Um pouco de história
História de Madagáscar
Tomemos rapidamente conhecimento da história de Madagáscar através das nossas lentes «especiais calendários», que nos vão permitir descobrir os pontos importantes para ancorar o calendário malgaxe no tempo. E, claro, debrucemo-nos particularmente sobre as origens da população malgaxe a partir de fontes da Encyclopédie Universalis.
Mestiçagens seculares e migrações internas moldaram um povo autenticamente «afro-asiático», como atesta, sobre um fundo real de unidade cultural e até linguística, o leque das dezoito etnias oficialmente recenseadas, algumas com subgrupos e clãs próprios. A partir do fim do século XIX, a colonização favoreceu a implantação duradoura de minorias estrangeiras, europeias e nomeadamente francesas (os Vazaha), chinesas, indo-paquistanesas muçulmanas (os Karana) e comorianas; comunidades modestas em número de indivíduos (algumas dezenas de milhares no total), mas economicamente poderosas, por vezes dominantes....
A questão do povoamento de Madagáscar continua a ser objeto de investigação e debate, mas dois pontos parecem hoje comprovados: o subcontinente malgaxe não apresenta vestígios de pré-homínidos, ao passo que a África vizinha, austral e oriental, reivindica com bons argumentos paleontológicos o estatuto de berço da humanidade; além disso, o povoamento original da Grande Ilha, resultante de migrações da Ásia e de África, seria relativamente recente (séculos VIII-XIII d.C.).
A diversidade antropológica dos Malgaxes é evidente. Alguns tipos evocam a Indonésia, outros a África; os tipos mistos são os mais frequentes, consequência de mestiçagens múltiplas, antigas ou mais recentes, entre originários da Ásia e de África, eles próprios matizados por outros contributos asiáticos e europeus. Uma diversidade que se manifesta sobre um fundo incontestável de unidade e que constitui toda a originalidade da pessoa e da personalidade malgaxes. O poeta Jacques Rabemananjara resume-o assim (Présence de Madagascar, 1957): « Visitantes malaios, asiáticos, africanos, europeus aí deixaram em conjunto ou alternadamente as suas marcas e os seus tipos. Da sua mistura secular formou-se um povo intermédio difícil de definir e, no entanto, tipicamente reconhecível: o Malgaxe contemporâneo. » Para o presidente Tsiranana, os Malgaxes eram «os únicos verdadeiros Afro-Asiáticos». De forma mais sumária, a distinção tradicional entre Merina e Costeiros remete para origens longínquas: Indonésia (ou antes Austronésia, segundo a fórmula em voga) para os primeiros e África para os restantes. Será preciso nuancear.
Foram, portanto, Indonésios (Austronésios) os primeiros a chegar. Avançou-se a hipótese de navegadores em pirogas com balancim vindos do sul da Ásia e da costa africana, onde uma primeira mistura teria ocorrido antes de chegarem a Madagáscar. Também se supôs uma chegada mais tardia de Indonésios com embarcações maiores, que teriam primeiro lançado expedições de pilhagem, ou mesmo de colonização, na costa africana antes de alcançarem a Grande Ilha.
A língua, essa, é de origem indonésia (antigamente dizia-se malaio-polinésia). Isso confere a Madagáscar um fundo de unidade linguística muito real, apesar das variações dialetais e dos aportes de vocabulário africano (bantu) e de termos árabes que enriqueceram progressivamente esta língua, cuja transcrição escrita só viria a ser realizada no século XIX.
Os Europeus, por seu lado, só chegaram a esta região, muito depois dos navegadores asiáticos e árabes, no início do século XVI. Na sequência dos Portugueses (que batizaram a ilha descoberta por eles de ilha de São Lourenço) e dos Holandeses, que deixaram pouca marca, vieram os Ingleses e os Franceses no quadro da competição colonial pelo domínio das ilhas do sudoeste do oceano Índico, nomeadamente as Mascarenhas. Os relatos de viagem destes descobridores e/ou conquistadores constituem os primeiros elementos escritos de uma história de Madagáscar a partir, naturalmente, de um ponto de vista europeu (ou eurocêntrico, como hoje se diz) e com base em observações e informações orais limitadas.
Há cerca de vinte anos, a revista Omaly sy Anio (ontem e hoje), publicada pelo departamento de história da universidade de Antananarivo, mantém com mérito, em condições materiais e universitárias tornadas muito difíceis, um trabalho de análise e de crítica histórica sem o qual um país não tem história.
