Em jeito de introdução
Ao resolver o problema do desfasamento da data da Páscoa, a reforma gregoriana acabou por alinhar as estações em períodos idênticos de um ano para o outro. A duração média do ano gregoriano é praticamente igual à do ano trópico.
Ainda assim, para percebermos bem do que estamos a falar, convém saber ao certo o que é o ano trópico e o que entendemos por estação(ões):
Falamos da mesma coisa quando dizemos «isto não é tempo de estação» ou «a época dos morangos»? Pior ainda, quando olhamos para um almanaque dos correios e lemos, para 2007, «verão: 21 de junho às 18h06», é legítimo perguntar o que acontece nesse dia, a essa hora, para se poder afirmar que passámos da primavera para o verão.
Pela minha parte, por mais que olhe à minha volta no dia 21 de junho, não vejo diferença nenhuma em relação ao dia anterior. Não se passa mais nada entre 20 e 21 de junho do que se passa numa lata de ervilhas entre a véspera e o dia da data-limite de consumo indicada na tampa.
Ao longo desta análise, vamos tentar perceber a que correspondem estas datas tão precisas das quatro estações assinaladas nos calendários, verificar se essas 4 estações constituem de facto o ano trópico, perceber o que são as estações no sentido em que as usamos na vida quotidiana e dar uma volta ao planeta para ver se estas 4 estações existem em todos os países e regiões.
As estações astronómicas
A César o que é de César. Como este site é dedicado ao tempo e aos calendários, peguemos no nosso almanaque do carteiro de 2007. Aí lemos que, a 21 de março às 0h07m UT, é primavera; a 21 de junho às 18h06m UT, é verão; a 23 de setembro às 9h50m UT, será outono; e a 22 de dezembro às 6h07m UT, será inverno.
E colocamos as seguintes perguntas:
- Porque é que é a 21 de março, 21 de junho, etc.? O que acontece nesses dias?
- E o que acontece entre 21 de março e 21 de junho, entre 21 de junho e 23 de setembro, etc.?
É a astronomia que nos vai ajudar a responder.
Não, não!! Não fujam!! Não sou mais astrónomo do que vocês. Por isso, vamos simplificar, sem exagerar no jargão astronómico nem em cálculos complicados. O nosso único objetivo é perceber o que são estas estações de que o calendário nos fala. Vamos a isso?
Bem-vindos a quem fica e continua a leitura desta página. Vamos avançar passo a passo.
E notemos desde já que todos os desenhos desta página são falsos no que toca às proporções.
Primeira etapa: revolução e excentricidade
A Terra gira em torno do Sol num plano, no sentido direto (sentido contrário ao dos ponteiros do relógio), em um ano.
Esta frase precisa de alguns esclarecimentos:
1) Na realidade, não é a Terra tomada pelo seu centro que se desloca no plano da eclíptica (linha branca pontilhada), mas sim o centro de gravidade do sistema Terra-Lua.
Este centro de gravidade Terra-Lua chama-se baricentro e situa-se a cerca de 4 700 km do centro geométrico da Terra, numa linha imaginária que liga o centro da Terra ao centro da Lua.
Isto cria um movimento de balanço da Terra, para a frente e para trás, durante cada ciclo lunar (linha amarela contínua no diagrama da esquerda).
A relação de massas do sistema Terra-Lua é de 81:1; por isso, o centro de gravidade do sistema Terra-Lua está 81 vezes mais afastado do centro da Lua do que do centro da Terra.
Note-se que, muitas vezes, considera-se que o centro da Terra coincide com o baricentro Terra-Lua. Esta aproximação pode, por vezes, ter consequências nada desprezáveis nas datas e horas de certos fenómenos astronómicos. Voltaremos a este ponto mais abaixo.
2) A revolução da Terra em torno do Sol não se faz segundo um círculo, mas segundo uma elipse.
Toda a elipse tem dois focos, situados no seu eixo maior, chamado linha dos ápsides. O Sol ocupa um desses focos.
Quanto maior for a distância entre os focos (chamada distância focal), mais achatada é a elipse. A relação entre essa distância e o comprimento do eixo maior é o coeficiente de excentricidade. Portanto, e = distância focal / comprimento do eixo maior. Varia entre 0 e 1, e o grau de achatamento da elipse é tanto maior quanto mais e se aproxima de zero, como se pode ver na imagem abaixo.
