Esta página está dividida em duas grandes partes:
- A primeira, intitulada Vários calendários julianos?, é menos um estudo do que um inventário dos diferentes calendários julianos com os quais podemos deparar-nos.
- A segunda, intitulada Em torno do ano da confusão, é um estudo que tenta esclarecer o que aconteceu após a reforma de César, sobretudo no que diz respeito aos anos bissextos. Não tem por objetivo explicar o nascimento do calendário juliano nem a sua estrutura. Para saber mais sobre esses pontos, veja a página O calendário juliano.
Vários calendários julianos?
Olho para o meu calendário dos Correios e digo para mim que o início da nossa era foi 01/01/01 nesse mesmo calendário.
Qual foi a data da Páscoa no ano da morte de César? Ele realmente morreu na quarta-feira, 15 de março de -43? Ou foi em -44? E, para terminar, uma pergunta feita por Jean Lefort: "Cervantes e Shakespeare morreram os dois na mesma data, em 23 de abril de 1616. Qual morreu primeiro?". Sem levar em conta a hora, naturalmente.
É de perder a cabeça, não é?
Embora essa confusão vá muito além dos calendários romano e juliano, vamos limitar-nos a esse longo período que vai de Rómulo ao pós-César.
Os grandes períodos
Aqueles que «inventam» uma era, seja na criação de um novo calendário, seja simplesmente de uma nova «época» (ponto de partida de uma nova cronologia), muitas vezes a fazem remontar a uma data bem anterior à da «descoberta». E, para posicionar o início dessa nova era, dão-no em relação ao início de uma era ainda mais antiga. E, quando essa mudança de era não ocorre por ocasião da criação de um novo calendário, a sua época é dada no calendário em vigor no momento da mudança.
Assim, por obra de Dionísio, o Exíguo, o calendário juliano é datado em 532 da era cristã (ou Anno Domini ou AD) desse mesmo calendário juliano. Dionísio, o Exíguo, fez essa era começar (ano 1, já que o zero não era conhecido) no ano 753 da Fundação de Roma. Note-se que alguns defendem 754... sem que se saiba quem tem realmente razão. Dionísio, o Exíguo, já não está aqui para nos dizer.
Portanto, o calendário juliano, tal como ainda o usamos em alguns casos (veremos em quais), data de 532 d.C. E, se considerarmos que o seu uso cessou definitivamente em 1922, ano em que foi abandonado pela Igreja Ortodoxa Grega, podemos dizer que o seu uso deveria limitar-se a 532-1922 para o período mais amplo possível. Naturalmente, a data final depende da adoção do calendário gregoriano no país considerado.
Mas existe outro calendário juliano. Poderíamos dizer o verdadeiro calendário juliano: aquele que nasce da reforma de Júlio César e que conta os anos em A.U.C. (Ab Urbe Condita), cuja época corresponderia à fundação de Roma. Segundo Varrão, historiador morto em 27 a.C. (na notação do calendário juliano de «era cristã»), essa fundação remontaria a 21 de abril de 753 a.C. desse mesmo calendário, que se faz coincidir com o ano 754.
Nessa era A.U.C., o calendário reformado por César começou no ano 709, se omitirmos o 708, que foi ano de transição, também chamado de ano da confusão, sobre o qual voltaremos na segunda parte desta página.
Para ser preciso, como também veremos na segunda parte, certa confusão (mais uma) reinou durante as primeiras décadas desse calendário reformado, de César a Augusto, por causa da distribuição dos anos bissextos. Portanto, o calendário juliano tal como César queria só teria realmente começado em 753 ou 757 A.U.C., conforme as hipóteses.
A nossa denominação atual calendário juliano cobre, portanto, dois calendários: um na era de Roma e outro na era cristã. Se acrescentarmos que, durante toda a Idade Média, ainda se falava em Idos, Calendas e Nonas, a noção de calendário juliano cobre pelo menos três calendários.
Outra confusão: a era A.U.C. era conhecida pelos romanos no tempo de César e antes?
Nada é menos certo.
Como já vimos, trata-se de uma invenção de Varrão com o objetivo de estabelecer uma cronologia da história romana.
Leiamos, a esse respeito, o que escreve Teodoro Mommsen na sua História romana, livro II, capítulo IX.
