O calendário essénio

Um pouco de história

Não vamos refazer aqui a cronologia da Palestina, já abordada na página dedicada ao calendário judaico.

A descoberta do calendário essénio leva-nos, porém, a examinar três tipos de documentos: o Livro dos Jubileus, o Livro de Henoc e os manuscritos do Mar Morto. Vale por isso a pena conhecer melhor a história destes diferentes textos.

O Livro dos Jubileus

É uma obra bíblica classificada entre os pseudepígrafos (escritos judaicos que não pertencem nem ao cânone judaico nem ao cânone cristão) pela Pléiade, que reúne estes textos no conjunto dos escritos «intertestamentários», por se situarem entre o Antigo e o Novo Testamento.

O Livro dos Jubileus divide em «jubileus» (períodos de quarenta e nove anos) a sequência de acontecimentos narrados desde o Génesis até ao capítulo XII do Êxodo. Cada jubileu divide-se, por sua vez, em sete séries de sete anos.

É conhecido por várias designações: Livro dos Jubileus, Pequeno Génesis (porque repete ou parafraseia grande parte do Génesis e passagens do Êxodo), Apocalipse de Moisés e Testamento de Moisés.

Terá sido escrito, na sua forma definitiva, por volta do ano 100 a.C. Vários fragmentos da sua versão hebraica primitiva figuram na «biblioteca» descoberta em Qumran, em 1947.

O livro de Henoc

O Livro etíope de Henoc (ou Primeiro Livro de Henoc) é a obra mais longa dos Pseudepígrafos. O nome «Henoc etíope» vem-lhe da única versão em que nos chegou completo. Inclui várias partes escritas por autores diferentes entre os séculos II e I a.C. A obra original terá sido escrita em hebraico ou em aramaico. Pouco depois, foi traduzida para grego. A tradução para etíope terá sido feita a partir do grego por volta de 500 d.C. Passagens da versão etíope chegaram-nos em grego, latim e aramaico, tendo estas últimas sido descobertas em Qumran.

O livro tem sete partes. A quarta parte (71-82), que contém revelações sobre os corpos celestes, é a que mais nos interessa no estudo do calendário essénio.

Convém notar, de passagem, que existe na internet uma tradução francesa do Livro de Henoc (aqui, por exemplo). Em alguns pontos, difere bastante da tradução inglesa de Richard Laurence. Quando essa diferença for relevante, darei tanto o texto francês como o texto inglês.

Qumran e os manuscritos do Mar Morto

Nos dois parágrafos anteriores, falámos de Qumran, onde foram encontrados vários textos do Livro de Henoc e do Livro dos Jubileus.

Não vamos entrar em detalhe na história de Qumran e dos manuscritos do Mar Morto. Bibliografia sobre o tema não falta. O nosso objetivo aqui é apenas situar os manuscritos que vamos estudar, tanto no tempo como na história das correntes de pensamento da época.

Sobre Qumran, pode ler-se na Encarta:

Qumran, também chamado Khirbet Qumran («ruína de pedra»), povoação judaica da Palestina antiga junto da qual foram descobertos, em 1947, os manuscritos do Mar Morto. O local situa-se na margem noroeste do Mar Morto, 13 km a sul de Jericó. Na época de Cristo, Qumran era o centro de uma grande comunidade religiosa pertencente à seita dos essénios. Estes separaram-se de outras correntes religiosas judaicas no século II a.C. Perseguidos pelos Macabeus, retiraram-se para o deserto, o que se adequava ao seu modo de vida ascético. O sítio de Qumran, onde viveram em grande número, instalados nas grutas das falésias vizinhas, foi provavelmente ocupado por volta de 135 a.C. Foi temporariamente abandonado após um terramoto em 31 a.C. e destruído pelos Romanos em 68 d.C. Foi habitado uma última vez entre 132 e 135 d.C. pelos insurgentes da revolta de Bar Kokheba.

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Resumamos em imagens, com algumas precisões:

1947

Em março de 1947, um jovem beduíno (Muhammad ed-Dib), da tribo Ta'amirech, descobriu manuscritos guardados em jarros. Estavam armazenados na gruta de Ain-Feshka. Naturalmente, essa gruta passaria a chamar-se gruta A, ou gruta 1.

Acima, a localização das grutas que continham manuscritos. Esses manuscritos receberam uma referência indicando a gruta onde foram descobertos e o respetivo número de ordem. Assim, 4Q317 será o 317.º manuscrito descoberto na gruta A.