No caso da Terra, a excentricidade da sua órbita era de 0,0167086342 em 1 de janeiro de 2000 (varia entre 0 e 0,07 num ciclo de 95 000 anos). Isto mostra até que ponto a primeira imagem desta página estava mais próxima da realidade.
Seja como for, o facto de a órbita do baricentro Terra-Lua ser elíptica faz com que a distância entre a Terra e o Sol tenha um valor mínimo (periélio) e um valor máximo (afélio). Atualmente, essas distâncias são, respetivamente, cerca de 147 100 000 km e 152 100 000 km.
A passagem da Terra pelo periélio ocorre atualmente no início de janeiro, e a passagem pelo afélio no início de julho*. Não, não, não é erro: quando os dias são mais quentes no nosso hemisfério, a distância Terra-Sol está no máximo.
* A Terra passou pelo afélio a 6 de julho de 2007 às 23h52m UTC, ou seja, a 7 de julho às 1h52m TLF (hora legal francesa). A distância Terra-Sol era então de 152 097044,24 km. Fonte: IMCCE.
3) Dissemos no início desta etapa que a revolução da Terra em torno do Sol se fazia em um ano.
É verdade, mas existem vários tipos de ano. O princípio é sempre o mesmo e é simples: escolhe-se como ponto de partida um instante notável da posição da Terra e mede-se o tempo até essa posição voltar.
Com base no que vimos até agora, já podemos definir dois.
a) Ano sideral: é o intervalo de tempo que separa duas passagens da Terra na mesma direção fixa (em relação às estrelas). A sua duração é de 365,2566 dias (ou seja, 365 dias 6h 9m 10s).
No entanto, convém notar que:
- a posição inicial da Terra face às estrelas não é estritamente idêntica à posição ao fim de um ano sideral.
- no que toca às estações, o ano sideral interessa-nos muito pouco. Ainda assim, era preciso mencioná-lo. E esta duração vai servir-nos de referência para outros tipos de ano.
b) Ano anomalístico: desta vez, toma-se como referência a passagem do baricentro Terra-Lua pelo periélio. A duração do ano anomalístico corresponde ao tempo decorrido entre duas passagens. Qual é essa duração?
A primeira resposta que nos ocorre é que seria igual à do ano sideral.
Mas a Terra não está sozinha no sistema solar, e os outros planetas, juntamente com a massa do Sol, fazem com que... a linha dos ápsides rode lentamente no mesmo sentido da rotação da Terra.
A consequência é que o periélio de um ano ocorre mais tarde do que o do ano anterior.
Por isso, o ano anomalístico é mais longo do que o ano sideral. Atualmente, é de 365,2596 dias (ou seja, 365 dias 6h 13m 53s).
Antes de terminar esta etapa da nossa descoberta das estações assinaladas no almanaque do carteiro de 2007, façamos um pequeno bónus que nos vai ser útil mais adiante e de que já falámos na página sobre noções de astronomia:
Segundo a segunda lei de Kepler, a duração entre P1 e P2 é igual à duração entre P3 e P4. Por outras palavras, a Terra desloca-se mais devagar quando está longe do Sol.
No afélio, a sua velocidade é de cerca de 29,3 km/s, contra 30,3 km/s no periélio. Esta variação da velocidade de translação da Terra será importante para definir o ano trópico.
Segunda etapa: rotação e obliquidade
Não é segredo para ninguém: a Terra roda sobre si própria em torno de um eixo (eixo dos polos), no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, de oeste para leste. Também podemos definir um plano equatorial terrestre, que é o plano perpendicular ao eixo dos polos e que passa pelo centro da Terra. Consequentemente, a interseção deste plano com a Terra é o equador terrestre.
O eixo dos polos é perpendicular ao plano da eclíptica? A resposta é NÃO, e isso aproxima-nos da noção de estação astronómica que queremos compreender.
O eixo dos polos (e, portanto, o plano equatorial terrestre) está atualmente inclinado 23°26' (23,45°) em relação ao plano da eclíptica: é a inclinação da eclíptica ou obliquidade.
Se nos lembrarmos da geometria no espaço, sabemos que dois planos que se cruzam formam uma linha. No caso do plano da eclíptica e do plano equatorial terrestre, essa linha é a linha dos equinócios.