THEODOR MOMMSEN (1817-1903)
Historiador alemão da Antiguidade, Theodor Mommsen era originário do estado de Schleswig-Holstein, onde o seu pai era pastor.
Mommsen deixou uma obra verdadeiramente monumental, grande parte da qual resistiu ao tempo. A sua História romana (Römische Geschichte), que levou até à morte de César, é uma obra maior; publicada em três volumes em Breslau entre 1854 e 1856, e completada por um último volume publicado em Berlim em 1886, conheceu múltiplas reedições e traduções. O Direito público romano (Das römische Staatsrecht, 1871-1888) e O Direito penal (Das Strafrecht, 1899) são duas sínteses admiráveis. Trecho da Encyclopædia Universalis.
"Entre os romanos não existia uma era de cômputo adotada pelo uso comum. Contudo, em matéria sagrada, contava-se desde a consagração do templo de Júpiter Capitolino, que também servia de ponto de partida para as listas de magistraturas. [...] Há um facto certo: as tabelas dos pontífices registavam o ano da fundação de Roma. E tudo nos leva a crer que, quando, por volta da primeira metade do século V, os colégios de pontífices quiseram redigir um anuário verdadeiro e mais útil, colocaram no início a história dos reis de Roma, até então desconhecida, e a da sua queda. Depois, como situavam a fundação da República em 13 de setembro de 245, dia da consagração do templo de Júpiter Capitolino, fizeram concordar assim (ainda que apenas na aparência) tanto a cronologia dos anais como os factos sem data anteriores à história."
Em resumo, os romanos só conheciam a era capitolina ou a sucessão dos consulados. E, para construir uma cronologia mais séria, inventaram muito mais tarde uma era A.U.C., «preenchendo» os vazios entre A.U.C. e a era capitolina (época: 13 de setembro de 509 a.C. juliano, ou 245 A.U.C.) com certos factos ou certos reis, como Numa Pompílio, Anco Márcio, Túlio Hostílio..., dos quais já não sabemos se pertencem realmente à história ou à lenda.
Daí as dificuldades que vimos em detalhe na página dedicada aos calendários romanos pré-julianos para reconstruir uma história dos calendários entre a suposta fundação de Roma e a reforma de Júlio César.
O calendário juliano prolongado
Uma característica importante do calendário juliano é a sua estabilidade: três anos de 365 dias e um ano de 366 dias. Diferentemente do calendário gregoriano, ele não suprime anos bissextos.
Daí o interesse dos astrónomos em usá-lo fora do seu período de existência «legal». Mais legível que o dia juliano, ele permite estabelecer a antiguidade relativa dos acontecimentos.
Por isso, costuma-se prolongar o calendário juliano para trás de 532 do próprio calendário («calendário proléptico», do grego prolepsis, antecipação) e para a frente da adoção do calendário gregoriano no país considerado.
Mas é preciso dizer isso claramente. Caso contrário, já não se sabe a que correspondem as datas dadas.
Zero e anos negativos
Já tratamos longamente deste problema dos anos negativos aqui.
Em resumo: o calendário juliano «nativo», com anos contados na era cristã, não tem ano zero. Passa-se diretamente do ano -1 para o ano 1.
Mas, nesse caso, perde-se, para os anos negativos, a vantagem da divisibilidade por 4 dos anos bissextos. Para conservar essa vantagem, os astrónomos (convenção introduzida pelo astrónomo Jacques Cassini) estabeleceram um ano zero que corresponde ao ano 1 a.C.
Uma regra diria que as datas escritas com a.C. ou BC não tenham ano zero, enquanto as datas escritas com sinal de menos o tenham. Infelizmente, essa regra nem sempre é respeitada. Também aqui é preciso dizer claramente.
Ano -4 na notação dos astrónomos significa que há ano zero. -4 na notação dos historiadores significa que não há ano zero. Outra possibilidade, como eu observava na página que trata desse problema, seria escrever os primeiros como ~4 e os segundos como -4. Jean Lefort usa essa notação e o explicita. Também parece ser uma opção adotada no Le Petit Robert 2. O inconveniente é que ~ também significa às vezes «aproximadamente».