Entrada da gruta 1, na qual foram descobertos os primeiros manuscritos.
Entrada da gruta 1, na qual foram descobertos os primeiros manuscritos.

Desde a primeira descoberta, foram exploradas 180 grutas. Entre elas, cerca de quinze continham manuscritos. A quarta, que nos interessa particularmente por causa dos manuscritos sobre calendário que guardava, foi descoberta em 1952.

Foi assim que se descobriram, no conjunto das grutas, numerosos fragmentos literários de vários tipos e centenas de textos relativos à maioria dos livros do Antigo Testamento, bíblicos e não bíblicos (como o Livro dos Jubileus e o Livro de 1 Henoc).

Estes manuscritos estavam escritos em peles de animal ou em papiro. Para os ler, numa escrita da direita para a esquerda, era preciso desenrolá-los. Usavam-se várias línguas (hebraico, aramaico, grego) em meia dúzia de grafias diferentes. Alguns manuscritos estavam em muito mau estado e foi preciso muito tempo e paciência para reconstituir perto de 870 manuscritos a partir de mais de 15 000 fragmentos.

Após a divulgação integral dos rolos em 1911, constatou-se que centenas de escribas tinham participado na elaboração dos textos. Apenas meia dúzia desses escribas tinham produzido vários textos.

Alguns desses rolos serão do século II a.C., a grande maioria do século I a.C. e um pequeno número do primeiro século da nossa era. Podemos, portanto, considerar que os autores trabalharam num período compreendido entre 200 a.C. e 100 d.C.

1951

Foi nesse ano que, a 3 quilómetros da gruta de Ain Feshka, se descobriu e se iniciou a escavação de Khirbet Qumran (Khirbet significa ruínas em árabe). Essas escavações tinham por objetivo ajudar a compreender quem esteve por trás da elaboração dos textos.

As escavações duraram de 1951 a 1956 e foi descoberto um verdadeiro conjunto comunitário: sistema sofisticado de abastecimento de água, grande sala considerada o scriptorium (local de redação dos manuscritos), sala de reunião, lavandaria, quartos... Nas proximidades, descobriu-se um cemitério.

Vista geral do sítio de Qumran com, em primeiro plano, as falésias nas encostas das quais foram descobertas as grutas que continham parte dos manuscritos.
Vista geral do sítio de Qumran com, em primeiro plano, as falésias nas encostas das quais foram descobertas as grutas que continham parte dos manuscritos.
Planta do sítio de Qumran, que não podia abrigar mais de 50 pessoas. Não foi encontrado nenhum caminho entre as ruínas e as grutas que pudesse sugerir que elas servissem como local de trabalho ou de meditação.
Planta do sítio de Qumran, que não podia abrigar mais de 50 pessoas. Não foi encontrado nenhum caminho entre as ruínas e as grutas que pudesse sugerir que elas servissem como local de trabalho ou de meditação.

Os arqueólogos, entre eles o Reverendo Padre Roland Guérin de Vaux, que dirigiu as escavações, concluíram que o local era um assentamento essénio.

Os essénios eram uma das três escolas de filosofia judaica descritas por Flávio Josefo (c. 37 - c. 100) em A Guerra dos Judeus e Antiguidades Judaicas. As outras duas escolas eram os fariseus e os saduceus. Plínio, o Velho (23 - 79) também os cita na sua História Natural, tal como Hipólito de Roma na Refutação de Todas as Heresias.

Poderíamos ficar por aqui, mas importa notar que esta hipótese essénia, ainda hoje predominante, começa a ser questionada.

Continuam, portanto, a colocar-se duas questões:

Vê-se no flanco da falésia a entrada da gruta 4, onde em 1952 foram descobertos os manuscritos relativos ao calendário essénio.
Vê-se no flanco da falésia a entrada da gruta 4, onde em 1952 foram descobertos os manuscritos relativos ao calendário essénio. Dr. Avishai Teicher Pikiwiki Israel / CC BY 2.5 via Wikimedia Commons

O calendário

Aviso: como os textos que vamos estudar são demasiado longos, preferi colocá-los noutra página. Nesta página, retomaremos apenas as partes que iremos comentar.

A designação de calendário essénio foi proposta por André Dupont-Sommer (1900-1983, orientalista francês e secretário perpétuo da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres), a partir das descrições de Plínio, o Velho e Flávio Josefo. Tendo em conta o que acabámos de ler, este calendário poderia chamar-se igualmente calendário de Henoc ou calendário de Qumran. Mas, como o uso já se consolidou...

