Em jeito de introdução
Em 1884, Camille Flammarion organiza no jornal L'Astronomie um concurso cujo objetivo é apresentar uma reforma do calendário gregoriano que o possa tornar perpétuo.
Graças ao donativo de um mecenas anónimo, este concurso é dotado com um prémio de 5 000 francos.
Seguem-se, no resto desta página, os textos publicados em L'Astronomie, que permitem acompanhar o historial deste projeto de reforma, que acabaria por não ter continuidade.
Nicolas Camille Flammarion, mais conhecido como Camille Flammarion, nascido a 26 de fevereiro de 1842 em Montigny-le-Roi (Haute-Marne) e falecido a 3 de junho de 1925 em Juvisy-sur-Orge, foi um astrónomo francês. Foi membro muito ativo de várias sociedades eruditas e associações de divulgação das ciências positivas. Flammarion acrescentou notoriedade ao seu nome também pelos aspetos místicos e espíritas de algumas das suas obras. As suas descobertas científicas colocaram-no e mantêm-no ainda hoje na linha da frente dos grandes divulgadores. (excerto da Wikipédia)
Os textos publicados
PROJETO DE REFORMA DO CALENDÁRIO.
ORIGEM DOS CONCURSOS ABERTOS PARA ESTA REFORMA.
MEMÓRIAS APRESENTADAS. TRANSMISSÃO DE PODERES À SOCIEDADE ASTRONÓMICA DE FRANÇA
RELATÓRIO GERAL E PRÉMIOS ATRIBUÍDOS.
I
ABERTURA DO CONCURSO
(Excerto de L'Astronomie, setembro de 1884).
Há vários anos, mas sobretudo desde a fundação da nossa Revista de Astronomia Popular, recebemos de todas as partes do mundo, e em especial da América, um grande número de pedidos e projetos de reforma do Calendário. Absorvidos por trabalhos incessantes, não tínhamos podido dar até aqui a esta matéria a atenção que merece. Mas hoje o interesse e a urgência desta reforma parecem-nos tão incontestáveis que não hesitamos em abrir-lhe as colunas da nossa Revista. Numa época de progresso, tão abundante quanto rápido em todos os domínios, é inconcebível que ainda não se tenha chegado a acordo, sobretudo entre os povos mais civilizados da Europa, da Ásia e do Novo Mundo, para melhorar, aperfeiçoar e unificar os Calendários, todos eles, sem exceção, muito defeituosos. Fazemos hoje um apelo aos sábios de todos os países e a todos os Governos, e esperamos que este apelo seja ouvido, como o que aqui mesmo foi feito, há dois anos, para a adoção urgente de um Meridiano universal. Estes dois progressos completam-se mutuamente. Sem dúvida, o homem foi sempre obrigado a contar com o Céu para a regulação do tempo; mas o Sol e a Lua, que regem os nossos Calendários, devem servir-nos e não escravizar-nos. Não está na hora de o espírito humano tomar, astronomicamente e geograficamente, posse do nosso planeta, em vez de se deixar conduzir cegamente por ele?
Quanto a nós, a partir deste dia, manteremos bem alto e firme a bandeira da Reforma do Calendário.
A necessidade de uma reforma definitiva é hoje compreendida por todos. Importa examinar a questão sob as suas diferentes perspetivas e introduzir nos Calendários atualmente em uso as correções que os possam transformar num Calendário geral, perpétuo e tão perfeito quanto possível. Este grande tema, de interesse tão universal, pode ser objeto de concurso, e esse é, sem dúvida, o melhor meio de ver expostas as dificuldades práticas de uma reforma e as condições em que um projeto deste tipo poderia ser adotado sem grande abalo nos usos estabelecidos.
Acabamos de receber de um homem muito competente, que nos pede para não divulgar nem o seu nome nem o seu país, a quantia de CINCO MIL FRANCOS, destinada a premiar o melhor projeto de Reforma do Calendário civil.
A redação de L'Astronomie abre, portanto, um concurso a partir de hoje, na esperança de que os sábios que se lançarem à tarefa deem à luz um projeto simples, definitivo e aplicável a todos os povos.
CAMILLE FLAMMARION.
II
EXPOSIÇÃO GERAL DA QUESTÃO
(Excerto de L'Astronomie, novembro de 1884).
EXMO. SR. DIRETOR,
Há muito tempo que me ocupava das várias questões ligadas à reforma do Calendário, mas apenas como amador e sem a menor esperança de algum dia poder aproveitar o meu trabalho. Esperava, como os judeus esperam o Messias, que um homem de ciência, alguém com a autoridade que o senhor possui pelos seus numerosos trabalhos e cujos escritos se difundem pelas cinco partes do mundo, tomasse a iniciativa desta reforma e erguesse o estandarte.
Li, por isso, com uma alegria que não consigo disfarçar, o apelo que acaba de dirigir a todos os amigos do progresso em favor da reforma do Calendário. Muitos outros, mais competentes do que eu, apressar-se-ão certamente a responder-lhe. Quanto a mim, limitei-me a remexer os meus arquivos, onde tudo dormia no pó, e a tirar antigos cadernos em que tinha reunido vários documentos sobre a questão, recolhidos em autores antigos e modernos, ingleses, russos, franceses, alemães e italianos, que trataram o mesmo tema. Fiz deles um resumo muito sucinto, considerando aliás a reforma sob um único ponto de vista, o prático, que me parece o mais importante e o mais facilmente aceitável; e tenho a honra de lho enviar, esperando que lhe queira dar bom acolhimento e lhe conceder lugar na sua Revista.
Queira aceitar, peço-lhe, Exmo. Sr. Diretor, a expressão da minha gratidão e da minha mais elevada consideração.
§ 1.º - Resumo histórico.
O Calendário civil (ou Almanaque) não é mais do que o estado oficial da divisão do tempo, promulgado pela autoridade civil, regulando o ano, os meses, os dias, as horas, etc.
Desde a origem do mundo, os homens compreenderam a necessidade de regular por leis a divisão do tempo e a nomenclatura das suas diversas partes. Um Calendário pareceu-lhes tão útil como a moeda, os pesos e as medidas. Por isso, todos os povos, mesmo os mais antigos, tiveram o seu Calendário. Aperfeiçoar ou reformar o Almanaque foi, em todos os tempos, preocupação dos legisladores. Numa, Júlio César, Gregório XIII são os nomes mais célebres na história desta reforma.
A aspiração incessante de todos os séculos a um Calendário perfeito, os esforços constantes de todos os povos para o aperfeiçoar, e o incómodo que sempre sentiram e ainda sentem devido às suas imperfeições, mostram bem que o Calendário não é apenas uma obra de arte e de ciência, um objeto de luxo ou uma invenção simplesmente útil e cómoda, mas uma necessidade real para o homem que quer viver em sociedade com os seus semelhantes, um apoio indispensável para orientar os seus trabalhos e os seus negócios, para as suas relações sociais, para a sua história, para a celebração das suas festas, religiosas ou nacionais. O Calendário é, como a geografia, e talvez ainda mais, o olho da história: interessa indistintamente a todos os homens, e todos o consultam sem cessar, porque é necessário todos os dias e a toda a gente.
O Calendário é, de certo modo, um relógio que indica com ordem as divisões do ano, o número e a sequência dos dias, dos meses e das semanas, recordando uma multidão de memórias e dando informações úteis no momento oportuno. Ora, da mesma forma que um relógio que indica o número e a sequência das horas e dos minutos é tanto mais útil e perfeito quanto mais o faz sempre do mesmo modo e sem variações, com divisões simples, fáceis e sempre semelhantes, também sempre se entendeu que a perfeição do Calendário, do ponto de vista prático, consiste sobretudo na regularidade e na uniformidade de todas as suas disposições, de modo que quanto menos mudanças sofrer de um ano para o outro, mais útil e cómodo será.
O principal mérito de um Calendário, dizia Fabre d'Églantine no seu relatório à Convenção, é apresentar um grande caráter de simplicidade, divisões naturais, constantes e fáceis de memorizar.
Foi para esse objetivo que sempre tenderam os esforços dos sábios e dos legisladores que se ocuparam de elaborar almanaques ou de os reformar. A natureza, é verdade, foi o primeiro guia do homem na divisão do tempo e forneceu ela própria os primeiros e principais elementos do Calendário. Dois astros, mais particularmente ligados à Terra, mediam o tempo com grande regularidade, indicando os dias e as noites, os meses, as estações e os anos; infelizmente, esses dois relógios celestes não estavam de acordo em tudo e, além disso, mediam o tempo de modo muito incompleto. Restava, portanto, muito por fazer aos sábios e aos legisladores para escrever na lei o Calendário da natureza e completá-lo.