No fundo, pouco importa a convenção escolhida. Mas quem usa datas negativas deveria dizer claramente o que está a fazer: anos negativos com ou sem ano zero, calendário tal ou tal quando a data dada não pertence ao calendário em vigor naquele momento.
Tabela de síntese
Com risco de ficar pouco legível, esta tabela não leva em conta todos os avatares (modificações do calendário romano, anos de confusão do calendário juliano...) sofridos pelos diferentes calendários em épocas distintas.
Notemos também que, num país dado, o fim do calendário juliano em geral coincide com a adoção do calendário gregoriano.
| Era A.U.C. | Era cristã | Ano A.U.C. | Ano juliano (historiadores) | Ano juliano (astrónomos) | Observações | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Romano arcaico | Juliano proléptico a.C. | Gregoriano proléptico | 1 | 754 a.C. | - 753 | Ab Urbe Condita |
| Juliano | 709 | 45 a.C. | - 44 | Reforma de César | ||
| 753 | 1 a.C. | 0 | Consoante o tipo de notação, esse ano é 0 ou 1 | |||
| Juliano proléptico d.C. | 1 d.C. | 1 | A notação deixa de ter importância | |||
| Juliano | 532 d.C. | 532 | Dionísio, o Exíguo, "inventa" a era cristã | |||
| Gregoriano | 1582 | 1582 | Varia conforme a data de adoção do calendário gregoriano no país considerado | |||
| 1922 | 1922 | Fim do calendário juliano na Igreja Ortodoxa Grega | ||||
| Juliano "prolongado" | 2005 | 2005 | Continua... | |||
Em torno do ano da confusão
Combinemos, para o que segue, chamar de juliano o calendário tal como é usado pelos historiadores (calendário juliano proléptico sem ano zero) e de romano o calendário tal como era conhecido antes e no tempo de César e Augusto.
Por outro lado, como este estudo é apenas um zoom sobre uma parte do calendário romano, supomos conhecida a sua história antes de César e depois de César.
Por fim, quero prestar homenagem ao trabalho colossal e magnífico de Chris Bennett sobre cronologia romana. O seu site, muito técnico, está aqui. Tentaremos tornar as suas observações e interpretações mais acessíveis.
As perguntas que vamos levantar são as seguintes:
- Ano da confusão: como foi construído? Quantos dias teve?
- Anos bissextos de César até à reforma de Augusto: quantos e quando?
O ano da confusão
| Autores das fontes | ||
|---|---|---|
| Caius Suetonius Tranquillus (Suetónio) | c. 70 - c. 140 | historiador latino |
| Dion Cássio | 115 - c. 235 | Historiador grego Cônsul em 220 e 229 |
| Censorinus (Censorino) | c. 240 | Gramático romano |
| Ambrosius Theodosius Macrobius (Macróbio) | século IV - século V | Escritor latino |
Qual foi a duração e a estrutura do chamado «ano da confusão» (708 A.U.C.), que precedeu o início do calendário romano de César em 709 A.U.C.?
“Macróbio, Saturnales 1.14.3: César, ao querer empreender uma nova regulamentação do ano, deixou primeiro transcorrer todos os dias que ainda podiam produzir confusão; por isso, esse ano, o último período do estado de desordem, estendeu-se por quatrocentos e quarenta e três dias. Depois disso, à imitação dos egípcios, os únicos povos instruídos na economia celeste, esforçou-se para modelar o ano sobre a revolução do Sol, que completa o seu curso no espaço de trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto.
«Esse ano», como escreve Macróbio, é o ano 708 A.U.C. E constatamos que foi ele quem consagrou essa designação de «ano da confusão» ou «ano da desordem».
Macróbio também nos informa que esse ano teria contado 443 dias.
Suetônio (Vida de Júlio César 40) acrescenta mais detalhes sobre a composição desse ano:
“Para que essa nova ordem de coisas pudesse começar nas calendas de janeiro do ano seguinte, ele acrescentou dois outros meses suplementares entre novembro e dezembro ao ano em que essa reforma ocorreu; e assim esse ano ficou com quinze meses, com o antigo mês intercalar, que, segundo o costume, aparecia justamente naquele ano.
Ele nos informa que:
- O ano seguinte (709 A.U.C.) começará em janeiro. O início do ano tradicional passará, portanto, de março para janeiro.
