O calendário juliano

Esta página é a segunda de uma série de três partes que nos levam dos calendários romanos primitivos ao calendário gregoriano atual, passando pelo calendário juliano.

Um pouco de história

NOTA: Existem muitos livros e também muitos sites de Internet que explicam a história romana desde os seus primórdios até ao seu desaparecimento.

Por isso, o nosso «breve apontamento histórico» parecerá mais uma cronologia do que explicações detalhadas. O seu objetivo principal será situar-nos no tempo para acompanhar a evolução dos nossos calendários.

A cronologia de cada página corresponde aos calendários explicados nessa mesma página. Por isso, prolonga-se ao longo das três partes mencionadas no preâmbulo.

Continuemos o resumo da nossa cronologia da história romana e projetemo-nos até ao fim da República.

Retrato de Júlio César, realizado por volta do século I d.C., provavelmente no Egito, em ardósia verde. - 
Esta obra é chamada de "Grüner Caesar" (César Verde) pelos alemães e está conservada no Altes Museum, em Berlim.
Retrato de Júlio César, realizado por volta do século I d.C., provavelmente no Egito, em ardósia verde.
Esta obra é chamada de "Grüner Caesar" (César Verde) pelos alemães e está conservada no Altes Museum, em Berlim. Antikensammlung Berlin / Domínio público, via Wikimedia Commons
Retrato de Júlio César no Museu Arqueológico de Esparta, século I a.C.
Retrato de Júlio César no Museu Arqueológico de Esparta, século I a.C. George E. Koronaios / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Caius Julius César nasceu em Roma em 100 ou 102 a.C. e morreu em Roma em 44 a.C.

Busto de Otaviano em mármore, contemporâneo do soberano, conservado no Museu Capitolino, em Roma.
Busto de Otaviano em mármore, contemporâneo do soberano, conservado no Museu Capitolino, em Roma. Gautier Poupeau / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Augusto sob a figura de Júpiter, fotografia tirada no museu do Hermitage de São Petersburgo
Augusto sob a figura de Júpiter, fotografia tirada no museu do Hermitage de São Petersburgo S. I. Sosnovsky / CC BY-SA 4.0

Otávio Augusto nasceu em Roma (Veletri) em 63 a.C. e morreu em Nola em 14 d.C.

Duas palavras sobre Sosígenes e o seu meio. Por várias razões, entre elas Cleópatra, César tinha criado gosto pelo Egito.

Graças a Ptolemeu, general de Alexandre Magno, que se proclamou rei do Egito em -305 com o nome de Ptolemeu I Sóter, Alexandria acolheu sábios de todos os horizontes. Ele fundou a Grande Biblioteca.

Sucede-se em Alexandria uma longa linhagem de astrónomos de renome:

Talvez tenha sido numa festa organizada por Cleópatra que César conheceu Sosígenes, que lhe transmitiu as suas ideias sobre o calendário. Como a duração do ano que sairia da reforma seria inexata, pode perguntar-se porquê, já que é difícil imaginar que Sosígenes não conhecesse os trabalhos de Hiparco.

O(s) calendário(s)

A reforma do calendário romano por César deu origem a um calendário puramente solar.

Plutarco diz que «César recorreu aos melhores filósofos e matemáticos do seu tempo» para estabelecer o primeiro calendário. Naturalmente, Sosígenes estava entre eles.

Vimos na parte anterior que o ano antes da reforma se apresentava assim:

1-JANUARIUS: 29 j 4-APRILIS: 29 j 7-QUINTILIS: 31 j 10-OCTOBER: 31 j
2-FEBRUARIUS: 28 j 5-MAIUS: 31 j 8-SEXTILIS: 29 j 11-NOVEMBER: 29 j
3-MARTIUS: 31 j 6-JUNIUS: 29 j 9-SEPTEMBER: 29 j 12-DECEMBER: 29 j
Vimos também que, em 46 a.C., o calendário romano acumulava vários meses de atraso em relação ao ciclo solar, devido a uma distribuição desordenada dos meses intercalares. O próprio César não era alheio a isso, já que, embora fosse Grande Pontífice desde -63, só teria decretado uma vez um mês intercalar.