Madagáscar tem precisamente uma história rica e agitada no que diz respeito à época moderna e contemporânea. Desde 1820, a Grande Ilha, que deve o seu início de unidade política ao reinado do rei Andrianampoinimerina (1787-1810), apresenta-se como Estado internacionalmente reconhecido, enquanto na África vizinha a maioria dos países não são, do ponto de vista europeu, senão «territórios sem dono» (res nullius). Andrianampoinimerina restabelece a unidade política merina: após longas guerras, ele, que tinha usurpado um dos reinos, consegue apoderar-se dos outros três. Transfere a capital de Ambohimanga, que permaneceu colina sagrada, para Antananarivo, situada numa colina a trinta quilómetros.
No século XVII, o país, que adotou o nome de Imerina («país que se vê de longe à luz do dia»), e os seus habitantes, chamados Merina, desenvolve-se em todos os planos: económico, demográfico e político. Tornada célebre pelas suas rainhas sucessivas, a monarquia merina, aberta ao mundo ocidental e ao cristianismo (apesar da resistência da rainha Ranavalona I, 1828-1861), acaba por ceder à conquista colonial francesa em 1896: colónia sob a III República, depois território ultramarino (T.O.M.) sob a IV República, Madagáscar torna-se Estado autónomo no quadro da Comunidade criada pela V República francesa em 1958, e obtém finalmente a independência em 1960.
Em cerca de trinta anos, sucedem-se três regimes políticos. Primeiro, a I República malgaxe, dirigida até 1972 pelo presidente Philibert Tsiranana, que não esconde a sua fidelidade às democracias ocidentais. Na sequência de uma crise de regime, que prossegue na confusão até ao fim de 1975, surge uma segunda república, que se reclama da ideologia socialista revolucionária. Animada pelo presidente Didier Ratsiraka, esta República Democrática de Madagáscar (R.D.M.) afunda-se progressivamente na desordem económica e política. Após muitas peripécias, Madagáscar regressa, em 1992, a um regime pluralista e moderado no quadro de uma III República totalmente nova, então em fase de instalação. O ano de 1993 abre assim um período político inédito em Madagáscar, após uma transição democrática agitada. As incertezas, no entanto, não desaparecem, pois trata-se, em definitivo, de construir um novo contrato social numa sociedade que, desde 1972, foi profundamente perturbada... fonte Encyclopédie Universalis.
E, para terminar, vejamos o mapa geográfico de Madagáscar e o das etnias, cuja multiplicidade vai desempenhar um grande papel nos calendários malgaxes.
Alguns dados gerais
- Nome oficial: Repoblikan'i Madagasikara (República de Madagáscar)
- Superfície: 587 041 km2 (ligeiramente maior do que a França). Terceira ilha do mundo se não considerarmos a Austrália, que é um continente.
- Capital: Antananarivo
- População: 16,5 milhões de habitantes (julho de 2002)
- Etnias: O povo malgaxe é composto por 18 etnias de origem indo-malaia ou africana e por minorias francesa, comoriana, indiana, paquistanesa e chinesa. No entanto, trata-se de uma terminologia tão inadequada como falar em França de etnias para os bretões, os bascos, os alsacianos ou os provençais! Cada povo da ilha tem tradições e identidade de grupo, mas todos se consideram Malagasy e partilham a mesma língua, falada em todo o país.
- Línguas: Malgaxe e francês
- Religiões: Cristianismo, religião tradicional e islamismo
- Instituições políticas: Regime presidencial
- Presidente: Marc Ravalomanana
- Primeiro-ministro: Jacques Sylla
- Moeda: o franco malgaxe (FMG)
O calendário
Em jeito de introdução
Confesso que nunca, desde que estudo calendários, tive tantas dificuldades em obter informações sobre um calendário tradicional. A maioria das respostas, quando existiam, às minhas perguntas dirigidas a pessoas que eu pensava terem alguns elementos de resposta, eram demasiado vagas, e os textos são muito raros.
Por isso, se algum Malgaxe que leia estas linhas puder, diretamente ou perguntando aos «mais velhos», dar o seu contributo à nossa «investigação», que não hesite! Seria muito simpático da sua parte.
Os calendários
Tendo em conta o que precede, e se me permite, não vamos abordar a descoberta do que se pode entrever do calendário malgaxe como fazemos habitualmente, mas antes como uma investigação. Vamos partir de textos escritos (poucos) e ver, em função do que sabemos de outros calendários, o que se pode razoavelmente concluir.