- Dois meses são adicionados ao ano 708 A.U.C. entre novembro e dezembro (Int. prior e Int. posterior).
- Nesse ano teria sido adicionado um mês intercalar de «método antigo» (22 dias entre 23 e 24 de fevereiro, ou 23 dias entre 24 e 25 de fevereiro), o que totalizou 15 meses.
Qual foi a duração desse mês intercalar? E a dos dois meses adicionados entre novembro e dezembro?
Censorino, em De die natali (20.8), responde às duas perguntas, embora deixe uma dúvida:
“E tal foi o resultado dessa confusão que C. César, sumo pontífice, querendo corrigir esse erro durante seu terceiro consulado e o de M. Emílio Lépido, teve de inserir entre novembro e dezembro dois outros meses intercalares de sessenta e sete dias, embora já tivesse intercalado vinte e três dias em fevereiro; o que fez com que aquele ano tivesse quatrocentos e quarenta e cinco dias. Ao mesmo tempo, providenciou para que erro semelhante não se repetisse no futuro; pois, tendo suprimido o mês intercalar, estabeleceu o ano civil de acordo com o curso do Sol.
Daí se conclui que:
- A duração total dos dois meses adicionados entre novembro e dezembro é de 67 dias. Como eles foram distribuídos entre os dois meses? Mistério.
- O mês intercalar de fevereiro tem 23 dias.
- O ano civil fica ajustado ao curso do Sol. Sosígenes havia fixado, segundo seus cálculos, o equinócio da primavera em «25 de março».
Notemos de passagem que 67 dias = 22 + 22 + 23. Alguns sustentam que isso corresponderia a três meses intercalares «esquecidos» por César em anos anteriores, quando era pontífice.
A dúvida é que Censorino fala de 445 dias, enquanto Macróbio fala de 443. Quem tem razão? Onde está o erro, se é que há erro?
Dião Cássio (43.26) confirma os 67 dias entre novembro e dezembro: "Como os dias dos anos não concordavam bem entre si, César introduziu a forma atual de contagem, intercalando 67 dias necessários para restabelecer a concordância".
O antigo ano romano normal tinha 355 dias. Se acrescentarmos um mês intercalar e os 67 dias entre novembro e dezembro, deveríamos obter ou 355 + 22 + 67 = 444 dias, ou 355 + 23 + 67 = 445 dias. Em todo caso, não 443.
Portanto, Macróbio ter-se-ia enganado por 2 dias. Notemos também que, se o ano «tradicional» ainda existisse (o ano consular já começava em janeiro desde 601 A.U.C.), em 707 A.U.C. ele teria contado, de março a dezembro: 31 + 29 + 31 + 29 + 31 + 29 + 29 + 31 + 29 + 67 + 29 = 365 dias, isto é, a duração do futuro ano juliano.
Os anos bissextos, da reforma de César à de Augusto
| Fontes complementares para esta parte | ||
|---|---|---|
| Caius Julius Solinus (Solino) | Meados do século III | Escritor latino |
| C. Plinius Secundus (Plínio, o Velho) | 23 - 79 | Historiador latino |
Como antes da reforma de César, a tarefa de intercalar anos bissextos foi confiada a homens instruídos nas ciências das medidas e da escrita; numa palavra, aos pontífices. Eles já tinham sido particularmente maus nessa tarefa antes de César e continuaram a sê-lo depois.
Com efeito, em vez de intercalar a cada quatro anos, fizeram-no a cada três. E, como César morreu em 15 de março de 44 a.C., com algumas punhaladas, ele já não estava lá para lhes apontar isso. E Sosígenes... Ora, onde foi parar Sosígenes?
E, como Augusto demorou alguns anos para reagir, a situação prolongou-se por algumas décadas. Vejamos isso mais de perto.