Vamos examinar, sucessivamente:

O calendário solar ou calendário essénio

Se tivéssemos de caracterizar os textos a que vamos recorrer, poderíamos dizer que:

Se lermos atentamente o capítulo 71 do Livro de Henoc, vemos que o ciclo solar faz com que o Sol «inicie o seu percurso» por seis portas situadas a leste e o termine por seis portas situadas a oeste.

Ele «inicia o seu percurso no primeiro mês», passando pela quarta porta.

Passa assim, sucessivamente, duas vezes por cada uma das portas. De cada vez, decorrem trinta dias antes de o Sol mudar de porta. O parágrafo 43 precisa que é o próprio percurso do Sol que produz a maior ou menor duração dos dias e das noites. E, de facto, a cada saída por uma porta a oeste, são-nos indicadas as durações respetivas do dia e da noite. A ordem de passagem pelas diferentes portas é a seguinte: 4, 5, 6, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 1, 2, 3.

Note-se, de passagem, que a divisão do dia (dia + noite) não é de 24, mas de 18. Teria então o dia essénio 18 «horas»?

Podemos resumir o que acabámos de ver dizendo que o ano do calendário essénio é solar e tem 12 meses de 30 dias.

Mas 30 x 12 = 360 dias fica muito longe dos cerca de 365,25 dias do ano trópico. Se voltarmos ao capítulo 71, vemos que alguns meses têm, na verdade, 31 dias. Por causa do seu «sinal», diz o texto.

E o que é esse «sinal»? É, como diz 81-6, um dia complementar que convém acrescentar no fim do mês para levar o número de dias a 31. Enfim... apenas em certos meses. E o mesmo 81-6 informa-nos de que há "um na primeira porta, um segundo na terceira, um terceiro na quarta e um último na sexta porta".

Chegamos, assim, a um ano de 364 dias. Quando começa ele?

Para ajudar a responder a esta questão, façamos um quadro recapitulativo do que acabámos de ver, acrescentando a duração do dia e da noite no final de cada mês.

Mês Porta Número de dias No final do mês
duração do dia duração da noite
1 4 30 10 8
2 5 30 11 7
3 6 31 12 6
4 6 30 11 7
5 5 30 10 8
6 4 31 9 9
7 3 30 8 10
8 2 30 7 11
9 1 31 8 12
10 1 30 7 11
11 2 30 8 10
12 3 31 9 9

Verificamos que, no final do 12.º mês, e portanto no dia «sinal» (complementar) que precede o primeiro mês do ano seguinte, a duração do dia é igual à da noite. Estamos, portanto, num dia de equinócio. Como os dias se alongam nos meses seguintes, conclui-se que o ano começa no equinócio vernal (ou equinócio da primavera).

Pode ainda acrescentar-se que o ano começa precisamente a uma quarta-feira, que corresponde ao quarto dia da semana (a semana, entre os Hebreus, começa ao domingo). É, de facto, no quarto dia que, segundo o Antigo Testamento, Deus criou o Sol, a Lua e as estrelas.

Os nossos famosos «sinais» correspondem, portanto, aos equinócios e aos solstícios.

Vendo mais de perto, pode notar-se que seria possível dividir o ano em quatro partes de 91 dias. Daí a imaginar quatro estações separadas pelos «sinais» vai apenas um passo. Pois bem, demos esse passo lendo o capítulo 81:10 a 25, onde se encontra uma descrição detalhada das estações.

Esta divisão do ano reaparece no manuscrito do Mar Morto 4Q328, que indica as semanas de guarda sacerdotal (voltaremos a isso) para cada trimestre de seis anos: "... Eis os chefes por ano: para o primeiro ano, Gamoul, Elyach, Maaziahou e Houppa..."

Esquematicamente, o calendário essénio apresenta-se assim:

Encontram-se os meses (números a vermelho), o número de dias de cada mês (números a azul), as estações (fundo verde) e os quatro dias complementares do ano nos solstícios e equinócios. No total, temos um ano de 360 dias + 4 dias complementares, ou seja, 364 dias.

Quem conhece calendários perpétuos ou calendários fixos reconhece certamente aqui um calendário desse tipo. Um ano de 364 dias tem exatamente 52 semanas. Assim, pode começar sempre no mesmo dia (neste caso, uma quarta-feira), e as festas e outros acontecimentos podem ser colocados sempre no mesmo dia do ano.