Um parêntesis: a precessão
Como foi no calendário dos correios que encontrámos 4 datas correspondentes às estações que estamos a tentar compreender, como esse calendário dura um «ano trópico» e como essa duração tem em conta um fenómeno preciso, temos mesmo de falar um pouco dele. Falemos então da precessão. E deixemos de lado outro fenómeno chamado nutação (ver a página astronomia para o conhecer).
Se olharmos para a imagem acima, vemos a inclinação da eclíptica entre o eixo dos polos e a perpendicular ao plano da eclíptica. O que não vemos é que o primeiro roda em torno da segunda. Não vamos entrar nos detalhes das causas desta rotação lenta (26 000 anos), que se chamam Sol, Lua... Mas vamos registar que essa rotação se faz no sentido dos ponteiros do relógio, que um dia distante a Estrela Polar deixará de estar no prolongamento do eixo dos polos e, sobretudo (pelo menos para nós, no âmbito deste estudo), que a linha dos equinócios roda lentamente no plano da eclíptica. E este movimento chama-se... precessão dos equinócios.
Terceira etapa: as estações «astronómicas»
Antes de avançarmos, deixemos assente de uma vez por todas que o que se segue sobre as «estações» diz respeito ao hemisfério norte e que é preciso inverter as coisas (duração do dia, insolação) no hemisfério sul.
Esqueçamos por um instante, sem grande impacto para o que aqui nos interessa, que o baricentro Terra/Lua não está no centro da Terra e façamos de conta que está. Das observações anteriores, podemos reter que, devido à obliquidade, o plano da eclíptica (em relação ao centro da Terra) e o plano equatorial se cruzam na linha dos equinócios.
Podemos identificar facilmente quatro pontos na elipse que constitui a órbita terrestre:
- os dois primeiros quando a linha dos equinócios passa pelo centro do Sol. Quando o ponto dessa linha situado na superfície terrestre fica entre o centro do Sol e o centro da Terra, é o equinócio de março. Este ponto também se chama ponto vernal (simbolizado pela letra gama), o que tem a vantagem de polarizar a linha dos equinócios. Fala-se também muitas vezes em equinócio da primavera, termo muito ambíguo porque se refere diretamente ao hemisfério norte (ou boreal), quando para as populações do hemisfério sul (ou austral) é o equinócio... de outono.
E, já agora, o equinócio de setembro (ou equinócio de outono) ocorre quando a linha dos equinócios passa pelo centro do Sol no sentido Sol-Centro da Terra-Ponto vernal.
- os outros dois quando o segmento Terra-Sol é perpendicular à linha dos equinócios. Nesse momento, um dos dois polos terrestres fica orientado de forma máxima em relação ao Sol. Se for o polo norte, temos o solstício de junho (ou solstício de verão no hemisfério norte). Se for o polo sul, é o solstício de inverno.
Vamos esquematizar o que acabámos de ver:
Março, junho, setembro, dezembro, diz-vos alguma coisa? Pois, exatamente. São os meses que tínhamos identificado no almanaque dos correios. Portanto, duas datas correspondem aos dois equinócios e duas outras aos dois solstícios.
Resta-nos perceber o que acontece nessas quatro datas e o que acontece entre elas para saber, por um lado, o que são as estações astronómicas e, por outro, o que acontece nessas alturas no nosso calendário.
Quarta etapa: características das estações astronómicas
Característica 1
Olhemos com atenção para as quatro imagens da Terra no esquema acima. Eu sei, é pequeno, mas como a geometria 3D não tem segredos para nós, vamos conseguir. Quem tiver mais dificuldade pode ver de perto na página de astronomia do site.
- Nos equinócios, o eixo dos polos é perpendicular à linha dos equinócios. O efeito da obliquidade fica, portanto, anulado, e a duração do dia em toda a superfície terrestre é igual à da noite. Faz sentido, já que equinócio quer dizer «igual» «noite».
- Nos solstícios, a obliquidade do eixo dos polos está no máximo ou no mínimo (consoante o hemisfério e o solstício). Assim, os dias são os mais curtos (ou os mais longos).
Como tudo isto já está explicado ao pormenor na página de astronomia, vamos concluir dizendo que a primeira característica das estações astronómicas é a duração do dia. Uma característica, aliás, relativamente pouco importante para o nosso tema «estações».
Característica 2
Esta característica é a altura máxima do Sol acima do horizonte, com consequência direta na diferença de insolação ao longo do ano. Toda a gente já reparou: quanto mais alto está o Sol no céu, mais «bate» e mais calor faz.