Aplicaram-se primeiro a regular a duração do ano civil e a colocá-lo, tanto quanto possível, em harmonia com o ano celeste. Os historiadores supõem que se tentaram durante algum tempo anos de um dia, depois de um mês, depois de uma estação; mas depressa se adotou uma duração mais conforme à revolução anual do Sol ou da Lua, e assim houve, aproximadamente, anos de 354, 360, 365 dias, com uma variedade infinita de dias complementares cuja fixação foi durante muito tempo o desespero dos astrónomos.
Aplicaram-se depois a fixar a época em que o ano devia começar, e essa época variou tanto que quase não há mês do ano que, durante algum tempo, não tenha tido a honra de ser o primeiro. Só no reinado de Carlos IX, em 1564, é que o mês de janeiro ocupou definitivamente o primeiro lugar, que, apesar de legítimos protestos, soube conservar até hoje.
Os legisladores tiveram ainda de escolher entre o ano lunar e o ano solar, ou de os conciliar por concessões mútuas. A luta foi longa e não terminou.
Compreenderam igualmente a necessidade de dividir o ano em unidades suficientemente grandes para servirem de pontos de repouso ao espírito nessa longa série de 365 pequenas unidades a que chamamos dias. Após uma breve hesitação entre as estações e os meses, a divisão por meses, por parecer mais cómoda, foi geralmente adotada.
Uma vez admitidos os meses, foi preciso fixar o número de dias que os comporiam e estabelecer entre eles certo equilíbrio. O problema era sem dúvida difícil de resolver, visto que ainda hoje não se conseguiu fazê-lo de maneira plenamente satisfatória.
O próprio mês pareceu depois uma unidade demasiado grande; sentiu-se a necessidade de outras unidades intermédias e, conforme os tempos e os países, houve idos, nonas e calendas, semanas e décadas. Mas a semana, embora pouco cómoda, triunfou quase por toda a parte por razões alheias à Astronomia.
Por fim, restava regular, de forma simples e cómoda, o início e o fim do dia civil, o número e a duração das horas. Durante muito tempo regulou-se tudo pelo Sol; e, conforme a hora a que lhe apetecia nascer ou pôr-se, os dias começavam e terminavam mais cedo ou mais tarde; e também, segundo as estações e os meses, havia horas ora mais curtas, ora mais longas. Acabou-se, no entanto, por compreender todo o incómodo dessas disposições, e decidiu-se fixar de forma invariável o começo e o fim do dia, da meia-noite à meia-noite, dividido em 24 horas sempre iguais de 60 minutos, e os minutos em 60 segundos.
Só depois de um número infinito de tentativas, tateamentos, experiências e progressos sucessivos se conseguiu regular a divisão do tempo e coordenar as suas diversas partes de forma um pouco menos irregular e um pouco mais conforme à natureza e às nossas necessidades. Assim, o nosso Calendário, que não é senão o Calendário Juliano, reformado em 1582 por Gregório XIII, é de certo modo a obra de todos os séculos, o resumo de todos os trabalhos dos astrónomos antigos e modernos e das reformas dos maiores legisladores, e com toda a razão se tornou o Calendário de quase todos os povos civilizados. Mas, embora mais perfeito do que a maioria dos seus predecessores, o nosso Calendário ainda deixa muito a desejar e precisa, por sua vez, de uma reforma que o torne mais simples e mais regular, mais útil e sobretudo menos incómodo.
§ 2. - Defeito principal do nosso Calendário.
Entre todos os defeitos que se podem apontar ao nosso Calendário, e talvez até aos Calendários de todos os povos, há um em particular que quero assinalar, precisamente porque os autores, os escritores e os publicistas que, sobretudo na passagem de ano, não lhe poupam críticas e censuras, parecem, com poucas exceções, não o ter notado, ou pelo menos não terem lavrado contra ele um verdadeiro libelo de acusação; e, no entanto, é a crítica mais justa e mais grave que se lhe pode fazer, e que formulamos nestes termos: com o Calendário atual, os anos seguem-se e não se parecem.
Com efeito, o Calendário do ano que começa é totalmente diferente do Calendário do ano que termina. Os 365 dias, mudando todos os anos de posição, deixam de coincidir com os mesmos dias da semana. Assim, o dia 1 de janeiro, que em 1884 foi uma terça-feira, será uma quinta-feira em 1885, uma sexta-feira em 1886, um sábado em 1887, etc., etc., e todos os outros dias do ano até 31 de dezembro sofrerão a mesma mudança; de modo que se pode dizer que o nosso Calendário só é constante na sua perpétua inconstância. É isso que nos obriga a editar todos os anos um novo almanaque, pois os dos anos anteriores deixam de servir.
Ora, tal desordem é evidentemente contrária ao fim essencial de todo o Calendário e aos princípios que devem regular todas as suas disposições. Contraria sem cessar os nossos hábitos por vicissitudes e mudanças contínuas, introduz confusão em todos os nossos assuntos, impede-nos de organizar com ordem o nosso tempo, as nossas ocupações, as nossas relações sociais, e perturba a memória com contradições permanentes e anacronismos contínuos. Também por isso aquilo que sempre mais se admirou no Calendário, aliás tão pouco universal e tão impraticável, da República Francesa de 1793, foi o facto de nele existir tal simetria no conjunto e no detalhe das disposições, que todos os anos se pareciam, todos os Calendários eram uniformes, e os dias do mês correspondiam constantemente aos mesmos dias da década. E, desse ponto de vista, todos reconhecem que o Calendário republicano tinha vantagens incontestáveis, resultantes da sua admirável regularidade.
A Reforma que propomos consiste, portanto, principalmente, em dar ao Calendário a simplicidade e, sobretudo, a uniformidade de que carece. E, para isso, formulamos o voto de que todos os anos, ao sucederem-se, se pareçam o mais possível; que o primeiro dia do ano, por exemplo, seja sempre um domingo, o dia 2 uma segunda-feira e assim sucessivamente até 31 de dezembro, de tal maneira que os 365 dias do ano caiam invariavelmente nos mesmos dias da semana dos anos anteriores.
Mas como realizar essa reforma?
Para isso, procuremos antes de mais a origem do mal, qual é a causa do defeito que se deseja ver desaparecer. A causa é esta: se o ano civil tivesse exatamente 364 dias, que divididos por 7 perfazem precisamente 52 semanas inteiras, todos os anos se repetiriam sem cessar com perfeita uniformidade. Infelizmente, Júlio César, para fazer coincidir o ano civil com o ano celeste, compôs-no com 365 dias e, por vezes, nos anos bissextos, com 366, o que dá 52 semanas mais um ou dois dias.
Ora, é precisamente esse 365.º dia que cria toda a dificuldade: é ele que rompe toda a harmonia que existiria com 364 dias, é ele que impede a uniformidade tão desejável na sucessão dos anos, é ele que, ao fazer recuar uma posição o primeiro dia de cada novo ano, obriga também a recuar e a mudar de lugar todos os outros dias, perpetuando assim a desordem.
Que fazer, então, com esse 365.º dia? Não sou nem Josué para parar o Sol no fim do 364.º dia e fazer começar imediatamente um novo ano, nem Apolo para reter os meus corcéis, e tenho necessariamente de aceitar as leis da natureza que dão ao ano 365 dias. Ora, se conservar esse 365.º dia tal como está no nosso Calendário, ele continuará a ser sempre causa de embaraço e perturbação; se o suprimir totalmente, essa supressão de um dia em cada ano depressa desorganizará a harmonia que deve existir, pelo menos em certa medida, entre o ano civil e os movimentos celestes.
O problema parece, à primeira vista, difícil, diríamos quase impossível de resolver. No entanto, a solução talvez seja mais simples do que parece. Não se poderia, com efeito, conservando o 365.º dia, impedir que fosse uma causa de desordem e perturbação? Para isso bastaria, a exemplo dos antigos egípcios, fazer do 365.º dia um dia complementar que não alterasse em nada a ordem dos dias do ano seguinte. Ou então, se se recusasse admitir um dia complementar que parecesse quebrar a cadeia dos períodos sagrados de sete dias, não se poderiam adotar as seguintes disposições: os anos seriam de 364 dias, ou 52 semanas inteiras, sem qualquer dia complementar; mas, em cada ano, reservar-se-ia o 365.º dia e também o 366.º dos anos bissextos para, em épocas fixadas antecipadamente pelos astrónomos e para séculos, formar uma semana complementar inteira.
Por exemplo
O ano de 1884 (bissexto) teria 2 dias reservados. » 1885 » 1 » » » 1886 » 1 » » » 1887 » 1 » » » 1888 (bissexto) » 2 » » No total 7 dias reservados.
O ano de 1888 teria, portanto, uma semana complementar. Essa semana, que os astrónomos colocariam da forma mais cómoda e conveniente, reapareceria assim aproximadamente de cinco em cinco ou de seis em seis anos.