O problema da reforma era duplo:

1) Para resolver o primeiro problema, a solução foi radical: César ordenou acrescentar ao ano 46 a.C. dois meses intercalares de 33 e 34 dias entre november e december. Estes acréscimos somavam-se ainda a um mês intercalar clássico em februarius. Assim, foram acrescentados 90 dias ao ano 46 a.C., que passou a ter 445 dias. Para saber mais sobre este tema, veja a página dedicada às confusões do calendário juliano. Macróbio, escritor latino (séculos IV-V), designou esse ano como ultimus annus confisionis (o último ano da confusão).

2) Resolvido o problema do atraso calendárico, o novo calendário passou a vigorar a partir de 45 a.C.

Pode definir-se assim:

Segundo Plínio (História Natural XVIII), César colocou os equinócios e os solstícios no 8.º dia antes das calendas de abril, junho, outubro e janeiro, isto é, em 25 de março, 24 de junho, 24 de setembro e 25 de dezembro.

A)

Primeira interpretação (fontes históricas desconhecidas): numa primeira fase, teria existido alternância estrita de meses de 31 e 30 dias, com exceção de februarius, que teria 29 dias (30 nos anos bissextos). Em 44 a.C., por proposta de António, quintilis tornou-se julius em homenagem a Júlio César.

Nesse momento, o ano apresentar-se-ia assim:

1-JANUARIUS: 31 j 4-APRILIS: 30 j 7-JULIUS: 31 j 10-OCTOBER: 30 j
2-FEBRUARIUS: 29 j (30 j) 5-MAIUS: 31 j 8-SEXTILIS: 30 j 11-NOVEMBER: 31 j
3-MARTIUS: 31 j 6-JUNIUS: 30 j 9-SEPTEMBER: 31 j 12-DECEMBER: 30 j
*Nota:* deixamos os meses *Januarius*, *Junius* e *Julius* escritos com **J**. Mas a letra **J** já estaria inventada? Caso contrário, seria preciso escrever *Ianuarius*, *Iunius* e *Iulius*.

Sob Augusto, o Senado quis honrar o seu imperador, por uma razão que mencionaremos mais adiante, e deu o seu nome a sextilis, que se tornou augustus (agosto). Naturalmente, agosto não podia ter menos dias do que julius e passou, portanto, a 31 dias. Esse dia suplementar de augustus foi compensado com um dia a menos em februarius, que passou a 28 dias (29 nos anos bissextos). Além disso, para evitar uma sucessão de três meses de 31 dias, inverteu-se a duração dos meses em september, october, november e december, e o ano ficou assim:

1-JANUARIUS: 31 j 4-APRILIS: 30 j 7-JULIUS: 31 j 10-OCTOBER: 31 j
2-FEBRUARIUS: 28 j (29 j) 5-MAIUS: 31 j 8-AUGUSTUS: 31 j 11-NOVEMBER: 30 j
3-MARTIUS: 31 j 6-JUNIUS: 30 j 9-SEPTEMBER: 30 j 12-DECEMBER: 31 j

B) Segunda interpretação

Para esta versão, as fontes existem, e cito uma:

Censorino, De Die Natali, Cap. XX: Para isso, aos trezentos e cinquenta e cinco dias que compunham o ano, ele (César) acrescentou dez, distribuídos pelos sete meses de vinte e nove dias, de modo que janeiro, agosto e dezembro recebiam dois, e os outros apenas um; e estes dias suplementares foram colocados apenas no fim do mês, para que as festas religiosas de cada mês mantivessem a sua data. É por isso que hoje, embora tenhamos sete meses de trinta e um dias, há quatro que, graças a esta disposição, se distinguem dos outros no sentido de que, para esses quatro meses, as nonas caem no dia 7, enquanto para os outros caem no dia 5.

Em 44 a.C., por proposta de António, quintilis tornou-se julius em homenagem a Júlio César e, mais tarde, sextilis tornou-se augustus.

Nesse momento, o ano apresentar-se-ia assim:

1-JANUARIUS: 31 j (+2) 4-APRILIS: 30 j (+1) 7-JULIUS: 31 j 10-OCTOBER: 31 j
2-FEBRUARIUS: 28 j (29 j) 5-MAIUS: 31 j 8-AUGUSTUS: 31 j (+2) 11-NOVEMBER: 30 j (+1)
3-MARTIUS: 31 j 6-JUNIUS: 30 j (+1) 9-SEPTEMBER: 30 j (+1) 12-DECEMBER: 31 j (+2)
*Comentários sobre as duas interpretações:* Pode observar-se que as duas interpretações chegam ao mesmo resultado, mas a segunda não passa por uma reorganização do número de dias dos meses na época de Augusto, pois, desde César, o ano já teria a forma definitiva.