Digamo-lo desde já: faltam algumas pedras nesta construção, e qualquer pessoa que nos ajude a consolidá-la será bem-vinda. Não hesite em enviar-me uma mensagem se pensar ter o mínimo elemento que possa confirmar conclusões, desmenti-las ou completá-las.
Vamos a isso?
A nossa investigação começa com três textos publicados em jornais malgaxes ou na Internet.
Alahamady: o Ano Novo malgaxe será celebrado na próxima semana
Fonte Midi Madagasikara
sexta-feira, 21 de novembro de 2003, por TIM France
“Este ano, o Ano Novo malgaxe cai a 24 de novembro, ou seja, no início da próxima semana. À semelhança dos Chineses, os Malgaxes «antigos» celebravam o novo ano noutro dia que não o primeiro de janeiro do calendário gregoriano. Com efeito, entre nós, a noção de espaço-tempo está ligada à noção de destino, e é essa consideração que rege o seu universo sociocultural.
A vida quotidiana do Malgaxe baseia-se assim nos astros e na sua relação com a Lua. Caracterizado pelo Banho Real e pelo culto dos Antepassados, desde o reinado de Ralambo (1575-1610), em todos os lugares sagrados do centro do país, o Alahamady é sinónimo de ablução e purificação. Neste período, amigos e inimigos apertam a mão, fraternidade e convivência são as palavras-chave, diferendos e rancores são postos de lado…
Em geral, o ano, que dura 354 dias, subdivide-se em 12 meses lunares de 28 dias, e a semana malgaxe começa na quinta-feira e termina na quarta-feira. Por exemplo, o primeiro mês Alahamady do ano 2003 começou a 4 de dezembro e terminou a 1 de janeiro. Para o ano de 2004, durará de 24 de novembro a 22 de dezembro… Durante três dias, danças, músicas, hiragasy, vários jogos, carne de zebu em abundância, lanternas e kabary animarão as poucas comunidades que ainda o celebram. O Alahamady já não é celebrado com o fausto de outrora, mas continua a ser festejado através da ilha, nomeadamente em Imerina e na região Antemoro...
Wanadoo Madagascar
Duas luas novas para o Alahamady, o Ano Novo malgaxe
16-03-2004 / 00:48
“O primeiro dia do ano malgaxe de 2004, ou Alahamadibe, corresponde ao dia 21 de março do calendário gregoriano. A efeméride malgaxe é concebida de acordo com o movimento astral e, desta vez, o novo ano é bastante particular, segundo as explicações de Henri Randrianjatovo, diretor da Casa da Cultura Malgaxe, e de David Rakoto, membro da associação Jaky Mena.
De facto, a Lua e o Sol encontrar-se-ão nesse dia, por volta da 1h45, no grupo do zodíaco Alahamady, correspondente ao signo de Carneiro. Este fenómeno só tinha ocorrido uma vez, em 1909, e só se repetirá pela terceira vez em 2023. Além disso, este ano será marcado por duas luas novas de Alahamady, em 21 de março e 29 de abril próximos. O que é sinal de glória, afirmaram estes dois intervenientes numa conferência organizada com a Radio Feon'Imerina, na Tranompokonolona Analakely, no sábado passado.
Além disso, o Alahamadibe é um grande acontecimento na tradição malgaxe. Marca o fim do período chuvoso, ou Fararano, e o início da colheita. É, de certo modo, o fim da miséria. O Alahamadibe coincide também com a celebração do aniversário de três soberanos malgaxes: Ralambo, Andriamasinavalona e Andrianampoinimerina. Por todas estas razões, o novo ano malgaxe é celebrado com alegria e júbilo, como convém em cada início de ano.
V. A.
© Midi-Madagasikara
Ano Novo malgaxe
Datado de 15/03/2004:
“O ano novo malgaxe tradicional será em 21 de março de 2004, às 1h42 da manhã. É nesse instante que o Sol e a Lua entrarão juntos e ao mesmo tempo no signo zodiacal de Alahamady ou Carneiro. Esta conclusão vem da associação Jaky Mena (que reúne os descendentes dos últimos reinantes, a saber, os Zanakandriana, Zazamarolahy e Andriamasinavalona), do Trano Koltoraly Malagasy e da rádio Feon’Imerina.
No sábado passado, uma comunicação pública sobre este ano novo malgaxe foi organizada por estas três entidades, no Tranompokolona Analakely. Trata-se de uma sensibilização para a memorização e celebração desta data lendária.