De resto, far-se-ia aqui, para esse dia infeliz (o 365.º), apenas o que o nosso Calendário sempre fez, desde Júlio César, com as seis horas excedentárias que ficam no fim de cada ano; os astrónomos dispensam-nas todos os anos, apesar das exigências do Sol, e esperam quatro anos para que essas seis horas acumuladas formem um dia inteiro, que então colocam como dia suplementar no fim de fevereiro; pois, sem isso, o ano começaria ora à meia-noite, ora às 6 horas, ora ao meio-dia, etc.; cada hora teria a sua vez, e a mesma desordem repetir-se-ia em todos os dias do ano. É, portanto, com sabedoria, com razão e num interesse essencial de ordem e regularidade que esperam, como acabamos de dizer, que essas seis horas acumuladas formem um dia inteiro, que colocam de quatro em quatro anos no fim de fevereiro. Ora, o que aqui pedimos é que nos concedam igualmente, todos os anos, o benefício de reservar o 365.º dia e o 366.º dos anos bissextos, para só os considerar quando puderem formar com eles uma semana inteira.
No entanto, por mais simples que seja este sistema, não o propomos de modo exclusivo; estamos convencidos de que a Ciência poderá descobrir outros ainda mais simples e que merecerão, sem dúvida, preferência.
§ 3. - Vantagens da reforma proposta.
Com estas disposições constantes e invariáveis, teríamos enfim um Calendário verdadeiramente perpétuo, imutável; deixaria de ser necessário mudá-lo a cada novo ano, e o mesmo Calendário servir-nos-ia indefinidamente durante toda a nossa existência, do nascimento à morte, exatamente como o mesmo relógio que nos serve todos os dias da vida e continua a servir os nossos descendentes, de tal forma que, enquanto hoje só temos e só podemos ter Calendários de papel, poder-se-ia gravar o novo Calendário perpétuo em mármore, bronze, ouro, prata ou marfim, e colocá-lo na fachada de todos os monumentos públicos, porque, daqui a mil anos e para além disso, continuaria a ser o mesmo.
Esta reforma seria tanto mais facilmente aceite por todos quanto, ao contrário de quase todas as reformas, não contrariaria em nada os usos antigos, a rotina e os velhos hábitos; mal se notaria a mudança, porque seria menos uma mudança do que o fim de todas as mudanças que hoje somos obrigados a suportar em cada novo ano; além disso, compreender-se-ia imediatamente a sua utilidade real e todas as suas vantagens, ao mesmo tempo que a sua rara simplicidade. Libertado de todos os embaraços e das imperfeições do Calendário atual, o novo Calendário responderia a essa necessidade, hoje mais sentida do que nunca, de ordem, economia e estabilidade na organização do tempo.
Com o novo Calendário, cada um poderia, antecipadamente e para uma longa série de anos, regular o uso do seu tempo de forma totalmente constante, uniforme e regular e, por isso mesmo, mais útil.
Esta imensa vantagem seria especialmente apreciada:
- 1.º Nas administrações públicas e privadas, onde se é obrigado a reorganizar todos os anos uma infinidade de disposições, quase dia a dia, porque as variações perpétuas do Calendário não permitem regulá-las com antecedência e de uma vez por todas;
- 2.º Nos colégios, nas escolas e em todos os estabelecimentos de ensino público, onde a ordem é tão necessária e onde os homens mais previdentes constatam sempre que, por culpa do Calendário, ainda se esqueceram de prever e regular muitas coisas;
- 3.º Na indústria, nos negócios comerciais, na contabilidade e na organização dos dias de trabalho, etc;
- 4.º Nos caminhos de ferro, para o estado comparativo das receitas das semanas chamadas correspondentes, mas que, na realidade, tão mal correspondem devido ao Calendário;
- 5.º O mesmo aconteceria com a organização, tão importante, dos dias de feira e de mercado; enquanto hoje, quer se fixe um dia determinado da semana, quer se tome por referência um dia do mês, as oscilações do Calendário fazem surgir uma multidão de obstáculos que contrariam tudo e forçam a adiar, antecipar ou omitir por completo o que se pretendia; sem falar dos cálculos e cômputos que é preciso fazer constantemente e que causam uma multidão de erros e esquecimentos;
- 6.º Enfim, num número infinito de circunstâncias em que diariamente nos vemos contrariados pela falta de concordância, de um ano para o outro, entre os dias do mês e os dias da semana;
- 7.º Não esqueçamos as associações que devem realizar as suas assembleias em épocas regulares e que então poderiam escolher dias e datas invariáveis;
- 8.º O mesmo se aplicaria às famílias que gostam de se reunir em dias fixados e determinados com antecedência;
- 9.º E aos aniversários, ao culto da memória, que se gostaria de celebrar, no dia do mês em que os acontecimentos ocorreram, também no mesmo dia da semana; ora, com o Calendário atual, essa feliz coincidência quase nunca acontece; poderiam citar-se muitos exemplos, que aliás se repetem milhões de vezes por ano para milhões de pessoas;
- 10.º Esta reforma facilitaria também o ensino da história, dando às efemérides, para acontecimentos públicos ou familiares, uma marca de exatidão cronológica que até aqui lhes faltou, e fazendo desaparecer o anacronismo prático que se comete sem querer ao recordar, por exemplo numa segunda-feira, um acontecimento que ocorreu noutro dia da semana;
- 11.º Acrescentemos, para concluir, que as várias religiões e cultos, cujas festas e cerimónias são todos os anos perturbadas pela inconstância do Calendário, ganhariam com isso em todos os aspetos.
Mas as vantagens da Reforma proposta são demasiado evidentes e demasiado incontestáveis para que seja necessário alongar-nos em mais detalhes. Deixamos, pois, à ciência, à história, à religião, à agricultura, à indústria, ao comércio e às artes, para quem o tempo é sempre e em toda a parte um elemento necessário, o cuidado de proclamar os seus benefícios.
§ 4 - Observações diversas.
Não conseguimos descobrir, do ponto de vista da Ciência, objeção séria contra este projeto de reforma. Com efeito, o equilíbrio permanece o mesmo ou restabelece-se rapidamente entre o ano civil e o ano solar, e temos em conta com a mesma exatidão que antes os dias, as horas, os minutos e os segundos. Se, ainda assim, se quisesse censurar seriamente a este projeto uma diferença passageira de alguns dias em tal ou tal ano, em tal ou tal estação, eu responderia que essa diferença não tem importância em si mesma, passaria totalmente despercebida, não causaria qualquer perturbação nos nossos hábitos e, mesmo que fosse de maior número de dias, não haveria motivo para preocupação; que a nossa intenção, aliás, foi fazer um Calendário de uso corrente e cómodo, mais do que um Calendário astronómico, um Calendário para uso de todos e não para uso do Observatório; enfim, que a perfeição do Calendário civil não consiste precisamente na sua maior conformidade com o Sol, como o próprio Calendário gregoriano prova, contendo uma multidão de disposições pouco conformes à natureza, mas adotadas apenas por serem mais cómodas.
Perguntar-se-á sem dúvida como foi possível esperar até hoje para realizar uma reforma que parece tão simples e tão útil. Esse facto, por si só, poderia criar um preconceito desfavorável ao projeto, e devíamos procurar compreendê-lo. Ora, sem nos determos aqui nessas razões gerais de que o progresso é sempre lento em quase tudo, de que precisamente as reformas mais simples e mais úteis são as que, em regra, mais tardam, e de que os séculos passados, ao decorrerem e pagarem sucessivamente o seu tributo ao progresso, parecem querer sempre deixar algo a fazer aos séculos vindouros; sem nos determos nessas considerações gerais, pareceu-nos, à luz da história, que há muito tempo quase se tinha esquecido o objetivo principal do Calendário; pensava-se apenas em colocá-lo em perfeito acordo com o ano solar e, quando Gregório XIII realizou esse desejo da ciência, acreditou-se que tudo estava concluído e que, depois dessa reforma, já nada havia para reformar; assim, desde essa época, a maior parte dos autores limita-se a assinalar, de passagem, os defeitos do Calendário gregoriano, sem porém promover a sua reforma, e os legisladores também não parecem ter-se ocupado seriamente do assunto. Excetuemos, no entanto, a Convenção (França, 1793), que compreendeu a necessidade de um novo almanaque. Infelizmente, misturou a algumas disposições sábias e úteis outras absurdas e ímpias, e o Calendário republicano teve apenas alguns anos de existência.
Quanto ao nosso tempo, os homens de Ciência, reconheço-o, mal parecem dar-se conta de que ainda têm uma grande tarefa a cumprir; mas, no dia em que forem consultados sobre este ponto, não duvido de que descobrirão de imediato todas as imperfeições do Calendário civil, indicarão os meios mais fáceis de as corrigir e proclamarão, muito melhor do que o puderam fazer alguns raros escritores, a necessidade e as vantagens de uma reforma.