É exatamente isso que acontece: tanto o Livro de Henoc como o Livro dos Jubileus insistem especialmente nesta posição imutável das festas. O Livro dos Jubileus diz, de facto: "Ordena aos filhos de Israel que observem os anos segundo este cômputo - 364 dias. Estes dias formarão um ano completo. Que não perturbem os seus dias e as suas festas... que não omitam nenhum dia e não desloquem nenhuma festa... Se não observarem o Seu mandamento, perturbarão todas as suas estações e os anos serão deslocados..." (Livro dos Jubileus 6.32-38).

Estas festas, na sua maioria conformes ao Antigo Testamento, são nomeadas nos manuscritos 4Q320-4Q321-321a, 4Q325 e 4Q327:

É importante notar que as datas das festas e de outros eventos não são posicionadas pelo dia do mês, mas pelo dia das guardas sacerdotais (exceto no 4Q327, que usa os dias do mês). Voltaremos a isso mais adiante.

Podemos agora apresentar o quadro de um ano completo. Este quadro começa no primeiro dia da semana, para maior legibilidade. Mas não esqueçamos que o ano começa numa quarta-feira. As festas estão assinaladas a vermelho.

I II III
Dom 5 12 19 26 3 10 17 24 1 8 15 22 29
Seg 6 13 20 27 4 11 18 25 2 9 16 23 30
Ter 7 14 21 28 5 12 19 26 3 10 17 24 31
Qua 1 8 15 22 29 6 13 20 27 4 11 18 25
Qui 2 9 16 23 30 7 14 21 28 5 12 19 26
Sex 3 10 17 24 1 8 15 22 29 6 13 20 27
Sáb 4 11 18 25 2 9 16 23 30 7 14 21 28
IV V VI
Dom 5 12 19 26 3 10 17 24 1 8 15 22 29
Seg 6 13 20 27 4 11 18 25 2 9 16 23 30
Ter 7 14 21 28 5 12 19 26 3 10 17 24 31
Qua 1 8 15 22 29 6 13 20 27 4 11 18 25
Qui 2 9 16 23 30 7 14 21 28 5 12 19 26
Sex 3 10 17 24 1 8 15 22 29 6 13 20 27
Sáb 4 11 18 25 2 9 16 23 30 7 14 21 28
VII VIII IX
Dom 5 12 19 26 3 10 17 24 1 8 15 22 29
Seg 6 13 20 27 4 11 18 25 2 9 16 23 30
Ter 7 14 21 28 5 12 19 26 3 10 17 24 31
Qua 1 8 15 22 29 6 13 20 27 4 11 18 25
Qui 2 9 16 23 30 7 14 21 28 5 12 19 26
Sex 3 10 17 24 1 8 15 22 29 6 13 20 27
Sáb 4 11 18 25 2 9 16 23 30 7 14 21 28
X XI XII
Dom 5 12 19 26 3 10 17 24 1 8 15 22 29
Seg 6 13 20 27 4 11 18 25 2 9 16 23 30
Ter 7 14 21 28 5 12 19 26 3 10 17 24 31
Qua 1 8 15 22 29 6 13 20 27 4 11 18 25
Qui 2 9 16 23 30 7 14 21 28 5 12 19 26
Sex 3 10 17 24 1 8 15 22 29 6 13 20 27
Sáb 4 11 18 25 2 9 16 23 30 7 14 21 28

Este calendário parece-nos muito claro. Fica bem menos claro quando se coloca a questão da intercalação, caso ela tenha realmente existido.

De facto, mesmo com a adição de 4 dias complementares a um ano de 360 dias, aproximamo-nos da duração do ano trópico, mas continuamos longe dos 365,24221935 dias. Assim, a menos que se aceite uma deriva rápida do calendário, seria necessário acrescentar de tempos a tempos dias, semanas, meses ou anos. Quando, como, quantos?

A verdade é que não sabemos rigorosamente nada, e os textos não falam disso.