Chama-se irradiância energética à intensidade de energia que a radiação solar fornece a um ponto da Terra ou da atmosfera terrestre. Mede-se em W/m2.
E, quanto mais baixo estiver o Sol no horizonte, maior é a superfície aquecida pelo mesmo feixe de luz (com a mesma irradiância). E quanto maior for essa superfície... menos calor faz.
Não devemos perder de vista que a duração do dia não é responsável pelos aportes energéticos das diferentes estações. Só a incidência dos raios solares é importante e, por consequência, a altura do Sol, que depende da obliquidade do eixo dos polos.
Como se vê, a distribuição do que podemos chamar «fluxo solar» varia com as estações astronómicas e assemelha-se ao que está representado na imagem seguinte (na alta atmosfera, para não ter em conta fenómenos de albedo e/ou absorção atmosférica).
Para terminar, vamos dividir a Terra (apenas hemisfério norte; para o hemisfério sul as curvas devem ser invertidas) em faixas que tenham em conta a obliquidade e traçar algumas curvas para cada faixa, indicando a duração do dia e a altura do Sol em diferentes períodos do ano, em função dos marcos sazonais fornecidos pelos cálculos astronómicos. Mais uma vez: não esquecer que a duração do dia tem pouca incidência direta nas estações.
A) o corte
O equador está a zero graus de latitude. A 23,27° de latitude (valor que corresponde à obliquidade), encontra-se o Trópico de Câncer para latitude positiva e o Trópico de Capricórnio para latitude negativa.
A 90° de latitude, encontram-se os polos. A 90° - 23,27° = 66,32° de latitude positiva ou negativa, encontram-se, respetivamente, o círculo polar ártico e o círculo polar antártico.
B) as faixas
- EP = equinócio da primavera
- SE = solstício de verão
- EA = equinócio de outono
- SH = solstício de inverno
| N° | Localização | Altura do Sol | Duração do dia |
|---|---|---|---|
| 1 | No polo Norte |
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| 2 | Entre o polo e o Círculo Polar |
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| 3 | No círculo polar ártico |
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| 4 | Entre o círculo polar e o Trópico de Câncer |
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| 5 | No Trópico de Câncer |
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| 6 | Entre o Trópico de Câncer e o equador. Verifica-se que não é no solstício de verão que o Sol atinge a altura máxima. |
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| 7 | No equador. Verifica-se que não é no solstício de verão que o Sol atinge a altura máxima. |
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Vamos comentar estas curvas quando abordarmos a necessidade de indicar as estações no calendário (afinal, este site é dedicado aos calendários) que usamos todos os dias.
Mas antes, vamos colocar uma questão: a duração do ano.
Quinta etapa: quatro estações fazem um ano
A duração de um ciclo de estações composto por dois equinócios e dois solstícios chama-se ano trópico e corresponde a um ano do nosso calendário.
Registe-se, sem insistir muito porque não é relevante para a vida quotidiana, que as estações não têm a mesma duração dentro de um mesmo ano nem de um ano para o outro.
Quanto dura um ano trópico? Estamos obviamente a falar de duração média e não de duração real.
A tentação é dizer que essa duração é a do ano sideral, ou seja, 365,2566 dias. Mas não podemos esquecer o fenómeno da precessão dos equinócios, que faz com que o ano trópico seja, na verdade, mais curto do que o ano sideral: para a época J2000, a sua duração é de 365,2422 dias.
Outro problema: como definir o ano trópico? Dizer que é a duração de um ciclo de 4 estações é um pouco curto.
Leu-se muitas vezes (e ainda se lê, até no site do IMCCE!) que o ano trópico é o intervalo de tempo entre duas passagens sucessivas do Sol no equinócio da primavera (ou equinócio vernal).
Mas, como vimos, a velocidade da Terra, por causa da segunda lei de Kepler, não é uniforme ao longo da órbita. Assim, a duração do ano trópico varia consoante a origem escolhida. Por exemplo,
| Origem | duração do ano |
|---|---|
| Equinócio vernal | 365,2424 |
| Solstício de verão | 365,2416 |
| Equinócio de outono | 365,2421 |
| Solstício de inverno | 365,2427 |
| Média | 365,2422 |
A média dos valores corresponde, de facto, à duração média do ano trópico. Mas não se pode usar uma definição que remete para o equinócio vernal e depois atribuir-lhe o valor médio.