Tem, portanto, mil vezes razão, senhor Diretor, ao querer antes de tudo submeter esta importante questão a um Congresso internacional, que convoque os economistas mais habilitados, os sábios de todos os países e os astrónomos mais distintos; e, quando a Ciência tiver feito ouvir os seus oráculos, a consciência dos legisladores ficará perfeitamente esclarecida, e eles poderão, depois desse número infinito de ensaios feitos ao longo de tantos séculos e por tantos génios, poderão, com pleno conhecimento de causa, realizar a maior, mais lógica, mais útil e ao mesmo tempo a mais simples de todas as reformas, e dar a todos os habitantes do nosso planeta o mais perfeito de todos os Calendários, que se tornaria necessariamente, um dia, um Calendário universal, o Calendário de todos os povos.
A. B. C.
III
OBSERVAÇÕES SOBRE A REFORMA DO CALENDÁRIO
(Excerto de L'Astronomie, agosto de 1885).
EXMO. SR. DIRETOR,
Li com o mais vivo interesse, na Revista astronómica que o senhor dirige, dois artigos sobre uma das questões mais relevantes do ponto de vista prático, e refiro-me à reforma do Calendário civil.
Numa primeira comunicação, datada de setembro último, o próprio senhor, Exmo. Sr. Diretor, apelava a todas as boas vontades para acelerar a solução de um problema que considera, e muito justamente, essencial do ponto de vista das relações sociais de toda a natureza, e sobretudo no que toca às relações entre pessoas de nacionalidades diferentes.
O seu apelo foi ouvido e, no número de novembro de L'Astronomie, acompanhei com grande satisfação os progressos da grande campanha científica de que o senhor se fez instigador.
Não me cabe conceder ao autor anónimo do notável artigo a que me refiro todos os elogios que merece e que certamente obterá do público e do mundo erudito. Também não pretendo regressar aos curiosos pormenores históricos contidos nesse interessante Memorial. Mas espero, Exmo. Sr. Diretor, que me permita trazer a minha modesta pedra ao edifício de que o senhor é o arquiteto, e que queira bem conceder hospitalidade, nas suas colunas, às observações que se seguem.
Queira aceitar, etc...
JULES BONJEAN,
Doutor em Direito, Advogado no Tribunal de Apelação. - Paris
§ 1.º - Bases essenciais de um Calendário normal.
Se analisarmos de modo geral os diferentes sistemas sucessivamente adotados, tanto na Antiguidade como nos tempos modernos, para regular o cômputo do tempo, verificamos, não sem espanto, que os reformadores mais ilustres obtiveram apenas resultados relativamente muito imperfeitos. E, no entanto, à primeira vista parece que nada é mais fácil para um legislador, dispondo de poder soberano, do que impor às populações regras absolutamente metódicas e perfeitamente satisfatórias em tudo o que respeita ao Calendário.
A que se devem, então, essas dificuldades tão consideráveis que os maiores génios de todas as épocas não puderam superar por completo? Porque nunca se conseguiu, até hoje, estabelecer um sistema de cômputo do tempo que satisfizesse todos os interesses e todas as exigências?
A causa dessas mudanças perpétuas e desses constantes insucessos é, em nosso entender, fácil de identificar: é a multiplicidade dos pontos de vista em que o legislador pode e deve colocar-se para regular as diversas divisões do tempo. E, de facto, ele deve ter simultaneamente em conta: 1.º a duração das principais evoluções astronómicas; 2.º os costumes e até os preconceitos enraizados da população; 3.º e, por fim e sobretudo, as necessidades da vida prática.
Ora, na maioria dos casos, é impossível satisfazer ao mesmo tempo essas diferentes ordens de ideias, e o criador de um novo Calendário vê-se muitas vezes obrigado a optar entre considerações igualmente respeitáveis e, no entanto, opostas. Segue-se necessariamente que, nesse conflito de interesses de natureza diversa, um ponto de vista é quase sempre sacrificado a outro; o que explica as lacunas e as imperfeições que fatalmente se encontram em todos os Calendários.
Perante esta impossibilidade de chegar a um resultado absolutamente satisfatório sob todos os aspetos, qual deve ser a linha de conduta do reformador? Deve ele encerrar-se exclusivamente no domínio da Ciência pura, tomando em consideração apenas as evoluções dos planetas, isto é, apenas o ponto de vista astronómico? Deve, pelo contrário, imitando nisso os pontífices romanos, deixar-se influenciar pelo respeito da tradição, ao ponto de manter processos de cômputo rejeitados ao mesmo tempo pela Ciência e pelo bom senso prático? Deve, numa palavra, colocar-se exclusivamente no ponto de vista tradicional? Ou então, desprezando tanto os princípios da Ciência como as considerações históricas mais respeitáveis, deve preocupar-se unicamente em criar divisões cómodas, adaptadas às necessidades da vida, e ater-se apenas ao ponto de vista prático?
No nosso entender, nenhum destes três métodos, isoladamente, pode dar resultados satisfatórios; e, para nos convencermos da exatidão desta proposição, basta considerar as consequências absurdas a que se chegaria adotando exclusivamente um desses três sistemas.
Suponhamos, com efeito, que se adota unicamente o ponto de vista astronómico. Encontramo-nos logo de início perante dificuldades intransponíveis; porque o começo e o fim de cada uma das evoluções planetárias que é necessário considerar não coincidem exatamente: o ano solar não é composto, com precisão, nem por um certo número de meses lunares, nem sequer por um certo número de dias. Mas ainda: os dias solares não são rigorosamente iguais entre si.
- Se fosse preciso ater-se exclusivamente aos fenómenos siderais, seria necessário redigir Tabelas astronómicas, cujo uso só estaria ao alcance dos sábios, e que de modo algum poderiam constituir um Calendário no verdadeiro sentido da palavra.
- Mas esse não seria o único inconveniente de tal sistema: mesmo que as evoluções astronómicas mais longas fossem múltiplos exatos das menores, ainda assim não se obteria um resultado satisfatório em todos os aspetos. Imaginemos, por um momento, que o ano solar se compunha exatamente de 365 dias e de 5 meses lunares, com 73 dias cada um; quais seriam as consequências de hipótese tão favorável?
- Obteríamos divisões talvez muito científicas, mas certamente inaplicáveis às várias necessidades da vida social. Como, com efeito, contentar-nos com um sistema em que nenhum período fosse facilmente fracionável; em que não se pudesse distinguir nem meio ano com um número exato de meses, nem meio-mês com um número exato de dias; sobretudo se considerarmos a enorme distância que separaria um ano de 365 dias de um mês de 73, e um mês de 73 dias de um simples dia?
- Vê-se, pois, por esta hipótese simples, que, mesmo supondo coincidência perfeita entre as várias evoluções dos astros, ainda não nos poderíamos encerrar exclusivamente no domínio da Ciência, sob pena de produzir uma obra absolutamente inaplicável às necessidades da vida prática; sem falar do abalo que tal inovação traria aos costumes e aos hábitos da população.
Devemos então, rejeitando toda a ideia científica e desesperando de chegar alguma vez a uma solução metódica da questão, contentar-nos em aplicar, com a máxima exatidão possível, as regras que nos foram transmitidas pelos nossos antecessores, limitando-nos a seguir a tradição? Tal opinião, no nosso entender, não pode ser seriamente defendida.
- Sem dúvida, existem no nosso Calendário atual certas disposições que, embora pouco justificáveis do ponto de vista lógico, continuam respeitáveis pela sua concordância com costumes e usos profundamente enraizados no espírito da população; mas, em contrapartida, é preciso reconhecer que várias outras regras, que também só se fundam na tradição, poderiam ser reformadas sem ferir minimamente os hábitos nacionais.
- Assim, por exemplo, se se compreende que se hesite em suprimir a semana, período tradicional por excelência, já mal se explica, senão por um espírito de rotina verdadeiramente singular, que se persista em atribuir apenas 28 dias ao mês de fevereiro, quando, por outro lado, o número de meses de 31 dias supera o dos meses de trinta.
Perante esta impossibilidade em que nos encontramos de nos guiarmos exclusivamente pelos dados da Ciência ou pelos usos tradicionais, parece à primeira vista que a única solução seria restringir-nos às considerações práticas; mas também aqui cairíamos noutro escolho.
- Suponhamos, de facto, que se faz abstração de toda a ideia científica ou histórica; que aconteceria? Limitar-nos-íamos a constituir períodos artificiais, de uso absolutamente cómodo, facilmente divisíveis entre si: criar-se-ia, por exemplo, um ano de 100 dias, com 10 meses de 10 dias cada; ou ainda um ano de 240 dias, subdividido em 12 meses de 20 dias, cada um fracionado em pequenos períodos de 5 dias.
