CONSELHO: Devido às semelhanças entre o calendário asteca e o calendário maia na sua construção, convém ler primeiro a parte dedicada aos calendários maias. Nesta página vamos descobrir apenas as diferenças entre os dois calendários.
Um pouco de história
Continuamos no que foi chamado Mesoamérica (ver calendário maia), mas desta vez na parte mexicana.
No passado mexicano, distinguem-se quatro grandes períodos (fonte: Encyclopædia Universalis):
- Período pré-cerâmico (15 000 a 1 500 a.C.): tribos nómadas de caçadores-recoletores.
- Período pré-clássico ou formativo (1 500 a.C. a 300 d.C.): aparecimento da agricultura (milho) e sedentarização, culto de deuses e deusas. Entre 1200 a.C. e 900 a.C.: nascimento da civilização olmeca.
- Período clássico (até 900 d.C.): aparecimento de grandes centros religiosos e nascimento do fenómeno urbano.
- Período pós-clássico: primeira vaga de invasores vindos do Norte, os Toltecas, possivelmente na origem da construção da cidade de Teotihuacan e fundadores da cidade de Tula em 980. Dez reis-sacerdotes ter-se-iam sucedido até 1168, desenvolvendo aquilo a que se viria chamar império tolteca. O mais célebre desses reis foi Acatl-Topiltzin. Uma guerra civil expulsou-o de Tula e os seus fiéis dispersaram-se pelo vale e aliaram-se a outras tribos nahuas. Integrando tribos nómadas vindas do norte, Tula desenvolveu-se até 1165, ano em que a cidade foi devastada por um incêndio durante uma última invasão chichimeca. Os toltecas fugiram então e iriam influenciar numerosas cidades como Texcoco, Coyoacan, Azcapotzalco, Culhuacan, Chalca e Xochimilco.
Este era o quadro quando, no século XIII, um grupo de chichimecas vindos do norte apareceu no vale do México. Chamavam-lhes Mexicas ou Aztecas. Diziam vir de um lugar chamado «Aztlan» e eram conduzidos por quatro sacerdotes que transportavam o seu deus tribal, Huitzilopochtli. Guerreiros hábeis e corajosos, vão, pouco a pouco, tornar-se senhores do México:
Em 1323, são expulsos de Culhuacan pelo seu rei. Este tinha aceite dar a filha em casamento ao chefe deles para que ela se tornasse deusa da guerra. Ignorava que essa deificação passava pelo sacrifício da filha.
Mais uma vez os mexicas tiveram de fugir, mas em 1325 encontraram o lugar onde Huitzilopochtli lhes ordenara construir a cidade: o local onde veriam uma águia pousada num cacto e a devorar uma serpente. Num ilhéu do lago Texcoco, fundaram a cidade do México - Tenochtitlan. Um pouco mais tarde, ergueram num ilhéu vizinho uma cidade gémea chamada Tlatelolco.
Mas, por volta de 1367, a miséria obriga-os a alistar-se como mercenários no reino tepaneca de Atzcapotzalco, governado por Tezozomoc. As cidades-Estado do vale caem uma após outra.
Por volta de 1376, Acamapichtli, príncipe de Culhacan, é eleito primeiro Tlatoani (rei-sacerdote) dos Astecas.
Em 1426, o rei Tezozomoc morre e o seu filho Maxtlazin (o «Tirano Mextla») faz tudo para oprimir os Astecas e o poder nascente que eles representam.
Os Astecas saem vencedores do confronto e, de 1427 a 1440, reinará aquele que estabelecerá a hegemonia asteca sobre todo o vale do México: Itzcoatl, assistido pelo seu conselheiro Tlacaeelel. Este exercerá as funções de conselheiro ao longo de três reinados.
Sob a sua influência estabelece-se a tríplice aliança entre as cidades de Tenochtilan, Texococo e Tlacopan.
De 1440 a 1502, sob o reinado de Moctezuma e dos seus sucessores (Axayacatl, Tizoc, Ahuiltzol), o império asteca não para de se expandir. Apenas algumas regiões resistirão à pressão asteca.