Segundo as explicações, este facto muito raro só ocorreu e só ocorrerá, no total, 4 vezes em 150 anos (de 1890 a 2050): em 1909, 1928, 2004 e 2023. De facto, todos os anos, se o Sol entra sempre no signo Alahamady a 21 de março, a Lua, por sua vez, só entra mais tarde, e o seu alinhamento face à Terra será o eclipse total do Sol, também chamado lua nova de Alahamady, ou Tsinan’Alahamady, que é o ano novo malgaxe (o 1.º dia do 1.º mês). O Sol entrará este ano no signo Alahamady (no ângulo 0°), assim como a Lua. O seu alinhamento ocorrerá ao mesmo tempo em 21 de março. Segundo os conhecedores de astronomia, haverá dois Tsinan’Alahamady este ano. De facto, o Sol e a Lua alinhar-se-ão uma nova vez no signo zodiacal de Alahamady em 19 de abril de 2004 às 16h22. São factos científicos que nada têm a ver com fé ou qualquer ideia de culto.
O primeiro mês hebraico, chamado Nissan ou Abib, é exatamente semelhante ao 1.º mês malgaxe, com a diferença de que eles celebram a lua cheia desse mês na Páscoa; os cristãos, por sua vez, celebram a Páscoa no primeiro domingo após a lua cheia do mês hebraico.
Os intervenientes notaram que, quando nada se tem de próprio, empresta-se de bom grado o dos outros. A natureza tem horror ao vazio, e todo o povo sem referência é um povo sem futuro.
Mbolatiana R
Numa primeira leitura, estes textos suscitam pelo menos duas reações:
- Mas afinal quantos Anos Novos têm os Malgaxes?
- Os dois últimos textos são tão parecidos que talvez se pudesse dispensar um deles. Sim, é verdade. Mas, como estamos no início da nossa investigação, vamos ainda assim compará-los antes de eliminar um ou fundir os dois.
Análise do primeiro texto: um calendário lunar
Comecemos por destacar dois fragmentos de frase: ...entre nós, a noção de espaço-tempo está ligada à noção de destino... A vida quotidiana do Malgaxe baseia-se assim nos astros e na sua relação com a lua.
Esta relação com a Lua leva-nos naturalmente a pensar num calendário lunar. O resto do texto confirma-o:
Em geral, o ano, que dura 354 dias, subdivide-se em 12 meses lunares de 28 dias, e a semana malgaxe começa na quinta-feira e termina na quarta-feira. Por exemplo, o primeiro mês Alahamady do ano 2003 começou a 4 de dezembro e terminou em 1 de janeiro. Para o ano de 2004, durará de 24 de novembro a 22 de dezembro.
Às calculadoras!! 12 X 28 = 336. Logo, 12 meses lunares de 28 dias não fazem 354 dias. Onde estão os dias em falta? Tentemos de outra forma. Entre 04/12/2003 e 02/01/2004 decorreram... 30 dias. Ah!!
Exploramos duas outras pistas, uma astronómica e outra astrológica.
- A pista astronómica confirma que estamos de facto perante um calendário lunar. Com efeito, as efemérides do site do bdl (Bureau des longitudes) mostram que 04/12/2003, 02/01/2004, 24/11/2004 e 23/12/2004 são dias de lua nova. Mas por que razão se diz que o mês tem 28 dias?
- A pista astrológica traz-nos precisões sobre esta questão. Num site especializado no tema (o único, aliás, de que tenho conhecimento), podemos ler (tradução de uma pessoa que deseja manter o anonimato):
“Ao contrário do calendário ocidental, a duração de um mês malgaxe (que corresponde à lunação) é variável
Esta lunação pode durar entre 26 e 30 dias. Deve contar-se 28 dias para Adaoro, Adizaoza, Alahasaty, Asombola, Alakarabo, Alakaosy, Adalo, Alohotsy, enquanto se pode ter de esperar até 31 dias antes de a lua nova aparecer em Alahamady, Asorotany, Adimizana e Adijady.
O 28.º dia é o da conjuntura e deve contar-se 1 dia entre ele e o aparecimento da lua nova, ou mesmo 2 para Alahamady, Asorotany, Adimizana e Adijady. Estes dias suplementares são chamados - em astrologia - os «dias que regressam» e «mata-se» 1 -ou 2 dias- consoante os meses..
O mês malgaxe depende muito da lunação e um astrólogo digno desse nome deve imperativamente tê-lo em conta.