Segundo o IMCCE, a definição de ano trópico médio é «o tempo que a Terra demora a completar uma revolução em torno do Sol num referencial em rotação ligado à linha dos equinócios; é, portanto, o período ligado à diferença entre a longitude média do Sol e a precessão dos equinócios». Euuuhhh... sim... muito claro.
Das «estações» astronómicas às estações climáticas: para acabar com as estações astronómicas
Quer seja no almanaque do carteiro, quer nos vários meios de comunicação (jornais, TV...), apresentam-nos as datas à volta de 21 de março, 21 de junho, 21 de setembro e 21 de dezembro como se fossem datas oficiais e universais das diferentes estações. Com o calendário dos correios debaixo do braço, tentemos explicar a um Nuer de África ou a um Inuit do Ártico que há quatro estações que começam nas datas desse calendário. É duvidoso que não se riam de nós.
A não ser para um apaixonado por astronomia (e nem toda a gente o é, longe disso), porque insistir em fazer-nos acreditar que o verão começa a 21 de junho, o outono a 21 de setembro, etc.? O que existe nessas datas são dois solstícios e dois equinócios.
Vimos que a única característica das «estações» astronómicas é a altura do Sol. É tão redutor como querer conhecer um automóvel estudando apenas o motor. O que nos interessa, a nós que não somos necessariamente fanáticos de astronomia, é conseguir reencontrar, ano após ano, num mesmo lugar, uma certa homogeneidade nas tendências do tempo (temperaturas, pluviosidade, insolação) e considerar que estamos, nesse momento, na primavera, no verão, etc.
Em resumo, a nossa vida diária está mergulhada em estações climáticas, e o que nos impingem são estações astronómicas.
Claro, é mais fácil considerar apenas um dado do fenómeno sazonal (a altura do Sol), esquecendo todos os outros fenómenos induzidos pela atividade solar, como a circulação atmosférica e os contrastes térmicos, o albedo planetário, a absorção atmosférica e muitos outros.
Claro, também é mais fácil «balizar» as estações ao minuto, mas o que impede determinar datas fixas para o início das estações num local (ou país) específico?
Porque é que os nossos calendários são apenas efemérides que nos dão indicações astronómicas como o nascer e o pôr do Sol e da Lua, as datas e horas dos solstícios e dos equinócios?
Está mais do que na hora de devolver às estações climáticas o lugar que merecem e de deixar de nos deixarmos inundar por noções puramente teóricas.
Já que o nosso calendário é omisso neste ponto, digamos duas palavras sobre as estações climáticas, mais próximas de nós e da nossa vida quotidiana.
Segundo a Météo France, «Uma estação é uma parte do ano durante a qual a conjugação de fatores astronómicos e ambientais assegura uma regularidade bem caracterizada das variáveis e dos fenómenos meteorológicos de uma região específica, suscitando aí processos biológicos, económicos e sociais dependentes dessa regularidade.»
E, de forma geral, as estações climáticas distribuem-se assim: primavera (no hemisfério Norte) = março, abril, maio; verão = junho, julho, agosto; outono = setembro, outubro, novembro; inverno = dezembro, janeiro, fevereiro.
Esta divisão, válida nas regiões temperadas, não é necessariamente a melhor noutras latitudes ou em regiões interiores dos continentes. São estas variações que permitem a François Durand-Dastes, professor de geografia na Universidade Paris VII, escrever que «em cada lugar existe uma sucessão de estações, que constitui o seu clima. Estas combinações podem ser classificadas segundo dois critérios: a natureza da oposição principal entre as estações (estações essencialmente térmicas ou essencialmente pluviométricas), e a intensidade dessa oposição.» © Encyclopædia Universalis 2006.
Embora procuremos períodos do ano em que se encontra uma certa homogeneidade nas tendências do tempo, convém dizer duas palavras, sem entrar em pormenor, sobre a classificação dos climas, justamente fundada nas noções de pluviosidade e de temperatura.
A classificação de Köppen
Foi entre 1900 e 1936 que Vladimir Peter Köppen (meteorologista, climatologista e botânico alemão nascido em São Petersburgo a 25 de setembro de 1846 e falecido em Graz, Áustria, a 22 de junho de 1940) elaborou e depois aperfeiçoou o seu sistema de classificação. Após a sua morte, o trabalho foi continuado por Rudolph Geiger (1894-1981), com quem tinha colaborado na redação de um manual de climatologia em cinco volumes (Handbuch der Klimatologie).