Alguns especialistas pensam que não havia qualquer intercalação. É o caso de Roger Beckwith (The modern attempt to reconcile the Qumran calendar with the true solar year), que se apoia numa passagem do Livro de Henoc para sustentar essa hipótese. Trata-se de parte do capítulo 79, que diz: "... 4. As suas sementes faltarão nos campos e nos campos abertos; os trabalhos da terra serão transtornados, nada lhes virá no seu tempo. A chuva ficará no ar, e o céu será de bronze. 5. Nesse tempo, os produtos da terra virão tarde; não florescerão no seu tempo e as árvores reterão os seus frutos. 6. A lua mudará o seu curso, não aparecerá no seu tempo; ver-se-á um céu ardente e sem nuvens, e a esterilidade estender-se-á sobre a face da terra. Meteoros riscarão o céu; porque muitas estrelas, desviando-se do seu curso habitual, errarão no espaço...". Naturalmente, segundo o texto, esse desfasamento não se deve a uma imperfeição do calendário, mas unicamente ao pecado dos anjos.

Outros especialistas, pelo contrário, pensam que havia intercalação.

Pela minha parte, sou levado a acreditar nessa intercalação pelas seguintes razões:

  1. Algumas festas estão ligadas a acontecimentos agrícolas, como a festa do vinho ou a festa do azeite. É difícil imaginar essas festas a deslocarem-se no tempo e a serem celebradas, por exemplo, em pleno inverno.
  2. Vimos que o ano começava na quarta-feira mais próxima do equinócio da primavera. Ora, com o passar dos anos, chega rapidamente o momento em que o desvio entre o fim de um ano e o equinócio da primavera ultrapassa 7 dias. Portanto, a menos que se intercale uma semana inteira nesse momento, o equinócio da primavera como início do ano deixa de fazer sentido. A vantagem de intercalar uma semana aí seria não desorganizar a estrutura do calendário e a posição das festas no ano.

Sendo o desvio do calendário de 1,24 dias por ano, a intercalação de uma semana poderia fazer-se a cada 7 anos. Com efeito, 7 x 1,24 = 8,68 dias. A duração média do ano passaria então a ser ((364 x 7) + 7)/7 = 365 dias. Muito melhor.

Relógio de sol de calcário de Qumran (Khirbet Qumran, em árabe)
Relógio de sol de calcário de Qumran (Khirbet Qumran, em árabe) © Museu de Israel

Um «relógio de sol» anual, único no seu género, foi descoberto em Qumran em 1954. Servia para determinar os pontos dos solstícios e dos equinócios, bem como a direção horizontal do Sol, através de um sistema de círculos graduados correspondente às estações. Parece confirmar o interesse dos «essénios» por um ano solar fundado no equinócio da primavera.

E, se ainda se acrescentasse uma semana de 28 em 28 anos sem mexer no resto do calendário anual, chegar-se-ia a uma precisão de 365,25 dias. Mas aí já estamos no domínio da hipótese.

Ainda assim, mesmo que a descoberta de um relógio solar anual pareça confirmar a vigilância dos solstícios e equinócios, é forçoso constatar que não temos qualquer rasto escrito de uma intercalação concreta. A nossa lógica do século XXI seria a mesma dos últimos séculos antes da nossa era? Mistério.

E, quando em Henoc 73:13, falando da Lua, se diz "... é ela que regula os anos, de modo que não variam um só dia e se compõem invariavelmente de trezentos e sessenta e quatro dias...", continuam a surgir muitas perguntas.

Enquanto não houver esclarecimentos vindos de novas descobertas, e já que falámos da Lua, olhemos agora para os ciclos lunares.

Os ciclos lunares

Além de usarem um calendário solar, os «qumranianos» conheciam também o ano lunar.

Logo à partida, o estudo desse ano lunar levanta um problema. Trata-se de um problema de tradução dos manuscritos do Mar Morto, referido por M. Wise, M. Abegg e E. Cook no livro Dead Sea Scrolls, onde apresentam uma tradução integral de todos os manuscritos (o livro foi também traduzido para francês com o título Les manuscrits de la mer Morte). O problema diz respeito à palavra duq, até então desconhecida. Segundo os autores, duq pode significar primeiro quarto ou lua cheia. Conforme a interpretação, o primeiro mês lunar começaria na lua cheia ou na lua nova astronómica (lua invisível). Tal como eles, vamos adotar a hipótese da lua cheia, partindo da ideia simples de que, quando Deus criou o Sol e a Lua no quarto dia, a Lua devia ser visível. Caso contrário, nada se teria visto desse nascimento. E no Génesis lê-se: «E Deus colocou-os no firmamento dos céus para darem luz sobre a terra». Claro que também nós não estávamos lá. Mas enfim...