Os meses são assim representados: Alahamady, Asorotany, Adimizana e Adijady correspondem às 4 grandes divisões astrológicas lunares, ou seja, aos 4 ângulos de uma casa. Cada um possui 3 destinos: o «vava», o «vontony» e o «vodiny», ao passo que os outros meses - colocados nos lados laterais (2 em cada lado) - incluem apenas 2 destinos cada um (vava e vodiny).
O cálculo faz-se então assim.
Em 1964, o Alahamady começou em 13 de fevereiro de 1864 às 16h02. Mas, como se ultrapassou o momento em que o sol é perpendicular ao cume da casa (isto é, o zénite, portanto meio-dia), a contagem deve fazer-se a partir do dia seguinte, isto é, no dia 14.14 – 1 vava alahamady 18 - 5 vody adaoro
15 – 2 vt " 19 – 6 vv adizaoza
16 – 3 vd " 20 – 7 vd
17 – 4 vv adaoro 22 – 8 vv asorotany:
E assim sucessivamente até à sua data de nascimento…A lunação dura, portanto, 29 dias, exceto para os destinos-mãe, em que se deve contar 30 ou mesmo 31 dias antes do aparecimento da lua nova. Daí um ano de 352 dias. É portanto diferente do calendário europeu que, baseado no ciclo solar, dura 365 dias (este modo de cálculo foi adotado pelos Antalaotra)
Bingo!! Se este texto contém algumas enormidades do ponto de vista astronómico (por exemplo, um mês lunar não pode ter duração inferior a 28 dias), ele ensina-nos muito sobre este calendário, que devemos considerar efetivamente como um calendário lunar.
Resumamos os pontos adquiridos: a experiência dos calendários permite-nos dizer que os astrólogos nunca inventaram um calendário. Apoiam-se sempre no que já existe. Neste caso, trata-se de um calendário lunar. Do estrito ponto de vista astrológico, todo o dia de um mês lunar que ultrapasse o 28 é «eliminado» e tem o mesmo significado que o 28.º dia.
O ano conta 354 ou 355 dias (e não 352, como diz o texto) e começa no primeiro dia do primeiro mês (que tem o nome de Alahamady).
O primeiro dia do mês é o dia de lua nova se esta ocorrer antes das 12h. Caso contrário, o primeiro dia do mês é o dia seguinte.
Os nomes dos meses são: Alahamady, Asorotany, Adimizana, Adijady, Adaoro, Adizaoza, Alahasaty, Asombola, Alakarabo, Alakaosy, Adalo, Alohotsy. Exceto o primeiro - Alahamady - ainda nada sabemos da sua ordem.
A propósito, por que explorar esta pista astrológica?
Simplesmente por causa da menção da noção de destino no primeiro texto; e voltamos a encontrá-la no texto do nosso astrólogo. Com mais pormenores, pois aprendemos que os meses «possuem» destinos (Vintana). 3 destinos para 4 meses e 2 para os restantes. Chegamos assim a (3 X 4) + (8 X 2) = 28 destinos. Pois é. Embora a astrologia não seja o tema desta página nem deste site, não podemos deixar de estabelecer paralelo com as 28 casas da astrologia árabe.
Também não se pode deixar de notar até que ponto esta noção de destino é importante na vida do povo Malgaxe. Estes destinos, sob influência lunar, fixam a personalidade de cada um, a sua vida quotidiana e o seu... destino. 28 destinos para o ano, mas também para o mês (daí o mês astrológico de 28 dias), e o dia marcam o caminho quotidiano de cada indivíduo.
Até a construção das casas tradicionais malgaxes está sob a influência destes 28 destinos. Às diferentes posições da Lua ao longo do ano associam-se os pontos cardeais e as paredes e ângulos da casa (orientada Norte-Sul) constituem uma representação em miniatura do ano lunar.
Qual é a origem do nome dos meses?