Um fragmento de papiro (pOxy 61.4175), cuja análise foi publicada em 1999, permite saber mais sobre esta questão. Este papiro é uma efeméride de estrelas, tanto no calendário egípcio como no romano. Dataria de 730 A.U.C. (24 a.C.). A correspondência entre os dois calendários permite estabelecer que Kal. Sex. = 8 Mesorê e que Kal. Sept. = 4 Thot. Portanto, muito antes de Augusto, o mês sextilis já tinha 31 dias, o que reforça a segunda interpretação. Quanto à mudança de sextilis para augustus, teria ocorrido na reforma de Augusto, em 746 A.U.C. (8 a.C.). Seja qual for o método exato, o calendário juliano estava nascido.

Não foi preciso esperar muito para surgir um erro, pois em 44 a.C. (pouco tempo após a morte de César), o colégio dos pontífices - mais uma vez eles - passou a contar um ano bissexto de três em três anos, em vez de quatro. Este erro deve-se certamente ao hábito romano de contar como 1 o início de uma contagem (como já vimos). Contaram, portanto, 1,2,3,4 em vez de 0,1,2,3,4 (e com razão!! o zero ainda não existia).

Este erro durou algum tempo, já que só foi detetado no ano 8 a.C. Durante 36 anos, intercalaram-se 12 dias em vez de 9.

Augusto mandou corrigir esse erro, decretando que três anos bissextos seriam suprimidos (ao longo de 12 anos, portanto). Teria sido esta participação no calendário que lhe valeu ter um mês com o seu nome.

Para saber mais sobre o arranque errático do calendário juliano e as correções feitas por Augusto, veja a página dedicada às confusões do calendário juliano.

Os sucessores (ou a «boa vontade» desses sucessores) de Augusto tentaram em vão introduzir o seu nome no calendário (Neronius em abril, Claudius em maio, Germanius em junho, Tibérius em setembro). Para o último, foi o próprio Tibério quem se opôs.

Este calendário juliano, com a divisão dos seus meses, podia reproduzir-se de ano em ano sem qualquer modificação. Eis a sua estrutura:

Estrutura de um mês

Tomemos, por exemplo, o mês de janeiro (Januarius ou Ianuarius).

1 Kalendis Januariis Pequeno lembrete sobre as Calendas, Idos e Nonas:

Três datas marcavam o mês e dividiam-no em períodos desiguais:

- As calendas: era o primeiro dia do mês. O nome viria de Calare (proclamar), porque era nesse dia que se anunciavam as datas importantes.

- Os idos: do termo etrusco iduare, que significa dividir. Marcavam o meio do mês: o dia 15 para *Martius*, *Maius*, *Julius* e *October*. O dia 17 para os outros meses. Não esqueçamos a aversão dos romanos aos dias pares.

- As nonas: nono dia antes dos idos. Como o primeiro dia da contagem estava incluído, caíam no dia 5 ou no dia 7, consoante os idos fossem a 13 ou a 17.

Os romanos indicavam cada dia em relação à «marca» seguinte: por exemplo, «três dias antes das calendas de março» ou «seis dias antes dos idos de agosto».

A véspera de uma «marca» chamava-se Pridie. Por exemplo, Pridie Nonas para a véspera das nonas. Naturalmente, a véspera de *Pridie* não era o segundo dia antes da «marca», já que essa também era contada. Por exemplo, a véspera das nonas diz-se Pridie Nonas e a véspera de *Pridie* é... o terceiro dia antes das nonas. Note-se que fazemos a mesma coisa quando dizemos «daqui a oito dias», embora se trate de uma semana... de sete dias.