É Macróbio quem mais nos informa sobre esses anos:
“Saturnales 1.14: César, tendo organizado assim a divisão civil do ano e colocado-a em consonância com as revoluções da Lua, promulgou-a publicamente por um édito. O erro poderia ter parado aí, se os sacerdotes não tivessem criado um novo erro a partir da própria correção. Pois, enquanto o dia resultante dos quatro quartos de dia deveria ser intercalado após quatro anos completos e antes do começo do quinto, eles o intercalavam não depois, mas no começo do quarto ano. Esse erro durou trinta e seis anos, durante os quais se intercalaram doze dias, quando só deveriam ter sido intercalados nove. Finalmente percebeu-se isso, e Augusto o corrigiu ordenando deixar passar doze anos sem intercalação; para que esses três dias excedentes, produzidos pela pressa excessiva dos sacerdotes durante trinta e seis anos, fossem compensados pelos doze anos seguintes sem intercalação. Ao fim desse prazo, ele ordenou que se intercalasse um dia no começo de cada quinto ano, como César havia fixado; e mandou gravar todo esse sistema de divisão do ano numa tábua de bronze, para conservá-lo perpetuamente.
Outras fontes são menos detalhadas:
“Plínio, o Velho, História natural XVIII, LVII: [...] E esse mesmo cálculo, no qual se descobriu um erro, foi corrigido: durante doze anos consecutivos não se fez intercalação, já que o ano, que antes se adiantava, passou então a atrasar em relação aos astros.
“Solino, De mirabilibus mundi I: [...] mas voltou a ocorrer um erro devido aos sacerdotes. Havia-se recomendado que intercalassem um dia no quarto ano. Essa intercalação deveria ocorrer no fim desse quarto ano e antes da inauguração do quinto; contudo, ocorreu no começo do quarto e não no fim: assim, em vez de intercalar nove dias em trinta e seis anos, intercalaram-se doze. Esse erro foi corrigido por Augusto, que prescreveu deixar passar doze anos sem intercalação, para compensar esses três dias acrescentados indevidamente aos nove necessários. Essa foi a base sobre a qual ficou estabelecido, daí em diante, o cômputo do ano. Essa reforma e muitas outras pertencem ao tempo de Augusto.
Plínio é muito vago e quase não há diferenças entre os textos de Solino e Macróbio.
Se, numa primeira leitura, o texto de Macróbio parece claro e preciso, um exame mais atento suscita várias perguntas. Prontos para uma pequena análise de texto?
1) Os erros de intercalação
1-a) O que é certo
- Em vez de intercalar no fim do quarto ano após uma intercalação anterior, os pontífices intercalaram antes do quarto ano.
- O erro durou 36 anos.
- Intercalaram-se 12 dias em vez de 9.
1-b) As perguntas
- Em que ano foi intercalado o primeiro dia complementar? Noutras palavras, que ano «inicializa» o ciclo de 4 anos dos anos bissextos?
- Essa primeira intercalação deve ser contada entre os erros? De facto, o ano de inicialização não pode ser considerado propriamente um erro. Mas Macróbio contou-o como tal? Em resumo: 12 ou 13 intercalações de uma reforma à outra?
- Qual é o ponto de partida dos 36 anos? Se seguirmos Macróbio, a intercalação não antecipa os 4 x 1/4 de dia a mais de cada ano normal, mas corrige-os. Portanto, os 36 anos deveriam ser contados a partir do primeiro «erro» (ano incluído), no fim do 9.º ciclo, ou seja, três anos (incluídos) após a 9.ª falsa intercalação. Era isso que Macróbio queria dizer?
2) As correções
2-a) O que é certo
- É preciso deixar passar 12 anos após esses 36 anos antes de voltar a intercalar.
- Durante esses doze anos, três anos que seriam bissextos passam a ter 365 dias em vez de 366.
2-b) As perguntas
- E no fim desses doze anos, intercala-se imediatamente?
- Como detalhe adicional: os três ciclos omitidos eram trienais ou quadrienais?
Consoante se interprete o texto de Macróbio e consoante as respostas dadas a essas perguntas, chega-se a esquemas diferentes de dias intercalados e de dias bissextos omitidos para o período de quase 50 anos que segue a reforma de César.
Assim, Chris Bennett enumera seis modelos, devidos a Scaliger (1583), Kepler (1614), Ideler e Mommsen (1859), Matzat (1883), Soltau (1889) e Radke (1960).
Vamos resumir o esquema de cada um numa tabela, acrescentando também o próprio esquema de Chris Bennett. Aproveito para agradecer a Chris Bennett pela sua ajuda a reconstituir esta tabela e pelos seus valiosos conselhos e explicações.