Como era de esperar, os nomes dos meses tal como os descobrimos são de origem árabe. Na realidade, é a «malgaxização» dos nomes árabes dos signos do zodíaco. Vejamos a lista na ordem dos meses.
| Malgaxe | Árabe | Signo | Equiv. Gregoriano |
|---|---|---|---|
| Alahamady | Al-h' amal | Carneiro | março-abril |
| Adaoro | Ath-thaûr | Touro | abril-maio |
| Adizaozo | Al-dzaûza | Gémeos | maio-junho |
| Asorotany | As-sarat ân | Caranguejo | junho-julho |
| Alahasaty | Al-asad | Leão | julho-agosto |
| Asombola | As-sumbula | Virgem | agosto-setembro |
| Adimizana | Al-mizan | Balança | setembro-outubro |
| Alakarabo | Al-aqrab | Escorpião | outubro-novembro |
| Alakaosy | Al-qaûs | Sagitário | novembro-dezembro |
| Adijady | Al-djadi | Capricórnio | dezembro-janeiro |
| Adalo | Ad-dalû | Aquário | janeiro-fevereiro |
| Alohotsy | Al-h'ût | Peixes | fevereiro-março |
Para sermos precisos, notemos que, num estudo datado de 1911, E.F. Gautier esclarece que, numa primeira fase, estas palavras árabes correspondiam a destinos distribuídos três a três pelas quatro estações e que só mais tarde os meses passaram a ter o nome desses destinos.
Onde foi praticado este calendário lunar?
Segundo E.F. Gautier, "No Madagáscar atual, nos séculos XIX e XX, o Imerina, onde a atenção permaneceu muito tempo concentrada, é talvez a única província que teve um calendário inteiramente lunar; deve-o aparentemente aos muçulmanos comorianos, com quem manteve relações fáceis e continuadas."
Antes de terminar com este calendário lunar, coloquemos algumas questões:
- A primeira, à qual encontraremos resposta na análise dos dois outros textos, é saber por que razão se usaram os nomes dos signos zodiacais árabes para nomear os meses e não simplesmente os nomes dos meses árabes.
- À segunda, não temos resposta nos textos que examinámos. Um ano lunar (354 ou 355 dias) é mais curto que um ano solar (365 ou 366 dias). Nessas condições, como pode o calendário lunar malgaxe manter ainda a mesma datação anual do calendário gregoriano? A única resposta plausível é que este calendário é hoje um instrumento puramente astrológico, já sem vocação de cômputo. Terá sido sempre assim? Mistério. E se não, qual foi a sua época (ponto de partida)?
Análise dos dois últimos textos: um calendário luni-solar
Quais são os elementos comuns destes textos?
- O Ano Novo malgaxe de 2004 ocorre em 21 de março de 2004 do calendário gregoriano.
- A Lua e o Sol entram juntos no signo zodiacal de Carneiro por volta da 1h45 num texto e 1h42 no outro. Na verdade, foi às 1h43, mas não vamos ser excessivamente minuciosos.
Quais são as diferenças entre os dois textos?
- No terceiro texto, o autor afirma que este evento ocorre em 1909, 1928, 2004, 2023. No segundo texto, são 1919, 2004 e 2023. Falso. Se a regra é procurar as luas novas em 21 de março, isso ocorreu em 1909, 1928, 1939, 1985, 2004 e voltará a ocorrer em 2023.
- Acrescentemos, no que toca ao texto 3, que não são factos científicos, mas factos astrológicos. O facto científico é que o Sol entra numa certa data na constelação de Carneiro. E há mais de 2 000 anos que o Sol já não entra em Carneiro em 21 de março. Está ainda em Peixes e só entra em Carneiro em 19 de abril. E em 19 de abril a Lua também entrou no signo de Carneiro, o que teve como consequência um eclipse parcial (e não total) do Sol. Nunca houve eclipse total do Sol visível da Terra em 21/03/2004.
Feita a «limpeza», o que se pode deduzir deste texto?
Uma coisa capital. O início do ano ocorreria na lua nova do período em que o Sol entra, ou acaba de entrar, no signo de Carneiro. Temos, portanto, um calendário luni-solar, já que o número de meses (lunares) vai depender da posição do Sol. 12 ou 13 meses conforme os anos.
Ainda assim, falta verificar e resolver um problema sério. Comecemos pelo problema.
Como se pode, na prática, saber que o Sol entra no signo de Carneiro? Vimos que o zodíaco em causa é tropical e não sideral. Isso significa que observar o céu não nos serve de nada, porque o Sol, no período que nos interessa, estará algures em Peixes.
Claro que bastaria dizer que se espera a lua nova a partir de 21 de março. Mas seria bastante curioso querer construir um calendário antigo... a partir de um calendário moderno.
Então, o que fazer? Esperar a lua nova do dia do equinócio ou imediatamente após ele (estamos no hemisfério sul)? Encadear os meses, verificando se é necessário acrescentar um àquele ano, a partir do primeiro mês do primeiro ano em que o Sol realmente entrava no signo de Carneiro? A questão permanece em aberto, e o texto limita-se a modernizar um calendário antigo sem se colocar demasiado o problema do porquê.