- É inútil insistir nos inconvenientes de tal Calendário: muito cómodo, sem dúvida, para o cálculo de prazos, vencimentos e tempo realmente decorrido desde certa data, mas não forneceria qualquer elemento de apreciação quanto ao regresso dos fenómenos mais essenciais, mesmo do ponto de vista prático; e, por outro lado, não estaria de forma alguma adaptado aos costumes e aos hábitos de espírito das populações.
Quais são, então, os princípios que se devem adotar para fundar as bases de um Calendário verdadeiramente bom e útil, senão perfeito? Acabamos de ver que era impossível colocar-nos exclusivamente num dos três pontos de vista: astronómico, tradicional ou prático. É necessário, portanto, combinar esses diferentes elementos, sacrificando o menos possível cada um deles.
Mas, em caso de conflito entre considerações de ordens diferentes, qual será o critério a adotar? No nosso entender, deverá prevalecer sempre o ponto de vista prático. E, de facto, qual é o fim essencial do calendário? Dar a conhecer aos sábios o momento exato em que devem ocorrer os fenómenos astronómicos? Perpetuar a memória de usos e preconceitos há muito desaparecidos? Ninguém o pode sustentar seriamente. É preciso, portanto, antes de tudo, quando se empreende reformar o Calendário, preocupar-se com as necessidades da vida comum: procurar criar divisões simples, facilmente fracionáveis, concordantes entre si tanto quanto possível, e suficientemente variadas para que uma ou outra corresponda quase sempre a uma duração de uso cómodo para regular os nossos negócios, o nosso trabalho ou o nosso descanso. Sem dúvida, por força dessas mesmas considerações utilitárias, é preciso também ter em conta os dados da Ciência e respeitar, em certa medida, a tradição; mas só se deve renunciar às divisões simples e cómodas em último recurso, e apenas quando esteja absolutamente demonstrado que da omissão de uma consideração astronómica ou tradicional resultaria um inconveniente prático sério.
§ 2. -- Crítica das várias subdivisões do Calendário gregoriano.
O Calendário gregoriano, atualmente em vigor na maioria das nações civilizadas, é incontestavelmente um dos melhores, se não mesmo o melhor, entre os que foram usados até hoje. Não vamos, portanto, recuar ao longo dos séculos, nem analisar os diferentes métodos adotados em todas as épocas para calcular o tempo. Prosseguindo um objetivo essencialmente prático, limitar-nos-emos a estudar, em particular, cada uma das subdivisões do nosso Calendário atual, apreciando-as de acordo com os princípios que expusemos no primeiro parágrafo.
1.º O DIA. O dia é a própria base, a unidade primordial de todo o calendário. A sucessão da luz e das trevas, pelo menos na quase totalidade dos climas habitáveis, faz do movimento de rotação da Terra a subdivisão do tempo mais necessária para a vida corrente. É verdade que o dia astronómico não coincide rigorosamente com o dia médio pelo qual se regulam os nossos relógios; mas, mantendo-se a diferença entre ambos dentro de limites muito estreitos, pode dizer-se que esta primeira divisão é simultaneamente conforme aos dados da Ciência, às exigências da vida prática e, além disso, sancionada pelo consentimento universal das nações.
2.º A SEMANA. Com a semana passa-se de outro modo. Este período não corresponde exatamente a nenhuma evolução astronómica; apresenta, além disso, o duplo inconveniente de, por um lado, compreender um número indivisível de dias e, por outro, não ser uma fração exata do ano. Apesar disso, acreditamos que aqui, mesmo do ponto de vista prático, o respeito da tradição se impõe com força. Com efeito, os três defeitos que acabamos de assinalar não são tão graves como parecem à primeira vista. Em primeiro lugar, se a semana não apresenta interesse para indicar o retorno de certos fenómenos climatéricos, importa reconhecer que nenhuma outra duração astronómica aproximadamente semelhante traria mais vantagens nesse aspeto; e, no entanto, é indispensável criar subdivisões intermédias entre o dia e o ano, únicos elementos científicos absolutamente necessários, dada a profunda influência que exercem sobre as condições da vida prática. Quanto à segunda objeção contra o período de 7 dias, também ela não nos deve deter mais do que a primeira; porque, se é verdade que o número 7, essencialmente indivisível, parece mal escolhido para uma subdivisão prática do tempo, não se pode esquecer que um uso constante, reforçado entre a maioria dos povos por prescrições religiosas, consagra ao descanso um dos dias da semana; de modo que os dias ordinários ficam reduzidos a seis, número cómodo e facilmente fracionável. Encontramo-nos, portanto, diante de um único inconveniente verdadeiramente sério: a falta de concordância entre a duração do ano e um número inteiro de semanas. Este é, sem dúvida, um defeito dos mais graves, e foi perfeitamente posto em evidência pelo autor do notável artigo publicado nesta Revista no mês de novembro passado; mas esse mesmo autor colocou o remédio ao lado do mal, expondo um método artificial destinado a suprimir o inconveniente que assinalava. Em nosso entender, a solução por ele apresentada seria perfeitamente aceitável; contudo, no parágrafo seguinte, permitimo-nos propor, por nossa vez, um processo empírico de outra natureza, que talvez atinja o mesmo objetivo sem apresentar os mesmos inconvenientes.
Vê-se, portanto, que a semana oferece menos inconvenientes do que parece à primeira vista, tanto no plano científico como no plano prático. Se considerarmos agora a necessidade de respeitar o mais possível a tradição, talvez nenhuma outra duração se imponha de forma mais absoluta do que a de 7 dias. E, de facto, entre a maioria dos povos civilizados, os costumes, os usos antigos e as doutrinas religiosas fazem desta subdivisão do tempo uma das bases de regulamentação mais essenciais para o trabalho, as práticas dos vários cultos, os negócios e os prazeres. É preciso, por isso, renunciar a substituir a semana por outro período mais metódico de 5, 6 ou 10 dias, por exemplo, sob pena de provocar um profundo transtorno nos hábitos da população e de criar apenas uma obra destinada a desaparecer rapidamente, como aconteceu com o Calendário da Convenção Nacional Francesa, tão excelente, aliás, sob outros aspetos.
3.º O MÊS. Em rigor, o mês do calendário gregoriano não é, tal como a semana, senão uma subdivisão puramente artificial. Desde logo, não corresponde com exatidão a nenhuma evolução astronómica. Além disso, os meses não são iguais entre si e cada um deles nem sequer apresenta a vantagem de ser uma fração determinada do ano. Este inconveniente torna-se ainda mais evidente pelo inconcebível espírito de rotina que atribuiu apenas 28 dias a fevereiro, enquanto, por outro lado, o número de meses de 31 dias excede o de meses de 30 dias. Por fim, embora 4 meses do ano tenham a vantagem de compreender um número de dias simples e facilmente divisível, os outros 8, isto é, a maioria, têm 31, 28 ou 29 dias e são, nesse aspeto, muito defeituosos.
Entendemos, portanto, que uma reforma se impõe imperiosamente neste ponto. Sem dúvida, não lamentamos que o mês do Calendário não corresponda ao mês lunar. Ao contrário dos movimentos de rotação e translação da Terra, o movimento da Lua em torno do nosso planeta não acarreta consequências práticas suficientemente importantes para que se deva sacrificar, para o considerar, a simplicidade e a utilidade de outro modo de cômputo. Admitimos, portanto, que o mês civil possa não coincidir com o mês lunar e deva ser apenas uma divisão artificial, um duodécimo do ano. Mas, assente este princípio e posta de lado qualquer consideração científica, é necessário, pelo menos, que o lado prático da questão seja satisfeito na maior medida possível. Com efeito, aqui já não estamos, como no caso da semana, constrangidos pela necessidade de respeitar tradições enraizadas no espírito da população; pois as anomalias que se verificam na duração dos diferentes meses só se explicam pela lembrança de usos e preconceitos há muito desaparecidos. É preciso, portanto, manter neste ponto apenas as regras do bom senso e restituir ao mês o seu caráter de divisão artificial, mas prática e cómoda, do ano. Veremos no parágrafo seguinte como, em nossa opinião, esse resultado poderia ser obtido.
4.º O ANO. Ao contrário da semana e do mês, o ano é um período para o qual se deve ter cuidadosamente em conta os dados da Astronomia. Se pudemos, de facto, negligenciar as fases da Lua, que não trazem modificações importantes às condições da vida prática, já não podemos agir da mesma forma no que respeita ao movimento do nosso planeta em torno do Sol. Tal como a rotação da Terra impõe necessariamente o dia como elemento fundamental da divisão do tempo, ao fazer regressar sucessivamente as trevas e a luz, também a translação da Terra em torno do Sol determina periodicamente, na maioria das latitudes, o retorno de fenómenos climatéricos de extrema importância do ponto de vista prático. Todavia, como o ano solar não compreende um número exato de dias, torna-se necessário recorrer a processos empíricos para estabelecer a concordância entre estes dois elementos essenciais do Calendário. Não vamos examinar os vários métodos até hoje utilizados para esse fim; mas parece-nos que o Calendário gregoriano pode ser considerado tão satisfatório quanto possível nesse aspeto, salvo no que diz respeito ao lugar estranho atribuído ao dia complementar, que não tem outro fundamento senão um respeito excessivo pela tradição.