Na tabela a seguir, B simboliza um ano bissexto «normal»; Mx (x = número), os anos bissextos compreendidos nos 36 anos de que fala Macróbio; e S, um ano bissexto omitido. As faixas amarelas representam períodos de 12 anos, as azuis períodos de 36 anos, a faixa vermelha um período de 11 anos e a faixa verde um período de 12 anos de data a data.
| A.U.C. | Julien | 1583 | 1614 | 1859 | 1883 | 1889 | 1960 | 2004 | Observações do esquema de Bennett |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Scaliger | Kepler | Mommsen | Matzat | Soltau | Radke | Bennett | |||
| 708 | 46 | ano de 445 dias | |||||||
| 709 | 45 | B | M1 | M1 | |||||
| 710 | 44 | M1 | B | ano bissexto | |||||
| 711 | 43 | M1 | |||||||
| 712 | 42 | M1 | **B** prevista | M1 | M2 | ||||
| 713 | 41 | M2 | M2 | M1 | primer ano de error | ||||
| 714 | 40 | M2 | |||||||
| 715 | 39 | M2 | M2 | M3 | |||||
| 716 | 38 | M3 | M3 | M2 | |||||
| 717 | 37 | M3 | |||||||
| 718 | 36 | M3 | M3 | M4 | |||||
| 719 | 35 | M4 | M4 | M3 | |||||
| 720 | 34 | M4 | |||||||
| 721 | 33 | M4 | M4 | M5 | |||||
| 722 | 32 | M5 | M5 | M4 | |||||
| 723 | 31 | M5 | |||||||
| 724 | 30 | M5 | M5 | M6 | |||||
| 725 | 29 | M6 | M6 | M5 | |||||
| 726 | 28 | M6 | |||||||
| 727 | 27 | M6 | M6 | M7 | |||||
| 728 | 26 | M7 | M7 | M6 | |||||
| 729 | 25 | M7 | |||||||
| 730 | 24 | M7 | M7 | M8 | |||||
| 731 | 23 | M8 | M8 | M7 | |||||
| 732 | 22 | M8 | |||||||
| 733 | 21 | M8 | M8 | M9 | |||||
| 734 | 20 | M9 | M9 | M8 | |||||
| 735 | 19 | M9 | |||||||
| 736 | 18 | M9 | M9 | M10 | |||||
| 737 | 17 | M10 | M10 | M9 | |||||
| 738 | 16 | M10 | |||||||
| 739 | 15 | M10 | M10 | M11 | |||||
| 740 | 14 | M11 | M11 | M10 | |||||
| 741 | 13 | M11 | |||||||
| 742 | 12 | M11 | M11 | M12 | |||||
| 743 | 11 | M12 | M12 | M11 | |||||
| 744 | 10 | M12 | |||||||
| 745 | 9 | M12 | M12 | S | |||||
| 746 | 8 | S1/2 | M12 | último ano bissexto do ciclo trienal primeiro ano da reforma de Augusto |
|||||
| 747 | 7 | ||||||||
| 748 | 6 | ||||||||
| 749 | 5 | S | S | S | S1 | S | S | S | |
| 750 | 4 | S2 | |||||||
| 751 | 3 | ||||||||
| 752 | 2 | S | |||||||
| 753 | 1 | S | S | S | S1 | S | S | ||
| 754 | 1 | S2 | |||||||
| 755 | 2 | S | |||||||
| 756 | 3 | ||||||||
| 757 | 4 | S | S | S | B | S | B | B | 1.º ano bissexto do ciclo de 4 anos |
| 758 | 5 | ||||||||
| 759 | 6 | ||||||||
| 760 | 7 | ||||||||
| 761 | 8 | B | B | B | B | B | B | B |
Alguns comentários
- Scaliger inicializa o calendário de César em 709 A.U.C. sem, no entanto, colocar ali um ano bissexto. O restante segue o texto de Macróbio: 36 anos de erros, reforma de Augusto em 746 A.U.C. e supressão de três dias bissextos em três ciclos quadrienais.
- Kepler considera que o primeiro ano bissexto deveria ter sido o ano 42 a.C. e que, portanto, o primeiro erro dos pontífices começou no ano anterior. No restante, aceita o ciclo da reforma de Augusto apresentado por Scaliger. Mais tarde, sem que se saiba muito bem por quê, acabou aceitando integralmente o modelo de Scaliger.