Segundo E.F. Gautier, um estudo teria sido conduzido pelo P. Thomas e publicado no Bulletin de l'Académie malgache. O P. Thomas teria feito duas descobertas capitais.
A primeira é que, antes de terem nomes árabes, os meses tinham nomes emprestados do sânscrito. Estes nomes de meses terão sido, «com toda a probabilidade, de uso geral em toda a ilha». Só a partir do século XVII esses nomes foram desaparecendo para dar lugar aos que conhecemos.
A segunda descoberta é que o calendário é mesmo luni-solar. Segundo um certo Flacourt, numa obra intitulada Histoire de la grande île de Madagascar (1661), que eu reencontrei, «o primeiro mês começa na lua nova de março». É verdade que ele não diz expressamente que o calendário seja luni-solar, mas é legítimo pensar que isso era evidente para um Francês habituado a calendários solares. E, como Gautier observa com razão, quando Flacourt fala do Ramadão, não se esquece de notar que «esse jejum não tem mês fixo e faz-se ora num mês, ora noutro». E Gautier conclui, também com razão, que num calendário lunar o jejum teria sido invariavelmente celebrado no mesmo mês.
E já que falamos do ramadão, voltemos a uma questão para a qual agora temos seguramente resposta: por que razão se usaram os nomes dos signos zodiacais árabes para nomear os meses e não os nomes dos meses árabes?
Simplesmente porque, como escreve Gautier, "Os meses são divisões do ano lunar, os signos do zodíaco do ano solar. Só estes últimos eram utilizáveis pelos Malgaxes porque os seus meses lunares tinham de se ajustar, tão bem quanto possível, a um ano solar".
E.F. Gautier elaborou uma tabela de correspondência dos nomes de meses nas diferentes nomenclaturas, e é útil reproduzi-la tal como está para ter todas as cartas na mão.
| Primeira nomenclatura (emprestada do árabe; signos do zodíaco) | Segunda nomenclatura (emprestada do sânscrito) | Meses franceses (correspondentes no país Antaimoro em 1904) |
|---|---|---|
| Alahotsy (Pisces) | Asaramasay | Março |
| Alahamady (Ariès) | Asarabe | Abril |
| Adaoro (Taurus) | Vatravatra | Maio |
| Adizaozy (Gemini) | Asotry | Junho |
| Asorotany (Cancer) | Hatsiha | julho |
| Alahasaty (Leo) | Volasira | Agosto |
| Asombola (Virgo) | Fosa | Setembro |
| Adimizana (Libra) | Maka | Outubro |
| Alakarobo (Scorpius) | Hiahia | Novembro |
| Alakaoza (Sagittarius) | Fisakamasay | Dezembro |
| Adijady (Capricornus) | Fisakavy | Janeiro |
| Adalo (Aquarius) | Volombita | Fevereiro |
A pergunta que não podemos deixar de fazer é dupla:
- Por que razão se especifica no país Antaimoro?
- Por que razão o primeiro mês do ano é Alahotsy (depois Alohotsy) e não Alahamady?
Encontramos a resposta na pena do P. Thomas: "Em Maravoay, segundo informações recolhidas por M. Mathieu, a festa dos túmulos dos reis sakalaves fazia-se sempre no mês de Volambita... e correspondia ao nosso mês de junho. M. comandante Leblanc assinala que o primeiro mês do ano é Volambita, que cai sempre em agosto, entre os Antandroy... Por volta de novembro, no início da estação das chuvas, na região de Amborombe, a primeira lua é Vatravatra. Em Anosy, a primeira lua é em março."
Em suma, se temos aqui mais uma prova de que o ano é de facto luni-solar, pode dizer-se que o início do ano depende muito das regiões e/ou das etnias.
Vamos terminar a nossa investigação (provisoriamente, porque muitas perguntas continuam sem resposta) com uma última questão: sendo o ano parcialmente solar, como se faz a intercalação de um 13.º mês?
Duas respostas que talvez se encontrem na prática quotidiana:
A primeira é agrícola, e citamos de novo o P. Thomas: "um dos meses antaimoro (Alahamaly na nomenclatura árabe) regula a concordância do ano com as estações; porque esse mês deve corresponder sempre ao começo da estação seca e ao fim das chuvas. E se os Antaimoro constatam... que a estação das chuvas persiste com toda a intensidade no fim do mês Alahamaly, duplicam esse último mês... Por outro lado, outro mês também pode ser duplicado. Assim, o ano corrente (1904) terá 13 meses. O mês Alakarabo terá na prática sessenta dias, porque, estando prestes a terminar, não teria coincidido com a maturação dos lichias, se tivesse duração normal".