O dia seguinte às calendas, às nonas e aos idos chamava-se postridie kalendas, postridie nonas e postridie idus.
2 ante diem quartum Nonas Januarias
ou postridie kalendas Januarias
3 Ante diem tertium Nonas Januarias
4 Pridie Nonas Januarias
5 Nonis januariis
6 Ante diemoctavum Idus Januarias
ou postridie Nonas Januarias
7 Ante diem septimum Idus Januarias
8 Ante diem sextum Idus Januarias
9 Ante diem quintum Idus Januarias
10 Ante diem quartum Idus Januarias
11 Ante diem tertium Idus Januarias
12 Pridie Idus Januarias
13 Idibus Januariis
14 ante diem undevicesimum Kalendas Februarias
ou postridie idus Januarias
15 ante diem duodevicesimum Kalendas Februarias
16 ante diem septimum decimum Kalendas Februarias
17 ante diem sextum decimum Kalendas Februarias
18 ante diem quintum decimum Kalendas Februarias
19 ante diem quartum decimum Kalendas Februarias
20 ante diem tertium decimum Kalendas Februarias
21 ante diem duodecimum Kalendas Februarias
22 ante diem undecimum Kalendas Februarias
23 ante diem decimum Kalendas Februarias
24 ante diem nonum Kalendas Februarias
25 ante diem octavum Kalendas Februarias
26 ante diem septimum Kalendas Februarias
27 ante diem sextum Kalendas Februarias
28 ante diem quintum Kalendas Februarias
29 ante diem quartum Kalendas Februarias
30 ante diem tertium Kalendas Februarias
31 Pridie Kalendas Februarias
Para os outros meses, diremos:
Mês Nome do mês Dia das calendas, nonas ou idos Outros dias
Janeiro Ianuarius ou Januarius Kalendis Februariis
Nonis Februariis
Idibus Februariis
ante diem... (ou pridie) Nonas Ianuarias
ante diem... (ou pridie) Idus Ianuarias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Februarias
Fevereiro Februarius Kalendis Ianuariis
Nonis Ianuariis
Idibus Ianuariis
ante diem... (ou pridie) Nonas Februarias
ante diem... (ou pridie) Idus Februarias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Martias
Março Martius Kalendis Martiis
Nonis Martiis
Idibus Martiis
ante diem... (ou pridie) Nonas Martias
ante diem... (ou pridie) Idus Martias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Apriles
Abril Aprilis Kalendis Aprilibus
Nonis Aprilibus
Idibus Aprilibus
ante diem... (ou pridie) Nonas Apriles
ante diem... (ou pridie) Idus Apriles
ante diem... (ou pridie) Kalendas Maias
Maio Maius Kalendis Maiis
Nonis Maiis
Idibus Maiis
ante diem... (ou pridie) Nonas Maias
ante diem... (ou pridie) Idus Maias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Iunias
Junho Iunius ou Junius Kalendis Iuniis
Nonis Iuniis
Idibus Iuniis
ante diem... (ou pridie) Nonas Iunias
ante diem... (ou pridie) Idus Iunias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Iulias
Julho Iulius ou Julius Kalendis Iuliis
Nonis Iuliis
Idibus Iuliis
ante diem... (ou pridie) Nonas Iulias
ante diem... (ou pridie) Idus Iulias
ante diem... (ou pridie) Kalendas Augustas
Agosto Augustus Kalendis Augustis
Nonis Augustis
Idibus Augustis
ante diem... (ou pridie) Nonas Augustas
ante diem... (ou pridie) Idus Augustas
ante diem... (ou pridie) Kalendas Septembres
Setembro September Kalendis Septembribus
Nonis Septembribus
Idibus Septembribus
ante diem... (ou pridie) Nonas Septembres
ante diem... (ou pridie) Idus Septembres
ante diem... (ou pridie) Kalendas Octobres
Outubro October Kalendis Octobribus
Nonis Octobribus
Idibus Octobribus
ante diem... (ou pridie) Nonas Octobres
ante diem... (ou pridie) Idus Octobres
ante diem... (ou pridie) Kalendas Novembres
Novembro November Kalendis Novembribus
Nonis Novembribus
Idibus Novembribus
ante diem... (ou pridie) Nonas Novembres
ante diem... (ou pridie) Idus Novembres
ante diem... (ou pridie) Kalendas Decembres
Dezembro December Kalendis Decembribus
Nonis Decembribus
Idibus Decembribus
ante diem... (ou pridie) Nonas Decembres
ante diem... (ou pridie) Idus Decembres
ante diem... (ou pridie) Kalendas Ianuarias
### Estrutura do ano Simplifiquemos um pouco para nos concentrarmos apenas na estrutura geral.
Januarius Augustus December Aprilis Junius September November Martius Maius Julius October Februarius (ano normal) Februarius (ano bissexto)
1 Kalendis Kalendis Kalendis Kalendis Kalendis
2 IV IV VI IV IV
3 III III V III III
4 Pridie Nonas Pridie Nonas IV Pridie Nonas Pridie Nonas
5 Nonis Nonis III Nonis Nonis
6 VIII VIII Pridie Nonas VIII VIII
7 VII VII Nonae VII VII
8 VI VI VIII VI VI
9 V V VII V V
10 IV IV VI IV IV
11 III III V III III
12 Pridie Idus Pridie Idus IV Pridie Idus Pridie Idus
13 Idibus Idibus III Idibus Idibus
14 XIX XVIII Pridie Idus XVI XVI
15 XVIII XVII Idibus XV XV
16 XVII XVI XVII XIV XIV
17 XVI XV XVI XIII XIII
18 XV XIV XV XII XII
19 XIV XIII XIV XI XI
20 XIII XII XIII X X
21 XII XI XII IX IX
22 XI X XI VIII VIII
23 X IX X VII VII
24 IX VIII IX VI VI *
25 VIII VII VIII V bis VI *
26 VII VI VII IV V
27 VI V VI III IV
28 V IV V Pridie Kalendas III
29 IV III IV 31 Pridie Kalendas
30 III Pridie Kalendas III 31 A cada 4 anos
31 Pridie Kalendas 31 Pridie Kalendas 31
**\*** Também se encontra por vezes **a. d. VI. Kal. Mart. posteriorem** para o dia 24 e **a. d. VI. Kal. Mart. priorem** para o dia 25.