O manuscrito 4Q320 mostra a estrutura do ano lunar: doze meses lunares com alternância de 29 e 30 dias. O primeiro mês tem 29 dias e o ano completo 354 dias. Esse manuscrito descreve um ciclo das fases da Lua ao longo de três anos solares. Podemos apresentar esse ciclo num quadro, indicando a data de início dos meses lunares no calendário solar.

Ano solar 1 Ano solar 2 Ano solar 3
dia mês dia mês dia mês
Mês lunar 1 1 1
Mês lunar 2 30 1 20 1 10 1
Mês lunar 3 30 2 20 2 10 2
Mês lunar 4 29 3 19 3 9 3
Mês lunar 5 28 4 18 4 8 4
Mês lunar 6 27 5 17 5 7 5
Mês lunar 7 27 6 17 6 7 6
Mês lunar 8 25 7 15 7 5 7
Mês lunar 9 25 8 15 8 5 8
Mês lunar 10 24 9 14 9 4 9
Mês lunar 11 23 10 13 10 4 10
Mês lunar 12 22 11 12 11 2 11
Mês lunar 1 22 12 12 12 2 12

Se considerarmos que o mês lunar que começa em 02/12 (a preto) tem 30 dias e constitui um mês complementar (em vez de ser o primeiro mês do quarto ano), o primeiro mês lunar do quarto ano começará em 01/01 do ano solar 4. Assim, os três anos que acabámos de apresentar formam um ciclo. É o manuscrito 4Q319 que inventaria as conjunções início de ano solar/lua cheia. O primeiro dia deste ciclo, quando o ano solar começa e a Lua está cheia, constitui aquilo a que os qumranianos chamam 'ot. Seria uma espécie de sinal enviado por Deus, uma espécie de sinal de sincronização.

Devemos ver aí uma interpretação da frase que nos levantava problemas na parte anterior: "... é ela que regula os anos, de modo que não variam um só dia e se compõem invariavelmente de trezentos e sessenta e quatro dias..."?

Com efeito, um ano lunar de 354 dias x 3 anos = 1 062 dias + 1 mês de 30 dias = 1 092 dias, valor equivalente a um ano solar x 3 anos = 1 092 dias. É, portanto, realmente a Lua que regula o ano solar de três em três anos.

E não podemos deixar de perguntar se a intercalação de uma semana de 7 em 7 anos no calendário solar não destruiria este belo equilíbrio. O círculo fecha-se e a pergunta volta a colocar-se... ainda sem resposta.

O ciclo dos serviços da guarda sacerdotal

O Antigo Testamento (1 Crónicas XXIX) diz:

"Quanto aos filhos de Aarão, eis as suas classes: filhos de Aarão: Nadab e Abiú, Eleazar e Itamar.
2 Nadab e Abiú morreram antes de seu pai e não tiveram filhos. E Eleazar e Itamar exerceram o sacerdócio.
3 E Zadoc, dos filhos de Eleazar, e Aimeleque, dos filhos de Itamar, David distribuiu-os em classes, segundo o ofício no seu serviço.

4 E dos filhos de Eleazar encontrou-se um maior número de chefes de família do que dos filhos de Itamar, e foram distribuídos em classes: dos filhos de Eleazar, dezasseis chefes de casas paternas; e dos filhos de Itamar, oito, segundo as suas casas paternas.
5 E distribuíram-nos por sorte, uns com os outros; porque os chefes do santuário e os chefes de Deus eram dos filhos de Eleazar e dos filhos de Itamar.
6 E Semaías, filho de Natanael, o escriba, de entre os levitas, registou-os na presença do rei, dos chefes, de Zadoc, o sacerdote, de Aimeleque, filho de Abiatar, e dos chefes das casas paternas dos sacerdotes e dos levitas: uma casa paterna foi sorteada para Eleazar e outra para Itamar.

7 A primeira sorte caiu sobre Jeoiarib; a segunda, sobre Jedaías;
8 a terceira, sobre Harim; a quarta, sobre Seorim;
9 a quinta, sobre Malquias; a sexta, sobre Mijamim;
10 a sétima, sobre Hacoz; a oitava, sobre Abias;
11 a nona, sobre Jesua; a décima, sobre Secanias;
12 a décima primeira, sobre Eliasibe; a décima segunda, sobre Jaquim;
13 a décima terceira, sobre Hupa; a décima quarta, sobre Jesebeabe;
14 a décima quinta, sobre Bilga; a décima sexta, sobre Imer;
15 a décima sétima, sobre Hezir; a décima oitava, sobre Hapizzez;
16 a décima nona, sobre Petaías; a vigésima, sobre Ezequiel;
17 a vigésima primeira, sobre Jaquim; a vigésima segunda, sobre Gamul;
18 a vigésima terceira, sobre Delaías; a vigésima quarta, sobre Maazias.

