiguais: - As calendas: era o primeiro dia do mês. O nome viria de Calare (proclamar), porque era nesse dia que se anunciavam as datas importantes. - Os idos: do termo etrusco iduare, que significa dividir. Marcavam o meio do mês: o dia 15 para *Martius*, *Maius*, *Julius* e *October*. O dia 17 para os outros meses. Não esqueçamos a aversão dos romanos aos dias pares. - As nonas: nono dia antes dos idos. Como o primeiro dia da contagem estava incluído, caíam no dia 5 ou no dia 7, consoante os idos fossem a 13 ou a 17. Os romanos indicavam cada dia em relação à «marca» seguinte: por exemplo, «três dias antes das calendas de março» ou «seis dias antes dos idos de agosto». A véspera de uma «marca» chamava-se Pridie. Por exemplo, Pridie Nonas para a véspera das nonas. Naturalmente, a véspera de *Pridie* não era o segundo dia antes da «marca», já que essa também era contada. Por exemplo, a véspera das nonas diz-se Pridie Nonas e a véspera de *Pridie* é... o terceiro dia antes das nonas. Note-se que fazemos a mesma coisa quando dizemos «daqui a oito dias», embora se trate de uma semana... de sete dias. O dia seguinte às calendas, às nonas e aos idos chamava-se postridie kalendas, postridie nonas e postridie idus. |
| 2 | ante diem quartum Nonas Januarias ou postridie kalendas Januarias | |
| 3 | Ante diem tertium Nonas Januarias | |
| 4 | Pridie Nonas Januarias | |
| 5 | Nonis januariis | |
| 6 | Ante diemoctavum Idus Januarias ou postridie Nonas Januarias | |
| 7 | Ante diem septimum Idus Januarias | |
| 8 | Ante diem sextum Idus Januarias | |
| 9 | Ante diem quintum Idus Januarias | |
| 10 | Ante diem quartum Idus Januarias | |
| 11 | Ante diem tertium Idus Januarias | |
| 12 | Pridie Idus Januarias | |
| 13 | Idibus Januariis | |
| 14 | ante diem undevicesimum Kalendas Februarias ou postridie idus Januarias | |
| 15 | ante diem duodevicesimum Kalendas Februarias | |
| 16 | ante diem septimum decimum Kalendas Februarias | |
| 17 | ante diem sextum decimum Kalendas Februarias | |
| 18 | ante diem quintum decimum Kalendas Februarias | |
| 19 | ante diem quartum decimum Kalendas Februarias | |
| 20 | ante diem tertium decimum Kalendas Februarias | |
| 21 | ante diem duodecimum Kalendas Februarias | |
| 22 | ante diem undecimum Kalendas Februarias | |
| 23 | ante diem decimum Kalendas Februarias | |
| 24 | ante diem nonum Kalendas Februarias | |
| 25 | ante diem octavum Kalendas Februarias | |
| 26 | ante diem septimum Kalendas Februarias | |
| 27 | ante diem sextum Kalendas Februarias | |
| 28 | ante diem quintum Kalendas Februarias | |
| 29 | ante diem quartum Kalendas Februarias | |
| 30 | ante diem tertium Kalendas Februarias | |
| 31 | Pridie Kalendas Februarias |
| Mês | Nome do mês | Dia das calendas, nonas ou idos | Outros dias |
|---|---|---|---|
| Janeiro | Ianuarius ou Januarius | Kalendis Februariis Nonis Februariis Idibus Februariis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Ianuarias ante diem... (ou pridie) Idus Ianuarias ante diem... (ou pridie) Kalendas Februarias |
| Fevereiro | Februarius | Kalendis Ianuariis Nonis Ianuariis Idibus Ianuariis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Februarias ante diem... (ou pridie) Idus Februarias ante diem... (ou pridie) Kalendas Martias |
| Março | Martius | Kalendis Martiis Nonis Martiis Idibus Martiis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Martias ante diem... (ou pridie) Idus Martias ante diem... (ou pridie) Kalendas Apriles |
| Abril | Aprilis | Kalendis Aprilibus Nonis Aprilibus Idibus Aprilibus |
ante diem... (ou pridie) Nonas Apriles ante diem... (ou pridie) Idus Apriles ante diem... (ou pridie) Kalendas Maias |
| Maio | Maius | Kalendis Maiis Nonis Maiis Idibus Maiis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Maias ante diem... (ou pridie) Idus Maias ante diem... (ou pridie) Kalendas Iunias |
| Junho | Iunius ou Junius | Kalendis Iuniis Nonis Iuniis Idibus Iuniis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Iunias ante diem... (ou pridie) Idus Iunias ante diem... (ou pridie) Kalendas Iulias |