§ 3. - Plano de reforma do Calendário.
Acabamos de ver quais são as vantagens e quais são as lacunas do Calendário gregoriano; resta-nos agora examinar como se poderia conservar umas e colmatar as outras. Não pretendemos, sem dúvida, apresentar um projeto perfeito em todos os aspetos: limitamo-nos a submeter aos leitores as modificações que nos parecem poder e dever ser introduzidas no nosso Calendário atual; mas, para maior clareza de exposição, somos obrigados a dar a esta última parte do nosso trabalho o caráter de um plano de conjunto.
Em nosso entender, o Calendário reformado deveria assentar nas seguintes bases:
O ano teria 365 dias, com dias complementares introduzidos conforme os princípios do Calendário gregoriano.
Dividir-se-ia em 12 meses, alternando 30 e 31 dias, de tal forma que teríamos:
Janeiro . . . . . . . . . . . . . . 30 dias. Fevereiro . . . . . . . . . . . . . 31 - Março . . . . . . . . . . . . . . . 30 - Abril . . . . . . . . . . . . . . . 31 - Maio . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 - Junho . . . . . . . . . . . . . . . 31 - Julho . . . . . . . . . . . . . . . 30 - Agosto . . . . . . . . . . . . . . . 31 - Setembro . . . . . . . . . . . . . . 30 - Outubro . . . . . . . . . . . . . . 31 - Novembro . . . . . . . . . . . . . . 30 - Dezembro . . . . . . . . . . . . . . 30 - TOTAL . . . . . . . . . . . . . . . 365 dias.
Nos anos bissextos, o mês de dezembro receberia um 31.º dia, o que elevaria para 6 o número de meses com 31 dias, tal como o número de meses com 30 dias.
O primeiro dia do ano seria sempre um domingo; depois, os dias da semana suceder-se-iam na ordem atual até 30 de dezembro, último dia do ano no nosso sistema, que também seria domingo; de modo que o primeiro e o último dia do ano seriam dias de descanso. Nos anos bissextos, 31 de dezembro, dia complementar, receberia uma designação especial, ou seria simplesmente qualificado como domingo. Por fim, o dia civil permaneceria sujeito às regras que o regem atualmente, sem qualquer modificação.
Parece-nos que tal Calendário apresentaria vantagens consideráveis e seria, sob vários aspetos, superior ao Calendário gregoriano. Quais são, então, as reformas que propomos?
No que respeita aos meses, o Calendário atual divide o ano em 7 meses de 31 dias, 4 meses de 30 dias e 1 mês de 28 ou 29 dias; além disso, intercala os meses de 31 dias de maneira tão singular que, muitas vezes, somos obrigados a recorrer a processos empíricos para saber se determinado mês tem 30 ou 31 dias. O mês de fevereiro, desmesuradamente encurtado, obriga a aumentar o número de meses de 31 dias e a transformar o mês de 30 dias em exceção, quando deveria ser a regra. Vê-se, portanto, que o método atualmente seguido carece totalmente de lógica. Pelo contrário, no nosso sistema, os meses de 30 dias, de longe os mais cómodos, são maioritários e alternam regularmente com os de 31, o que permite distingui-los facilmente entre si. Além disso, desaparece por completo a singularidade de um mês truncado como o fevereiro atual. Por fim, o dia complementar dos anos bissextos encaixa-se naturalmente no fim do ano, fazendo do décimo segundo mês um mês de 31 dias.
Neste primeiro ponto, parece-nos que a reforma que propomos oferece pouca margem à crítica. Quanto ao sistema que expusemos acima no tocante às semanas, admitimos mais facilmente a discussão. Não ignoramos, de facto, o carácter empírico da teoria que apresentámos, e sabemos que se poderá acusar-nos de ter criado uma semana de dois domingos, ou mesmo de três domingos, parente próxima da famosa «semana dos quatro domingos». Mas seduziu-nos a perspetiva de fazer concordar entre si as diversas subdivisões do Calendário. Não é, com efeito, lamentável ver esta falta de conexão que hoje existe entre o dia da semana e o dia do ano? Quem não sentiu repetidamente os inconvenientes teóricos e práticos de tal método? Sem dúvida, pode censurar-se ao sistema proposto fazer da última semana do ano uma semana que não é bem semana, uma semana de 8 ou até 9 dias, quebrando assim a cadeia dos períodos de 7 dias. Trata-se, incontestavelmente, de uma crítica fundada; mas podemos responder a essa objeção com argumentos igualmente sérios.
Antes de mais, notar-se-á que empregamos, para fazer coincidir a duração do ano com a de um número exato de semanas, um processo absolutamente análogo ao já utilizado para fazer concordar os anos solares com números inteiros de dias. Tal como, de 4 em 4 anos, se acrescenta um dia complementar ao ano bissexto, que assim passa a ter 366 dias, enquanto o ano normal tem 365, também nós transformamos a 52.ª semana de cada ano numa semana especial com 8 dias em vez de 7. Vê-se, portanto, que os dois processos se equivalem e que um não é nem mais empírico nem mais estranho do que o outro. Além disso, importa considerar que essa ligeira perturbação, que se produziria nos hábitos da população pelo aproximar imediato de dois domingos, ocorreria precisamente numa época do ano geralmente consagrada a celebrações excecionais, de acordo com os costumes e tradições de quase todos os povos. E, mesmo que a reforma por nós indicada apresentasse alguns inconvenientes, não seria ainda melhor resignarmo-nos a aceitá-los, em vez de deixar subsistir um estado de coisas eminentemente defeituoso?
Em resumo, o novo Calendário cuja adoção propomos prevaleceria sobre o Calendário gregoriano pelas seguintes qualidades: concordância perpétua dos dias do ano com os dias da semana; igualdade e regularidade tão grandes quanto possível dos meses; ausência de toda a singularidade injustificável por outro motivo que não o espírito de rotina. Além disso, ofereceria a imensa vantagem de respeitar quase absolutamente os hábitos profundamente enraizados da população; de tal forma que a reforma não lançaria qualquer perturbação no curso ordinário da vida quotidiana e realizaria melhorias consideráveis passando, por assim dizer, despercebida.
JULES BONJEAN.
IV
ENCERRAMENTO DO CONCURSO
(Excerto de L'Astronomie, maio de 1886).
O concurso, aberto em setembro de 1884, foi encerrado, como anunciado, na data de 1.º de janeiro de 1886. Cinquenta memórias, enviadas de várias partes do mundo, foram examinadas em primeira leitura e classificadas. O relatório vai ser em breve submetido ao julgamento de uma alta comissão, modificado se necessário, e adotado como exposição do PROJETO da reforma desejada; depois será publicado com os prémios atribuídos. Podemos desde já pensar que o prémio de cinco mil francos não poderá ser atribuído a um único autor, mas será repartido por vários.
Vários sábios perguntaram-nos, a este propósito, se este projeto não visaria também a reforma do Calendário religioso, assegurando-nos que ela seria muito útil e até geralmente desejada por todos os cristãos, católicos ou protestantes. Não podemos afirmar pessoalmente nada sobre esse ponto; no entanto, conhecemos membros do Parlamento inglês que tencionam propor essa reforma à Câmara dos Comuns, sobretudo no desejo de ver fixadas todos os anos, na mesma época, as férias parlamentares. Poderíamos citar em especial um deles, bem conhecido por toda a parte pela sua imensa fortuna e, sobretudo, pelas suas benfeitorias sem limites em Inglaterra e em França, e que dotou Paris com as fontes populares que levam o seu nome.
Mas caberá ao Congresso que esperamos ver reunir-se para a reforma do Calendário civil decidir se deve, ao mesmo tempo, emitir um voto sobre a reforma do Calendário religioso. Quanto a nós, só podemos ocupar-nos do Calendário civil. Parece-nos, aliás, que a reforma do Calendário religioso diz respeito ao chefe da religião cristã. Gregório XIII, com o apoio dos sábios do seu século, propôs há três séculos uma reforma que foi sucessivamente aceite por quase todos os Estados cristãos; Leão XIII, que justamente é tido por amigo da ciência e do progresso, poderá, se o julgar útil, decidir também ele sobre a oportunidade de uma nova reforma.