- Mommsen propõe o mesmo esquema de Scaliger, mas coloca um ano bissexto em 709 A.U.C., que ele não considera um erro, e sim o ano de inicialização dos anos bissextos.
- Matzat deduz de um texto de Dião Cássio 48.33.4 («No ano anterior [...] foi acrescentado um dia intercalar, contra a regra») que foi acrescentado um ano bissexto em 713 A.U.C. Esse texto faz parte de um parágrafo que se refere aos anos 713 e 714 A.U.C. Como a referência ao «ano anterior» aparece no fim do parágrafo, pode-se deduzir que se trata do ano anterior a 714 A.U.C., isto é, 713 A.U.C.
Notemos, de passagem, que Mommsen interpretou essa passagem de outro modo e considerou que Dião Cássio falava do ano anterior a 713 A.U.C., isto é, 712 A.U.C.
Quanto aos 12 anos de supressão, ele os conta de data a data (das calendas de janeiro de 8 a.C. às calendas de 4 d.C.), sem considerar bissexto o ano da reforma de Augusto (746 A.U.C.).
Como Matzat não indica onde coloca os anos bissextos suprimidos pela reforma de Augusto, as hipóteses a esse respeito aparecem como S1 e S2 na tabela.
- Soltau concorda com Matzat quanto aos dias intercalares mal colocados e com Scaliger quanto aos dias omitidos. Em contrapartida, rejeita 710 A.U.C. e prefere 709 A.U.C.
- Radke, embora não aceite a argumentação de Mommsen, chega ao mesmo esquema que ele, com a diferença de que inclui 709 A.U.C. entre as intercalações erradas. E, naturalmente, todo o resto se desloca.
- Bennett, logicamente, considera que o seu esquema é o correto. Ele é muito próximo do de Matzat, mas, por um lado, acrescenta um ano bissexto «incorreto» em 746 A.U.C. e, por outro, considera 710 A.U.C. como ano de inicialização dos anos bissextos trienais, que não pode ser considerado «incorreto». Além disso, conclui que os «doze anos» de que fala Macróbio devem ser lidos como «até ao décimo segundo ano» contado a partir da reforma de Augusto.
Sem entrar em todos os detalhes, resumamos as linhas gerais do esquema de Bennett:
- A partir de um papiro (pOxy 61.4175), cuja análise foi publicada em 1999, e de um decreto de Paullus Fabius Maximus (iPriene 105 = OGIS 458), pode-se deduzir que o último ano bissexto do último ciclo trienal é 746 A.U.C., e que o primeiro ano bissexto juliano «verdadeiro» é 757 A.U.C.
- Os dias complementares omitidos por Augusto são omitidos num ciclo trienal, e o primeiro ano bissexto verdadeiro (de um ciclo quadrienal) é o 12.º ano da reforma de Augusto.
- De Dião Cássio 48.33.4 resulta que o primeiro «ano errôneo» foi 713 A.U.C.
- 710 A.U.C. foi um ano bissexto?
Dião Cássio (48.33.4) diz que prid. Kal. Jan. 713 A.U.C. foi um dia de mercado e que (40.47) Kal. Jan. 702 A.U.C. também foi um dia de mercado.
702 A.U.C. foi um ano bissexto com 23 dias acrescentados, isto é, um ano de 378 dias. De 703 a 707 inclusive, não houve anos bissextos, o que dá 5 x 355 = 1775 dias. O ano da confusão, por sua vez, durou 445 dias. Se contarmos 365 dias no ano 713 para chegar às prid. Kal. Jan. e 4 x 365 para 708 a 711 inclusive, chegamos a um total de
378 + (5 x 355) + 445 + (4 x 365) + 365 = 4423 dias. 4423 não é divisível por 8 (o dia de mercado ocorria a cada 8 dias).
Em contrapartida, se considerarmos que 710 A.U.C. foi bissexto, chegamos a 4424 dias, múltiplo de 8.
Esse esquema é o correto?
Ele supõe que o ano da confusão teve efetivamente 445 dias e que Censorino ter-se-ia enganado.
Supõe também que Macróbio, Plínio e Solino teriam confundido «doze anos» com «até ao décimo segundo ano».
Deixo-o formar a sua própria opinião.