Para quem quiser saber mais sobre Vladimir Köppen, é aqui e, para quase tudo sobre o sistema de classificação e os mapas, é aqui.
O sistema usa cinco letras (uma sexta foi acrescentada depois da criação da classificação) para dividir o mundo em cinco (seis) grandes regiões climáticas, com base na precipitação média anual, na precipitação média mensal e nas temperaturas médias anuais. Esta primeira letra indica o tipo de clima.
Cada um destes cinco (seis) tipos é depois dividido em subcategorias, respetivamente baseadas nas temperaturas e nas precipitações.
Uma região do mundo pode, portanto, ser classificada por duas ou três letras. Vejamos um quadro sucinto das combinações possíveis.
Alguns esclarecimentos para compreender o quadro:
- P = precipitações (em fundo verde; os dados relativos à temperatura estão em fundo castanho)
- E = período de 01/04 a 30/09 para o hemisfério norte
- H = período de 01/10 a 31/03 para o hemisfério norte
- Para o hemisfério sul, inverter E e H
- t = média anual das temperaturas (em °C)
- r = média anual do total de precipitação
As combinações:
e um mapa sumário da classificação das regiões do mundo
Da classificação climática às «estações ecológicas»
Sem considerar outros fatores além dos ligados à pluviosidade e às temperaturas, chegamos, com a classificação de Köppen, a uma multiplicidade de combinações possíveis. Se juntarmos outros fatores, como a nebulosidade ou o vento, as coisas complicam-se ainda mais.
Basta, contudo, que uma dessas combinações se reproduza regularmente durante um período suficientemente longo para se tornar, para os habitantes locais, uma «estação» possível.
O que faz com que uma estação possa ser considerada como tal? Esqueçamos por momentos as práticas atuais, que dão mais atenção a eventos sociais do que aos eventos sequenciais da natureza, e vejamos como era (ou é) numa época em que o calendário ainda não existia na forma atual e, mesmo assim, era preciso orientar-se no ano.
Vamos dar apenas alguns exemplos, mas reconheço que seria interessante inventariar as estações no mundo (nomes e número) e sobrepô-las à classificação climática.
Enquanto esse inventário não existe, fiquemos por tentar compreender a razão do número e da existência de alguns ciclos sazonais, aqui e ali, no mundo.
As estações no mundo
Assinalo que a maior parte dos exemplos seguintes vem do livro de Martin P. Nilsson, Primitive time-reckoning, que, embora date de 1920, é uma mina de informação.
Estamos agora habituados a estações longas (três meses) e regulares, que uma visão puramente astronómica acabou por impor. Mas existiram, e ainda existem, muitas «estações curtas». São de enorme importância, porque foram elas que permitiram, na ausência de calendário como o conhecemos, orientar-se no tempo tanto para as atividades quotidianas (agricultura, caça, pesca...) como para as relações sociais (data de nascimento, festas...).
Os índios Hidatsa (parte superior do rio Missouri) dão o mesmo nome a esses períodos curtos e aos períodos sazonais mais longos: kadu.
Quem leu a página dedicada ao calendário de Hesíodo não deve estranhar a existência desses períodos mais ou menos curtos e diretamente ligados à natureza. Lembremo-nos, por exemplo, do tempo da sementeira quando se ouve o grito da garça. Lembremo-nos também de que certas tarefas agrícolas têm como referência fenómenos astronómicos, como as vindimas quando Sirius e Órion estão no ponto mais alto do céu.
Estas formas de marcar o tempo a partir de fenómenos naturais continuam vivas no meio rural atual. Por exemplo, na Escânia (extremo sul da Suécia), a cevada semeia-se quando o espinheiro-alvar está em flor. Os Esquimós, por seu lado, dizem que determinada pessoa nasceu quando se caçavam focas ou quando eclodiam os ovos de certa ave.
Claro que nem todos esses fenómenos naturais vão dar origem a uma estação, mas contribuem muito para isso se se repetirem regularmente, se tiverem duração relativamente longa, se estiverem ligados a condições climáticas marcantes e se constituírem fenómenos fundamentais que, por uma razão ou outra, chamem a atenção dos indivíduos envolvidos. Assim, por vezes, contribuem para dividir «estações longas» em períodos mais curtos.
Como escreve Nilsson, «os fenómenos naturais a partir dos quais as estações são definidas e nomeadas variam com a latitude, a natureza do país e o modo de vida» (ex.: povos que vivem da agricultura, da caça ou da pastorícia).