19 Esta foi a sua distribuição para o seu serviço, para entrarem na casa do Senhor segundo a ordenança dada por Aarão, seu pai, como o Senhor, Deus de Israel, lhe havia ordenado."

Eram, assim, 24 sacerdotes que deviam oficiar semanalmente no culto do Templo. Cada um cumpria uma «guarda sacerdotal» durante uma semana, de sábado para sábado, a partir do meio-dia.

Encontramos estas guardas na mesma ordem nos manuscritos relativos ao calendário de Qumran. O manuscrito 4Q320 dá a rotação dessas guardas. Tinham de passar seis anos para que todos tivessem cumprido o mesmo número de guardas. O 4Q320 precisa que a primeira guarda do primeiro ano cabia a Gamul, que a cumpria de 28/12 do mês solar anterior até 03/01 do primeiro mês solar do ano.

Semana Dia Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6
28/12 Gamul
1 04/01 Delaïa Harim Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia
2 11/1 Maazia Seorim Abija Jakim Immer Ézéchiel
3 18/1 Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa Hézir Jakin
4 25/1 Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul
5 2/2 Harim Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa
6 9/2 Seorim Abija Jakim Immer Ézéchiel Maazia
7 16/2 Malkija Jéshua Huppa Hézir Jakin Jehoïarib
8 23/2 Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia
9 30/2 Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa Harim
10 7/3 Abija Jakim Immer Ézéchiel Maazia Seorim
11 14/3 Jéshua Huppa Hézir Jakin Jehoïarib Malkija
12 21/3 Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia Mijamin
13 28/3 Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa Harim Hakkots
14 4/4 Jakim Immer Ézéchiel Maazia Seorim Abija
15 11/4 Huppa Hézir Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua
16 18/4 Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia Mijamin Shecania
17 25/4 Bilga Pethakhia Delaïa Harim Hakkots Éliashib
18 2/5 Immer Ézéchiel Maazia Seorim Abija Jakim
19 9/5 Hézir Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa
20 16/5 Happitsets Gamul Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab
21 23/5 Pethakhia Delaïa Harim Hakkots Éliashib Bilga
22 30/5 Ézéchiel Maazia Seorim Abija Jakim Immer
23 7/6 Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa Hézir
24 14/6 Gamul Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets
25 21/6 Delaïa Harim Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia
26 28/6 Maazia Seorim Abija Jakim Immer Ézéchiel
27 4/7 Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa Hézir Jakin
28 11/7 Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul
29 18/7 Harim Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa
30 25/7 Seorim Abija Jakim Immer Ézéchiel Maazia
31 2/8 Malkija Jéshua Huppa Hézir Jakin Jehoïarib
32 9/8 Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia
33 16/8 Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa Harim
34 23/8 Abija Jakim Immer Ézéchiel Maazia Seorim
35 30/8 Jéshua Huppa Hézir Jakin Jehoïarib Malkija
36 7/9 Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia Mijamin
37 14/9 Éliashib Bilga Pethakhia Delaïa Harim Hakkots
38 21/9 Jakim Immer Ézéchiel Maazia Seorim Abija
39 28/9 Huppa Hézir Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua
40 4/10 Jéshébeab Happitsets Gamul Jedahia Mijamin Shecania
41 11/10 Bilga Pethakhia Delaïa Harim Hakkots Éliashib
42 18/10 Immer Ézéchiel Maazia Seorim Abija Jakim
43 25/10 Hézir Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa
44 2/11 Happitsets Gamul Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab
45 9/11 Pethakhia Delaïa Harim Hakkots Éliashib Bilga
46 16/11 Ézéchiel Maazia Seorim Abija Jakim Immer
47 23/11 Jakin Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa Hézir
48 30/11 Gamul Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets
49 7/12 Delaïa Harim Hakkots Éliashib Bilga Pethakhia
50 14/12 Maazia Seorim Abija Jakim Immer Ézéchiel
51 21/12 Jehoïarib Malkija Jéshua Huppa Hézir Jakin
52 28/12 Jedahia Mijamin Shecania Jéshébeab Happitsets Gamul

Mas por que razão os essénios, que tinham rompido com o Templo de Jerusalém já desde 150 a.C., mantinham esta «rotação» das guardas sacerdotais?