| Julho | Iulius ou Julius | Kalendis Iuliis Nonis Iuliis Idibus Iuliis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Iulias ante diem... (ou pridie) Idus Iulias ante diem... (ou pridie) Kalendas Augustas |
| Agosto | Augustus | Kalendis Augustis Nonis Augustis Idibus Augustis |
ante diem... (ou pridie) Nonas Augustas ante diem... (ou pridie) Idus Augustas ante diem... (ou pridie) Kalendas Septembres |
| Setembro | September | Kalendis Septembribus Nonis Septembribus Idibus Septembribus |
ante diem... (ou pridie) Nonas Septembres ante diem... (ou pridie) Idus Septembres ante diem... (ou pridie) Kalendas Octobres |
| Outubro | October | Kalendis Octobribus Nonis Octobribus Idibus Octobribus |
ante diem... (ou pridie) Nonas Octobres ante diem... (ou pridie) Idus Octobres ante diem... (ou pridie) Kalendas Novembres |
| Novembro | November | Kalendis Novembribus Nonis Novembribus Idibus Novembribus |
ante diem... (ou pridie) Nonas Novembres ante diem... (ou pridie) Idus Novembres ante diem... (ou pridie) Kalendas Decembres |
| Dezembro | December | Kalendis Decembribus Nonis Decembribus Idibus Decembribus |
ante diem... (ou pridie) Nonas Decembres ante diem... (ou pridie) Idus Decembres ante diem... (ou pridie) Kalendas Ianuarias |
| Januarius Augustus December | Aprilis Junius September November | Martius Maius Julius October | Februarius (ano normal) | Februarius (ano bissexto) | |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Kalendis | Kalendis | Kalendis | Kalendis | Kalendis |
| 2 | IV | IV | VI | IV | IV |
| 3 | III | III | V | III | III |
| 4 | Pridie Nonas | Pridie Nonas | IV | Pridie Nonas | Pridie Nonas |
| 5 | Nonis | Nonis | III | Nonis | Nonis |
| 6 | VIII | VIII | Pridie Nonas | VIII | VIII |
| 7 | VII | VII | Nonae | VII | VII |
| 8 | VI | VI | VIII | VI | VI |
| 9 | V | V | VII | V | V |
| 10 | IV | IV | VI | IV | IV |
| 11 | III | III | V | III | III |
| 12 | Pridie Idus | Pridie Idus | IV | Pridie Idus | Pridie Idus |
| 13 | Idibus | Idibus | III | Idibus | Idibus |
| 14 | XIX | XVIII | Pridie Idus | XVI | XVI |
| 15 | XVIII | XVII | Idibus | XV | XV |
| 16 | XVII | XVI | XVII | XIV | XIV |
| 17 | XVI | XV | XVI | XIII | XIII |
| 18 | XV | XIV | XV | XII | XII |
| 19 | XIV | XIII | XIV | XI | XI |
| 20 | XIII | XII | XIII | X | X |
| 21 | XII | XI | XII | IX | IX |
| 22 | XI | X | XI | VIII | VIII |
| 23 | X | IX | X | VII | VII |
| 24 | IX | VIII | IX | VI | VI * |
| 25 | VIII | VII | VIII | V | bis VI * |
| 26 | VII | VI | VII | IV | V |
| 27 | VI | V | VI | III | IV |
| 28 | V | IV | V | Pridie Kalendas | III |
| 29 | IV | III | IV | 31 | Pridie Kalendas |
| 30 | III | Pridie Kalendas | III | 31 | A cada 4 anos |
| 31 | Pridie Kalendas | 31 | Pridie Kalendas | 31 |
O que faltava a este calendário para se tornar aquele que conhecemos hoje?
- Uma ligeira correção de duração, que veremos na última parte.
- A introdução das semanas.
Vamos ver a última dessas modificações, mas, antes disso, relaxemos um instante e tentemos interpretar um calendário da época.
Os fragmentos originais estão conservados no Museu das Termas de Diocleciano, em Roma. Bauglir / CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons
Trata-se aqui de um calendário pré-juliano, mas a apresentação manter-se-á a mesma após a reforma.
No topo, podemos ver o nome dos meses (JAN, FEB, MAR...) precedido de um k para Kalendae. Na margem, um ciclo de 8 letras que continua sem interrupção de um mês para o outro (A,B,C,D,E,F,G,H), correspondente ao ciclo de 8 dias das nundinas. Os idos e as nonas são indicados na coluna principal do mês (NON, EIDVS).
Ainda na coluna do mês, podemos ver um F para indicar um dia fasto, um N para indicar um dia nefasto e um C para indicar um dia comicial (dia em que se pode votar nos comícios).
Depois deste pequeno exercício, voltemos ao que ainda falta no calendário juliano: a semana.
Ela já existia nos calendários caldeus e hebraicos. Os cristãos inspiraram-se nesse modelo.
No primeiro século da nossa era, os cristãos ainda honravam o sábado judaico. Pouco a pouco, passaram a consagrar ao Senhor sobretudo o dia da Ressurreição, dia seguinte ao sábado, e isso tornou-se corrente no século II.