Se tivéssemos de contar o número de estações «de base», sem dúvida que o dois venceria. Estação quente, estação fria. Estação seca (ou de monção seca), estação húmida (ou de monção húmida). E até, por vezes, estação das rajadas de vento e estação calma, como nas Ilhas Marshall.
Naturalmente, estes períodos fundamentais estão sujeitos a flutuações e dão origem a períodos de transição. Além disso, pode haver vários períodos idênticos (de chuva, por exemplo) que é preciso identificar.
Combinando todas estas características possíveis, chega-se a uma multiplicidade de estações ecológicas, que pode ir de duas a... pelo menos nove. Vejamos algumas.
Duas estações
- Indonésia: monção seca de maio a outubro e monção húmida de novembro a abril.
- Povo Nuer (sul do Sudão): estação das chuvas de março a setembro e estação seca de outubro a fevereiro.
- Povos Commanche, Hopi, Chocktaw.
- Walabunnba (aborígenes do Território do Norte da Austrália): Wantangka (estação quente de outubro ao fim de março) e Yurluurrp (estação fria de abril ao fim de setembro).
Três estações
- Gregos da época arcaica e anterior: o outono não era conhecido e seria devido a Homero.
- Egito antigo: estações de quatro meses. Ver a página dedicada ao calendário egípcio.
- Tasmânia (ilha a sudeste da Austrália): Wegtellanyta (dezembro ao fim de abril), Tunna (início de maio ao fim de agosto), Pawenya peena (início de setembro ao fim de novembro).
Quatro estações
Mesmo com o mesmo número das estações astronómicas, diferenciam-se pelo início e pela duração.
- Calendário «oficial» australiano: estações de três meses, início do verão em dezembro (estamos no hemisfério sul), início do outono em março, início do inverno em junho e início da primavera em setembro.
- Dinamarca: primavera = 1 de março; verão = 1 de junho; outono = 1 de setembro; inverno = 1 de dezembro.
- Tradição britânica: primavera = 2 de fevereiro (Candlemas); verão = 1 de maio (May Day); outono = 1 de agosto (Lammas); inverno = 1 de novembro (All Hallows).
Cinco estações
- Yanyuwa (aborígenes da Austrália - Território do Norte): Wunthurru (primeiro período de chuvas, meses 01 e 02), Lhabayi (estação das chuvas propriamente dita, meses 03-04-05), Rra-mardu (estação seca, meses 06-07), Ngardaru (estação dos grandes calores, meses 08_09) e Na-yinarramba (estação quente e húmida, meses 10-11-12).
- Minang (aborígenes da Austrália Ocidental): Beruc (meses 12-01); Meertilluc (meses 02-03); Pourner (meses 04-05); Mawkur (meses 06-07); Meerningal (meses 09-10-11).
Seis estações
- Jawoyn (aborígenes da Austrália - Território do Norte): Jiorrk (meses 01-02); Bungarung (meses 03-04); Jungalk (mês 05); Malaparr (meses 06-07-08); Worrwopmi (meses 09-10); Wakaringding (meses 11-12)
- Índia: estações de 2 meses, Sisira (inverno); Vasanta (primavera); Grisma (verão); Varsa (chuvas); Sarat (outono); Hermana (frio).
- Yukaghir (povo da Sibéria): puge (verão); nade (outono); cieje (inverno); pore (primeira primavera); cille (segunda primavera); conjile (terceira primavera).
Oito estações
Inuits (regiões árticas da Sibéria e da América do Norte. Ver a página dedicada ao seu calendário para mais informações): Ukiuq (inverno); Upirngaksajaaq (a caminho da primeira primavera); Upirngaksaaq (a primeira primavera); Upirngaaq (primavera); Aujaq (verão); Ukiatsajaaq (a caminho do outono); Ukiaksaaq (outono).
Nove estações
Tribo Shilluk (Sudão): yey jeria (colheita do dura vermelho); anwoch (fim da colheita); agwero (colheita do dura branco); wudo (continuação da colheita); leu (estação quente); dodin (sem trabalho nos campos); dokot (início das chuvas); shwer (plantação de dura vermelho); doria (início da colheita). Heuuu... o que é o dura??
Em jeito de conclusão
Então, disse «quatro estações»? Cyrano teria respondido: «Ah! não! Isso é um pouco curto, meu jovem!»