Moctezuma Xocoyotzun (1502 - 1520), paralisado pela memória das antigas tradições toltecas, acreditará reconhecer em Hernán Cortés o rei tolteca Quetzalcoatl (a Serpente Emplumada), como fora predito. A convite dele, os conquistadores entram no México em 8 de novembro de 1519.
Apesar de um sobressalto de resistência asteca em 1520, o cerco do México começa em maio de 1521 e a cidade cai em agosto.
Em 1525, chega ao fim o império asteca que, como vimos, era mais uma confederação de Estados do que um império.
O(s) calendário(s)
Vimos que os maias usavam dois calendários: Tzolkin e Haab. E entre os astecas?
Esses dois calendários também existem entre eles. O calendário sagrado chama-se Tonalpohualli (Tzolkin entre os maias). O calendário civil chama-se Xiuhpohualli (Haab entre os maias).
1) O calendário Tonalpohualli
Mesma construção do seu equivalente maia: ciclo de 260 dias. Mesmo funcionamento: rotação encaixada de treze números e vinte signos.
Um dia (Tonali) resulta, portanto, da combinação de um número e de um nome. Em contrapartida, os glifos e as divindades protetoras mudam:
| Glifo | Nome | Tradução | Deus protetor |
|---|---|---|---|
| Cipactli | Crocodilo | Tonacatecuhtli |
| Ehecatl | Vento | Quetzalcoatl |
| Calli | Casa | Tepeyollotl |
| Cuetzpalin | Lagarto | Huehuecoyolt |
| Coatl | Serpente | Chalchihuitlicue |
| Miquizti | Morte | Tecciztecatl |
| Mazatl | Veado | Tlaloc |
| Tochtli | Coelho | Mayahuel |
| Atl | Água | Xiuhtecuhtli |
| Itcuintli | Cão | Mictlantecuhtli |
| Ozomahtli | Macaco | Xochipili |
| Mamilalli | Erva | Patecatl |
| Acatl | Cana | Tezcatlipoca |
| Ocelot | Jaguar | Tlazolteotl |
| Cuauhtli | Águia | Xipe Totec |
| Cozcacuauhtli | Abutre | Itzpapalotl |
| Ollin | Movimento | Xolotl |
| Tecpatl | Sílex | Chalchihuihtotolin |
| Quiahuitl | Chuva | Tonatiuh |
| Xochitl | Flor | Xochiquetzal |
Esta conta sagrada de 260 dias foi dividida em períodos (trecenas, análogos às nossas semanas) de 13 dias, colocados sob o signo do glifo que inicia a série. Cada «trezena» era, por sua vez, colocada sob a proteção de uma divindade. Chega-se à seguinte distribuição:
| N.º | Nome | Deus | N.º | Nome | Deus |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Cipactli | Ometeotl | 11 | Ozomahtli | Patecatl |
| 2 | Ocelotl | Quetzalcoatl | 12 | Cuetzpalin | Itzlacoliuhqui |
| 3 | Mazatl | Tepeyollotl | 13 | Ollin | Tlazolteotl |
| 4 | Xochitl | Huehuecoyotl | 14 | Itzcuintli | Xipe Totec |
| 5 | Acatl | Chalchihuitlicue | 15 | Calli | Itzpapalotl |
| 6 | Miquiztli | Tonatiuh | 16 | Cozcacuauhtli | Xolotl |
| 7 | Quiahuitl | Tlaloc | 17 | Atl | Chalchihuihtotolin |
| 8 | Malinalli | Mayahuel | 18 | Ehecatl | Chantico |
| 9 | Coatl | Xiuhtecuhtli | 19 | Cuauhtli | Xochiquetzal |
| 10 | Tecpatl | Mictlantecuhtli | 20 | Tochtli | Xiuhtecuhtli |
2) O calendário Xiuhpohualli
Mesma construção do seu equivalente maia: «Ano» (xihuitl) = 18 «meses» (meztli) de 20 dias + 5 dias nefastos (nemontemi). Mesmo funcionamento: rotação encaixada de treze números e vinte signos. Um dia (Tonali) resulta, portanto, da combinação de um número e de um nome.