V
RELATÓRIO SOBRE OS PROJETOS APRESENTADOS AO CONCURSO (1)
(1) Este concurso foi encerrado, como acabamos de ver, em 1 de janeiro de 1886. Tendo a Sociedade Astronómica de França sido fundada e realizado a sua primeira sessão em 28 de janeiro de 1887, o Sr. Flammarion transmitiu, logo na segunda sessão (28 de fevereiro), os seus plenos poderes à Sociedade, que nomeou imediatamente uma comissão encarregada de lhe apresentar um Relatório sobre os projetos apresentados e sobre a distribuição do prémio de cinco mil francos. (É esse Relatório, devido ao Sr. Gérigny, secretário da Sociedade, que aqui se publica.) O concurso aberto em 1884 por L'Astronomie, para um projeto de reforma do Calendário civil, produziu os resultados que era legítimo esperar de um apelo universal sobre uma questão de interesse tão manifesto. De várias partes do mundo, cinquenta Memórias foram enviadas ao Sr. Flammarion. Algumas delas contêm vários projetos diferentes. Um certo número apresenta elevado valor científico; várias oferecem qualidades sérias e mérito incontestável. Antes de passar à discussão detalhada destes numerosos trabalhos, importa, cremos nós, precisar bem as bases sobre as quais nos pareceu que a reforma devia ser examinada. Todos concordam que o Calendário gregoriano, tal como está atualmente em uso, apresenta imperfeições graves; mas a importância relativa dessas imperfeições foi apreciada de modo muito diverso pelos autores que enviaram as suas Memórias ao concurso, e os meios imaginados para as corrigir são numerosos e variados.
Da leitura dos projetos resulta que os defeitos que foram apontados ao Calendário gregoriano, com ou sem razão, são:
- 1.º A desigualdade dos anos civis, que contam ora 365 dias, ora 366 dias;
- 2.º A imperfeição do ciclo gregoriano de 400 anos que, ao fazer o ano civil médio de 365d,2425, quando o ano trópico é de 365d,2422, provoca um desvio de um dia ao fim de cerca de 3500 anos;
- 3.º O caráter arbitrário da divisão em doze meses, período de cerca de 30 dias, que não corresponde, mesmo aproximadamente, a qualquer período astronómico e que nem sequer tem a vantagem de ser um duodécimo do ano;
- 4.º A desigualdade desses meses, que têm ora 31 dias, ora 30, ora mesmo 28 ou 29;
- 5.º O caráter empírico e incómodo da semana de 7 dias, que não tem outra razão de ser senão a antiguidade da sua origem;
- 6.º A falta de concordância entre os dias da semana e as datas do ano, que obriga a cálculos bastante penosos quando se quer saber a que dia da semana corresponde certa data;
- 7.º A falta de concordância entre os dias da semana e as datas do mês;
- 8.º A ausência de divisões decimais na medição do tempo;
- 9.º A origem arbitrária do ano, fixada desde Carlos IX em 1 de janeiro, data que não corresponde a nenhum fenómeno astronómico notável;
- 10.º O caráter demasiado particular da era cristã que, ao referir-se a um acontecimento religioso, pode ferir os sentimentos das populações não cristãs, e cuja origem nem sequer coincide com o ano do nascimento de Jesus Cristo;
- 11.º O caráter arbitrário e ilógico das denominações adotadas.
Estas são as imperfeições que os concorrentes se esforçaram por fazer desaparecer, fixando cada um a atenção naquela que lhe parecia mais grave. Importa discutir estes onze pontos e examinar se estão todos realmente fundados e se é possível corrigir os defeitos assinalados sem introduzir outros ainda mais graves.
I
Há, antes de tudo, uma consideração capital que deve dominar todas as outras e que introduz uma diferença essencial entre a medição do tempo e a medição das restantes grandezas: é que o duplo movimento da Terra, em torno do seu eixo e em torno do Sol, faz regressar, a intervalos aproximadamente iguais, fenómenos variados que desempenham um papel considerável em toda a nossa existência. As unidades de comprimento e de peso podem ser arbitrárias sem qualquer inconveniente, e as que utilizamos são efetivamente arbitrárias; mas a sucessão do dia e da noite obriga-nos a regular a nossa vida pelo movimento diurno aparente do Sol e impõe-nos de modo absoluto o dia solar como unidade de tempo. É verdade que o dia solar, não sendo constante, não apresenta rigorosamente o caráter essencial de uma unidade de medida; mas sabe-se como os astrónomos contornaram a dificuldade, substituindo o dia solar verdadeiro pelo dia solar médio. Não nos alongaremos sobre essa engenhosa combinação, que aliás está fora do nosso tema e resolve o problema da maneira mais feliz e completa; pode dizer-se que o dia solar médio, tal como é definido em Astronomia, é, para os usos civis, uma unidade de tempo definitiva.
Mas o dia solar médio é uma unidade demasiado curta para durações de alguma extensão; poder-se-ia pensar, neste caso, em empregar um múltiplo decimal da unidade fundamental, por exemplo um período de 100 dias ou de 1000 dias, tal como se usa o hectómetro ou o quilómetro para medir distâncias itinerárias. Se todos os dias fossem iguais, isso já teria sido feito há muito, e a questão do Calendário nem existiria (num mundo sem estações, como Júpiter, não se nota o ano e o ciclo dos dias pode ser qualquer). Mas o ciclo das estações traz-nos alternadamente os dias longos e as noites longas, os calores sufocantes e os frios rigorosos, a atividade e o repouso da vida vegetal. Somos obrigados a contar com esta diversidade dos fenómenos do mundo que nos rodeia para regular as nossas ocupações; o período da sua sucessão impõe-se como unidade de tempo com autoridade não menos absoluta do que a sucessão do dia e da noite, e é precisamente daí que nasce a primeira dificuldade do problema, porque esse período, a que os astrónomos chamam ano trópico, não é formado por um número exato de dias; é de cerca de 365 dias e um quarto (365d,242217), e mesmo assim varia ligeiramente ao longo dos séculos. Felizmente, essa variação é tão pequena que é totalmente inútil considerá-la, pelo menos durante vários milhares de anos.
É evidentemente impossível conservar, para usos civis, um ano que não seja composto por um número exato de dias. Como também não se pode renunciar a contar o tempo segundo as estações e substituir o ano por um período decimal de 100 dias ou de 1000 dias, restam apenas duas soluções. A primeira seria formar o ano civil com o número inteiro de dias mais próximo do valor fracionário do ano trópico, isto é, 365 dias. Foi esta a solução adotada pelos antigos egípcios. Esse ano, composto invariavelmente de 365 dias e chamado ano vago, tem a vantagem incontestável de ser sempre igual a si mesmo; mas conhece-se o inconveniente que resulta da fração desprezada. Sendo o ano civil cerca de um quarto de dia mais curto, as estações deslocam-se um dia de quatro em quatro anos; a data do equinócio da primavera, por exemplo, avança uma unidade de quatro em quatro anos, um mês em cerca de 120 anos e, em cerca de 1460 anos, as estações dão a volta completa ao ano. Os antigos egípcios não viam inconveniente nesta variação anual; pensavam, pelo contrário, que esse modo de cômputo era mais vantajoso, porque, no fim do ciclo de 1460 anos, todas as estações tinham sido santificadas pelas diferentes festas religiosas celebradas em datas fixas. Mas a civilização moderna não se acomodaria a tal sistema. O Calendário não é apenas um quadro composto de maneira arbitrária para dar nomes ou números aos dias sucessivos; é também uma ordenação dos dias futuros, a partir da qual distribuímos antecipadamente os nossos trabalhos e os nossos prazeres, as nossas ocupações privadas ou profissionais; é por ele que se regulam os nossos projetos e os nossos hábitos. É a imagem da sucessão das estações, cujas particularidades previsíveis nos indica de antemão, como as horas do nascer e do pôr do Sol, a equação do tempo, etc. Não compreenderíamos que as mesmas estações deixassem de se reproduzir nas mesmas datas, porque então teríamos de modificar os nossos hábitos e mudar as datas das nossas diversas atividades à medida que as estações se deslocassem entre as datas do Calendário civil.
As duas grandes reformas históricas do Calendário tiveram precisamente por objetivo colocar, tanto quanto possível, o ano civil em acordo com o ano trópico e, como não podemos aceitar o ano vago, temos de nos resignar à segunda solução, que foi tanto a de Júlio César como a de Gregório XIII, e que consiste em combinar anos de 365 dias e de 366 dias de modo que a média seja tão próxima quanto possível de 365d,2422. Por este processo, os pontos solsticiais e equinociais deslocam-se de facto algumas horas durante os anos de 365 dias, que são demasiado curtos; mas, quando chega o ano de 366 dias, que é demasiado longo, o equinócio recua bruscamente em sentido inverso e volta aproximadamente ao seu lugar primitivo. Pode discutir-se o modo de distribuição dos anos de 365 e de 366 dias; pode até propor-se, se nisso se vir vantagem, anos com menos de 365 dias, ditos deficientes, combinados com anos com mais de 365 dias, ditos abundantes; mas o próprio princípio da combinação de anos civis com durações diferentes, com o objetivo de assegurar o regresso periódico das estações às mesmas datas do ano, deve permanecer absoluto e fora de contestação. A primeira condição, a mais essencial que o Calendário deve cumprir, é estar de acordo com o ano trópico; isto é, a duração do ano médio deve ser o mais próxima possível de 365d,2422.