Na prática, estas tabelas eram para os escribas um instrumento simples que lhes permitia nomear as semanas. Os dias da semana não tinham nome e eram apenas identificados pelo seu lugar a partir do sábado. Isso facilitava muito o trabalho dos escribas e evitava erros na designação das semanas.

Tomemos um exemplo aleatório dessa «numeração» em 4Q321: "A lua cheia cai no quinto dia do serviço de Imer, no vigésimo terceiro dia do décimo mês [do primeiro ano]...". Hoje diríamos quarta-feira 23 de outubro. Portanto, ainda usamos, tal como os habitantes estudiosos de Qumran, este tipo de dupla marcação dos dias.

O ciclo dos jubileus e o ciclo de 294 anos

Duas palavras sobre estes dois ciclos, que só aparecem no manuscrito 4Q319, que tenta correlacionar os períodos de jubileu, os 'ot que já vimos, os anos sabáticos e a correspondência calendário solar/calendário lunar. Programa ambicioso.

Jubileu? Anos sabáticos? Leiamos um pouco do Antigo Testamento (Levítico, cap. 25) para recordar a duração de cada um:

"... Durante seis anos semearás o teu campo, e durante seis anos podarás a tua vinha, e recolherás o seu fruto; 4 e no sétimo ano haverá um sábado de descanso para a terra, um sábado [consagrado] ao Senhor: não semearás o teu campo nem podarás a tua vinha. 5 Não ceifarás o que nascer de si mesmo da tua colheita [anterior], nem vindimarás as uvas da tua vinha não podada: será um ano de repouso para a terra. 6 E o sábado da terra servir-vos-á de alimento, a ti, ao teu servo, à tua serva, ao teu jornaleiro e ao estrangeiro que habita contigo, 7 e ao teu gado e aos animais que estiverem na tua terra: todo o seu produto servirá de alimento. 8 E contarás sete sábados de anos, sete vezes sete anos; e os dias desses sete sábados de anos perfarão quarenta e nove anos. 9 E, no sétimo mês, no décimo [dia] do mês, farás soar fortemente a trombeta; no dia das expiações, fareis soar a trombeta por toda a vossa terra; 10 e santificareis o ano quinquagésimo, e proclamareis liberdade na terra a todos os seus habitantes: será para vós um jubileu..."

Assim, o jubileu é o quinquagésimo ano de um ciclo (a vermelho no texto). Já o texto 4Q319 considera o jubileu como um período de 49 anos (a verde).

Os anos sabáticos, por sua vez, regressam de 7 em 7 anos.

E vimos que o 'ot corresponde a um período de 3 anos.

Para fazer coincidir todos estes ciclos, o escriba «pensador» usa um ciclo de 6 jubileus, num total de 294 anos. Com o ano 295, tudo pode recomeçar do zero.

E, sobretudo, não me perguntem para que servem todas estas concordâncias de ciclos, porque não faço a mínima ideia. Fica a nota, e pronto.

Para terminar

Note-se que John P. Pratt, diplomado em astronomia e especialista em cronologia religiosa, cujo site é este, após cálculos aprofundados, considera que a época deste calendário de Qumran que tentámos conhecer melhor seria quarta-feira, 25/03/42 a.C. no calendário gregoriano. Recordo que a época (epact, em inglês) de um calendário é a data do primeiro dia do primeiro mês do seu primeiro ano. Terá deixado de existir em 70 d.C., no momento da destruição do Templo.

Falta apenas que os (numerosos) criadores de programas de conversão entre calendários se lancem nesta nova aventura.

Talvez não fosse assim tão inútil como parece, pois poderia ajudar:

  1. a compreender melhor, integrando as guardas sacerdotais, os manuscritos do Mar Morto;
  2. a verificar várias hipóteses que tendem a provar que o uso de dois calendários permite resolver certas incoerências de datas nos evangelhos e estabelecer uma cronologia coerente da Semana da Paixão. Não avançaremos mais, porque isso sai do âmbito deste site;
  3. e, quem sabe, a descobrir por simulação se existia, ou não, um sistema de intercalação neste calendário solar de Qumran, que ainda guarda alguns segredos.