Em contrapartida, os glifos dos meztli e as divindades protetoras mudam:
| Mês | Glifo | Nome | Tradução |
|---|---|---|---|
| I |
| Atlacacauallo | Paragem da água |
| II |
| Tlacaxipehualiztli | Esfolamento dos homens |
| III |
| Tozoztontli | Pequena vigília |
| IV |
| Hueytozoztli | Grande vigília |
| V |
| Toxcatl | Seca |
| VI |
| Etzalcualiztli | Consumo |
| VII |
| Tecuilhuitontli | Pequena festa dos dignitários |
| VIII |
| Hueytecuihutli | Grande festa dos dignitários |
| IX |
| Tlaxochimaco | Oferta de flores |
| X |
| Xocotlhuetzin | Queda dos frutos |
| XI |
| Ochpaniztli | Varredura |
| XII |
| Teoleco | Regresso dos deuses |
| XIII |
| Tepeihuitl | Festa das montanhas |
| XIV |
| Quecholli | *Nome de uma ave* |
| XV |
| Panquetzaliztli | Elevação dos estandartes |
| XVI |
| Atemoztli | A descida da água |
| XVII |
| Tititl | Nascimento de penas |
| XVIII |
| Izcalli | Crescimento |
| Nemontemi | *Os 5 dias nefastos* |
O último dia do último mês do ano (xihuitl) dava nome ao ano. Esse nome era associado a um número de 1 a 13. Esta associação em «rodas dentadas» já nos é familiar. Só quatro nomes podiam regressar: Acalt (Cana), Tecpatl (Sílex), Calli (Casa), Tocltli (Coelho). O ano 1-Cana era seguido de 2-Sílex, depois 3-Casa...
Ao fim de 52 anos, todas as combinações se esgotavam e recomeçava-se em 1-Cana.
3) A conta calendárica
Este ciclo de 52 anos, que também existia entre os astecas, chamava-se xiuhmolpilli. Era subdividido em quatro períodos de 13 anos, cada um com o nome do símbolo associado ao número 1. Por exemplo, o grupo de 13 anos que começa com 1-Casa são os «anos Casa» ou signo Casa. No final deste ciclo de 52 anos, os astecas celebravam a Festa do Fogo Novo.
4) Os dias complementares
Com um ano de 365 dias, o calendário não estava em fase com o ano trópico médio, de cerca de 365,25 dias. Como corrigiam os astecas esse desfasamento? Acrescentando 1 dia de 4 em 4 anos, como no calendário juliano? Vários dias em intervalos regulares (como no calendário chinês)? Ou... não fazendo nada (como no calendário egípcio)?
Todas as hipóteses (incluindo nesta página, numa versão anterior) já foram avançadas sobre o tema, mas sem uma única prova uma hipótese não passa de conversa.
E, no estado atual do conhecimento e da investigação, é preciso reconhecer que Michael D. Coe, da Universidade de Yale, tem razão quando escreve (Mexico, p. 181) que "... nem os astecas nem qualquer outro povo meso-americano usou anos bissextos ou qualquer sistema de intercalação para corrigir o facto de o ano verdadeiro ser um quarto de dia mais longo do que 365 dias" (tradução «livre» minha).
Até prova em contrário, consideraremos, portanto, o calendário asteca como um calendário «vago», no mesmo sentido do calendário egípcio.
Acrescento que, segundo Edouard Seler (ver aqui), entre o ano da conquista (1519) e a data dos escritos de Sahagún, em cerca de quarenta anos, não foi feita qualquer intercalação.
Aliás, se a cada dia (incluindo os dias nefastos) corresponde um glifo diferente, porque não encontramos qualquer vestígio de glifos para os dias complementares, se eles existiam?
5) Correspondência com o nosso calendário
Não está determinada com exatidão. Sabemos que alguns fixam a queda de Tenochtitlan em 13 de agosto de 1521 (calendário juliano), que corresponderia ao 1-coatl do ano 3-Calli.
Não podemos terminar o estudo dos calendários astecas sem evocar a famosa Piedra del Sol (Pedra dos Sóis), muitas vezes chamada incorretamente calendário asteca. O seu nome asteca era Cuauhxicalli (recetáculo da Águia).
Se quiser conhecer esta pedra, clique aqui