O que faltava a este calendário para se tornar aquele que conhecemos hoje?

  1. Uma ligeira correção de duração, que veremos na última parte.
  2. A introdução das semanas.

Vamos ver a última dessas modificações, mas, antes disso, relaxemos um instante e tentemos interpretar um calendário da época.

Calendário de Anzio (Fasti Antiates) reconstituído, exposto no Museo del Teatro de Caesaraugusta (Saragoça, Espanha). Este calendário é datado entre 84 e 55 a.C.  - 
Os fragmentos originais estão conservados no Museu das Termas de Diocleciano, em Roma.
Calendário de Anzio (Fasti Antiates) reconstituído, exposto no Museo del Teatro de Caesaraugusta (Saragoça, Espanha). Este calendário é datado entre 84 e 55 a.C.
Os fragmentos originais estão conservados no Museu das Termas de Diocleciano, em Roma. Bauglir / CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

Trata-se aqui de um calendário pré-juliano, mas a apresentação manter-se-á a mesma após a reforma.

No topo, podemos ver o nome dos meses (JAN, FEB, MAR...) precedido de um k para Kalendae. Na margem, um ciclo de 8 letras que continua sem interrupção de um mês para o outro (A,B,C,D,E,F,G,H), correspondente ao ciclo de 8 dias das nundinas. Os idos e as nonas são indicados na coluna principal do mês (NON, EIDVS).

Ainda na coluna do mês, podemos ver um F para indicar um dia fasto, um N para indicar um dia nefasto e um C para indicar um dia comicial (dia em que se pode votar nos comícios).

Depois deste pequeno exercício, voltemos ao que ainda falta no calendário juliano: a semana.

Ela já existia nos calendários caldeus e hebraicos. Os cristãos inspiraram-se nesse modelo.

No primeiro século da nossa era, os cristãos ainda honravam o sábado judaico. Pouco a pouco, passaram a consagrar ao Senhor sobretudo o dia da Ressurreição, dia seguinte ao sábado, e isso tornou-se corrente no século II.

Cabeça do Colosso de Constantino; esta parte mede 2,60 metros de altura. O colosso completo devia medir cerca de 12 metros de altura
 - Mármore, obra romana, 312-315 d.C.
Cabeça do Colosso de Constantino; esta parte mede 2,60 metros de altura. O colosso completo devia medir cerca de 12 metros de altura
Mármore, obra romana, 312-315 d.C. Jean-Pol GRANDMONT, Capitoline Museums / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Constantino, imperador de 324 a 337.
Pelo Édito de Milão, concedeu total liberdade de culto à Igreja. Em 330 transferiu a sede do Império para Bizâncio. Em 337 deram-se o batismo e a morte de Constantino.