A segunda é científica e devida a Jean-Paul Parisot e Françoise Suagher, no livro Calendriers et chronologie (2002): "... Eles (os Malgaxes) observam Antares e a estrela beta do Escorpião. As observações fazem-se a partir de março até julho, virados para sul. Se a lua cheia estiver próxima da estrela beta e se a lua nova anterior ocorrer em Carneiro, o ano deve ter 13 meses".
Mês de 60 dias? 2 meses de 30 dias? Nome do mês complementar? Deve aplicar-se a regra do «meio-dia» ao calendário luni-solar como no calendário lunar? Como se determina realmente o início do ano? Tantas perguntas sem resposta.
Nomes dos dias e cronologia
Os nomes dos dias são árabes.
| Dia | Nome |
|---|---|
| Domingo | Alahady |
| Segunda-feira | Alatsinainy |
| Terça-feira | Talata |
| Quarta-feira | Alarobia |
| Quinta-feira | Alakamisy |
| Sexta-feira | Zoma |
| Sábado | Sabotsy |
Segundo Flacourt, "os anos contam-se pelos dias da semana, ou seja, o ano do domingo, o do segunda-feira e assim sucessivamente".
Os Antaimoro criaram, portanto, semanas de anos, um pouco como os Romanos criaram as Olimpíadas (4 anos) ou os Lustros (5 anos).
E, tal como para os Lustros ou as Olimpíadas, falta-nos por isso uma cronologia linear e ininterrupta. Seja por falta da existência de semana de semanas de anos, seja por falta de cômputo a partir de uma data fixa.
Em jeito de conclusão
Na falta de interlocutores muito bem informados sobre a história de Madagáscar, temos de reconhecer que ainda ficam muitas questões em aberto a propósito do(s) calendário(s) malgaxe(s). Talvez seja isso que os torna ainda misteriosos e desperte vontade de saber mais.
E depois, isso prova bem que, por vezes, é mais fácil «fazer falar» os Maias ou os Mesopotâmios do que os próprios contemporâneos.
Última notícia (13/07/2004)
Acabo de descobrir este texto no site da La Gazette de la Grande Ile:
“01/04/2004
Afinal, para quando exatamente?
Há algum tempo, o Ano Novo malgaxe tem sido alvo de várias discussões. Do seu lado, a associação Jaky Mena, após estudo aprofundado, demonstrou que o Ano Novo malgaxe era no passado dia 21 de março. Era, aliás, categórica. Do seu lado, Norbert Rakotomalala, um «Zanadranavalona» e também concebedor de calendário agrícola, assinalou que 21 de março é apenas o início do signo zodiacal Carneiro, o que não significa de modo nenhum «Alahamady». O mês de março era Alahasaty, ao contrário dos estudos de Jaky Mena, que anunciavam que era Alahamady. O mês Alahasaty terminará a 19 de abril de 2004, e a lua nova aparece às 16h22. Na sua opinião, o ano novo malgaxe deverá ser celebrado em 12 de novembro de 2004. É o próximo «Tsinan’Alahamady». Em 2003, foi em 24 de novembro, diz ele. Norbert Rakotomalala pensa que «Carneiro» não é de modo algum equivalente a Alahamady na astrologia malgaxe. Além disso, não é hábito dos Malgaxes festejar o «Tsinan’Alahamady». Era a festa nacional malgaxe antes da colonização, chamada «Fandroana». Segundo as tradições orais, o 1.º Fandroana foi assinalado no tempo de Ralambo em Imerina (1575-1660). Em todo o caso, pergunta-se: qual é a data exata?
Mbolatiana R
Sim, perguntamo-nos.
Então, se o Sr. Norbert Rakotomalala me der a honra de ler estas linhas, gostaria muito que me explicasse como faz a correspondência entre os nomes malgaxes e os nomes árabes dos meses. E por que mistura zodíaco e lua nova.
Da minha parte, continuo a pensar que, enquanto se misturar calendário zodiacal e calendário luni-solar, e enquanto se continuar a querer tratar o problema do Ano Novo malgaxe da mesma forma em toda a ilha, continuar-se-á durante muito tempo a perguntar: qual é a data exata?