Mármore, obra romana, 312-315 d.C. Jean-Pol GRANDMONT, Capitoline Museums / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Constantino, imperador de 324 a 337.
Pelo Édito de Milão, concedeu total liberdade de culto à Igreja. Em 330 transferiu a sede do Império para Bizâncio. Em 337 deram-se o batismo e a morte de Constantino.
Em 312, o imperador Constantino, já convertido ao cristianismo, decretou o fim das perseguições aos cristãos. A este respeito, parece que Constantino estava disposto a «adotar» qualquer religião, desde que servisse os seus interesses políticos. Mas isso, no fim de contas, era problema dele. Ainda assim, é verdade que introduziu a religião no calendário juliano.
Sem alterar o calendário em si (duração do ano e divisão em 12 meses), fez três modificações importantes:
- Introdução do domingo como dia feriado na semana de 7 dias, por édito de 321.
- Reconhecimento oficial das festas cristãs de data fixa.
- Reconhecimento oficial da Páscoa como festa móvel no Concílio de Niceia, em 325. A Páscoa seria «celebrada em todo o lado no mesmo dia». Sim, certo, mas... quando? O Concílio de Niceia não o diz.
Ficava, portanto, apenas um problema por resolver para que o calendário juliano se tornasse o calendário usado nos nossos dias: adaptar, ao longo do tempo, a duração do ano ao ano trópico.
É isso que veremos na nossa última parte.
O início do ano nos calendários romanos
Quando começava o ano nos diferentes calendários romanos? A pergunta seria simples se tivesse existido apenas um tipo de ano.
Mas os romanos conheciam o ano religioso, o ano das magistraturas, o ano civil, talvez o ano agrícola...
Joannes Lamentius Lydus, dito João, o Lídio (primeira metade do século VI), escreve em De mensibus (Dos meses) 3.22 que os romanos distinguiam entre o ano «religioso», que começava em janeiro, e o ano «tradicional», que começava em março.
Esta distinção não tem nada de surpreendente. Nós próprios não distinguimos o ano civil, o ano escolar, o ano parlamentar...?
Annette Flobert, na sua tradução da História Romana de Tito Lívio, escreve na nota de tradução do livro III.36:
O ano civil começava em setembro (idos ou calendas) até 479 a.C. [275 A.U.C.], depois foi adiantado um mês (idos ou calendas de agosto). Fixado nos idos de dezembro de 449 [305 A.U.C.] a 401 [353 A.U.C.], evoluirá entre março e outubro até 153 [600 A.U.C.] (1 de janeiro).
Vejamos mais de perto este ano 600. Na sua História Romana, livro IV, cap. 1, Mommsen escreve que no ano 600:
“Conduzidos por um chefe de nome Púnico, os Lusitanos lançaram-se sobre a província romana, derrotaram os dois pretores reunidos e mataram muitos dos seus homens. Os Véttones (entre o Tejo e o Alto Douro) aproveitaram de imediato a ocasião para fazer causa comum com eles; e, reforçados por esses novos aliados, os bárbaros levaram as suas incursões até ao Mediterrâneo. Chegaram mesmo a devastar o território dos Bastulo-Fenícios, não longe da capital romana de Cartago Nova (Cartagena). Os seus ataques pareceram suficientemente graves em Roma para que se decidisse enviar um cônsul para o local, o que não se via desde 559 [195 a.C.]. E, como era urgente fazer partir os reforços, os dois cônsules entraram em funções dois meses e meio antes. A esta causa se liga a investidura dos supremos magistrados anuais, colocada doravante em 1 de janeiro, em vez de 15 de março. Por consequência, o início do ano ficou fixado na mesma data, usada desde então até aos nossos dias.
É, portanto, a partir desse ano 600 A.U.C. que o início do ano foi fixado em 1 de janeiro.
Mommsen escreve mais adiante na sua obra que "até 600, o ano oficial dos altos magistrados, cônsules, pretores, edis curuis, e mais tarde também dos edis plebeus, ia de 15 de março a 14 de março; o dos tribunos da plebe corria de 10 de dezembro a 9 de dezembro, sem tocar, aliás, no ano civil de 1 de março ao fim de fevereiro. Mas, a partir de 601, o novo ano oficial dos magistrados curuis, de 1 de janeiro ao fim de dezembro, passará também a constituir o ano civil usual. Vemos, por indicações precisas, que assim é desde o século VII de Roma; e, desde então, não se pode situar essa mudança numa data posterior, por exemplo na reforma do calendário por César."
Mas as tradições são difíceis de apagar, e continuaram a realizar-se solenidades ligadas ao antigo Ano Novo de março: renovação do fogo e dos louros no templo de Vesta, retirada dos escudos sagrados pendurados nas muralhas do antigo palácio dos reis...
E, como escrevemos acima, César terá de confirmar a abolição do Ano Novo do antigo calendário em 1 de março, para o substituir definitivamente por 1 de janeiro.