Em 312, o imperador Constantino, já convertido ao cristianismo, decretou o fim das perseguições aos cristãos. A este respeito, parece que Constantino estava disposto a «adotar» qualquer religião, desde que servisse os seus interesses políticos. Mas isso, no fim de contas, era problema dele. Ainda assim, é verdade que introduziu a religião no calendário juliano.

Sem alterar o calendário em si (duração do ano e divisão em 12 meses), fez três modificações importantes:

Ficava, portanto, apenas um problema por resolver para que o calendário juliano se tornasse o calendário usado nos nossos dias: adaptar, ao longo do tempo, a duração do ano ao ano trópico.

É isso que veremos na nossa última parte.

O início do ano nos calendários romanos

Quando começava o ano nos diferentes calendários romanos? A pergunta seria simples se tivesse existido apenas um tipo de ano.

Mas os romanos conheciam o ano religioso, o ano das magistraturas, o ano civil, talvez o ano agrícola...

Joannes Lamentius Lydus, dito João, o Lídio (primeira metade do século VI), escreve em De mensibus (Dos meses) 3.22 que os romanos distinguiam entre o ano «religioso», que começava em janeiro, e o ano «tradicional», que começava em março.

Esta distinção não tem nada de surpreendente. Nós próprios não distinguimos o ano civil, o ano escolar, o ano parlamentar...?

Annette Flobert, na sua tradução da História Romana de Tito Lívio, escreve na nota de tradução do livro III.36:

O ano civil começava em setembro (idos ou calendas) até 479 a.C. [275 A.U.C.], depois foi adiantado um mês (idos ou calendas de agosto). Fixado nos idos de dezembro de 449 [305 A.U.C.] a 401 [353 A.U.C.], evoluirá entre março e outubro até 153 [600 A.U.C.] (1 de janeiro).

Vejamos mais de perto este ano 600. Na sua História Romana, livro IV, cap. 1, Mommsen escreve que no ano 600:

Conduzidos por um chefe de nome Púnico, os Lusitanos lançaram-se sobre a província romana, derrotaram os dois pretores reunidos e mataram muitos dos seus homens. Os Véttones (entre o Tejo e o Alto Douro) aproveitaram de imediato a ocasião para fazer causa comum com eles; e, reforçados por esses novos aliados, os bárbaros levaram as suas incursões até ao Mediterrâneo. Chegaram mesmo a devastar o território dos Bastulo-Fenícios, não longe da capital romana de Cartago Nova (Cartagena). Os seus ataques pareceram suficientemente graves em Roma para que se decidisse enviar um cônsul para o local, o que não se via desde 559 [195 a.C.]. E, como era urgente fazer partir os reforços, os dois cônsules entraram em funções dois meses e meio antes. A esta causa se liga a investidura dos supremos magistrados anuais, colocada doravante em 1 de janeiro, em vez de 15 de março. Por consequência, o início do ano ficou fixado na mesma data, usada desde então até aos nossos dias.

É, portanto, a partir desse ano 600 A.U.C. que o início do ano foi fixado em 1 de janeiro.

Mommsen escreve mais adiante na sua obra que "até 600, o ano oficial dos altos magistrados, cônsules, pretores, edis curuis, e mais tarde também dos edis plebeus, ia de 15 de março a 14 de março; o dos tribunos da plebe corria de 10 de dezembro a 9 de dezembro, sem tocar, aliás, no ano civil de 1 de março ao fim de fevereiro. Mas, a partir de 601, o novo ano oficial dos magistrados curuis, de 1 de janeiro ao fim de dezembro, passará também a constituir o ano civil usual. Vemos, por indicações precisas, que assim é desde o século VII de Roma; e, desde então, não se pode situar essa mudança numa data posterior, por exemplo na reforma do calendário por César."

Mas as tradições são difíceis de apagar, e continuaram a realizar-se solenidades ligadas ao antigo Ano Novo de março: renovação do fogo e dos louros no templo de Vesta, retirada dos escudos sagrados pendurados nas muralhas do antigo palácio dos reis...

E, como escrevemos acima, César terá de confirmar a abolição do Ano Novo do antigo calendário em 1 de março, para o substituir definitivamente por 1 de janeiro.