II
Ao lado desta obrigação fundamental, imposta por uma relação numérica entre fenómenos naturais e completamente fora da ação da vontade humana, há ainda uma condição capital que não se deve perder de vista na elaboração de um projeto de reforma, e que depende de considerações inteiramente diferentes, ligadas a três ordens distintas de ideias:
1.º O Calendário gregoriano, em uso entre as nações mais civilizadas, não é obra de um dia imposta por um legislador; é, por assim dizer, o resultado do trabalho dos séculos e de um grande número de gerações. Não é senão o antigo Calendário romano, cuja origem se perde na noite das lendas de Rómulo e de Numa Pompilius, reformado por diversas vezes, segundo os progressos da Ciência, mas nunca completamente transformado. Um resumo rápido da história deste Calendário talvez não seja inútil.
O ano de Rómulo compunha-se de dez meses e contava 304 dias. Numa introduziu os meses de janeiro e fevereiro, elevando para 355 o número de dias do ano. Mais tarde, compreendeu-se o inconveniente desta duração do ano civil, muito mais curta do que a do ano trópico, e imaginou-se acrescentar de dois em dois anos um mês suplementar chamado Mercedonius. Por uma extravagância quase inconcebível, esse mês intercalava-se por inteiro entre 23 e 24 de fevereiro; mas, apesar do mês de Mercedonius, o ano continuava longe de estar em acordo com o Sol. Em desespero de causa, decidiu-se deixar à autoridade do Grande Pontífice o cuidado de decidir, cada ano, se haveria mês Mercedonius e qual seria a sua duração. Esta solução apenas aumentou a desordem que se queria evitar; os pontífices abusavam do poder que lhes fora conferido para alongar ou encurtar o ano segundo os seus caprichos ou interesses. Senhores de adiantar ou atrasar vencimentos, bem como a época da renovação das magistraturas, tinham feito do Calendário um instrumento de corrupção e de fraude. No tempo de Júlio César, a desordem era tal que as festas da colheita caíam em pleno inverno e celebravam-se na primavera festas chamadas autumnalia. Foi para remediar este estado de coisas e impedir o seu regresso que o ditador empreendeu a reforma que ficou com o seu nome. Aconselhou-se com um astrónomo egípcio, SOSÍGENES, e estabeleceu o Calendário juliano, absolutamente conforme ao Calendário atual, salvo a divisão dos meses em Calendas, Nonas e Idos, e a regra de intercalação dos anos bissextos, que devia produzir invariavelmente um ano bissexto de quatro em quatro anos, sem exceção. Talvez não seja sem interesse notar que o dia suplementar dos anos bissextos foi intercalado no lugar do antigo mês Mercedonius, isto é, entre 23 e 24 de fevereiro. Como 23 de fevereiro se chamava sextus dies ante kalendas Martis (sexto dia antes das calendas de março), o dia intercalar recebeu o nome de bissextus dies... (segundo sexto dia), e daí veio o nome bissexto dado aos anos de 366 dias. Além disso, para reconduzir as estações às datas que lhes deviam corresponder, atribuiu-se ao ano da reforma uma duração de 445 dias; esse ano, que depois se chamou ano da confusão, era o ano 709 da fundação de Roma, ou o ano 46 antes de Jesus Cristo. Acrescente-se que os pontífices encarregados de aplicar a reforma não compreenderam, nos primeiros anos, que era preciso fazer um ano bissexto em cada grupo de quatro anos; mas, contando nesses quatro anos o bissexto anterior, faziam regressar os anos bissextos de três em três anos, na prática. O erro resultante desta aplicação incorreta da regra foi corrigido sob Augusto, com a supressão dos dias contados em excesso.
O ano juliano médio era de 365d,25, excedendo assim o ano trópico em 0d,007783, ou cerca de 11 minutos. Esta diferença parece muito pequena, mas, acumulando-se, produz um dia ao fim de 130 anos. Daí resultou que o equinócio da primavera, que na reforma de Júlio César ocorria a 25 de março, passou para 24 de março ao fim de 130 anos, depois para 23 de março e, finalmente, em 325, no concílio de Niceia, ocorria a 21 de março.
O Calendário juliano foi adotado pelo concílio de Niceia para regular a data das festas da Igreja. O equinócio da primavera foi igualmente fixado em 21 de março, e a festa da Páscoa no domingo seguinte à primeira Lua Cheia posterior a 20 de março; de modo que esta festa pode ser celebrada, no mínimo, em 22 de março e, no máximo, em 25 de abril. Admitiu-se também que a duração do ano era de 365d,25, de modo que a época do equinócio continuou a recuar um dia de 130 em 130 anos.
No fim do século XVI, o erro era de 10 dias, isto é, o equinócio da primavera ocorria a 11 de março, e já não a 21. Se as coisas tivessem continuado assim, a festa da Páscoa acabaria por ser celebrada no verão, depois no outono, etc. Para remediar este inconveniente, o papa Gregório XIII, a convite do concílio de Trento, consultou os astrónomos e substituiu o antigo Calendário por aquele a que se chama gregoriano. Eis em que consiste a reforma gregoriana:
Reconduziu-se o equinócio a 21 de março, suprimindo 10 dias, e o dia seguinte a 4 de outubro de 1582 passou a chamar-se 15 de outubro. Depois, para evitar no futuro o regresso de semelhante desordem, decidiu-se suprimir três anos bissextos em cada período de 400 anos e, para isso, adotou-se a regra seguinte: no Calendário juliano, os anos bissextos eram aqueles cujo ano era divisível por 4. Consequentemente, os anos seculares eram todos bissextos, pois terminam com dois zeros. Conservou-se a regra juliana para os anos comuns; mas decidiu-se que os anos seculares só seriam bissextos se, após suprimidos os dois zeros, continuassem divisíveis por 4. Assim, 1600 foi bissexto; 1700, 1800 e 1900 não o são; 2000 sê-lo-á. É evidente que suprimir três anos bissextos em cada 400 anos equivale a diminuir em 3/400 a duração de cada ano; de modo que, em definitivo, a duração do ano civil no Calendário gregoriano é:
365,25 - 3/400 = 365,25 - 0,0075 = 365,2425;
ela só difere do ano trópico, de 365d,2422, por uma quantidade insignificante, que mal perfaz um dia em 4000 anos.
Apesar dos seus defeitos incontestáveis, o Calendário gregoriano tem de facto a seu favor a autoridade de uma tradição de vinte séculos e os hábitos enraizados das populações civilizadas. Por maior que seja o desejo de ver desaparecer disposições estranhas, ou mesmo ilógicas, seria pouco razoável pretender impor ao mundo uma mudança radical em hábitos tão antigos e tão profundamente enraizados. Deve, portanto, limitar-se a reforma aos pontos mais essenciais e às modificações cuja vantagem prática seja suficientemente incontestável para se sobrepor aos inconvenientes temporários, é verdade, mas necessariamente ligados a qualquer tentativa de reforma deste género.
2.º Mesmo à falta de um sentimento de justiça ou de respeito por antigos costumes, a necessidade mais rigorosa obriga a grande prudência em qualquer projeto de reforma. Não se trata aqui de procurar realizar um Calendário que, do ponto de vista teórico ou especulativo, pareça o mais racional, o mais científico e o mais perfeito. Trata-se de uma reforma prática que se deseja ver realizada no domínio dos factos, para maior comodidade das gerações futuras. É, portanto, essencial que procuremos tornar a reforma possível e aceitável.
Por mais perfeito que fosse o nosso projeto, sob o ponto de vista da razão ou da Ciência, teríamos feito obra inútil e ilusória se os interessados, isto é, a maioria do mundo, se recusassem a aceitá-lo. Cumpre até reconhecer que nos encontramos, neste aspeto, em condições muito mais desfavoráveis do que os reformadores dos séculos passados. As duas grandes reformas históricas do Calendário, a juliana e a gregoriana, foram realizadas por homens que podiam falar como senhores e impor a sua vontade. Júlio César era ditador de Roma e senhor do mundo civilizado; as suas ordens não podiam encontrar resistência. Em 1582, o papa gozava na Europa de influência considerável. Chefe da Igreja, podia fixar com autoridade as regras a seguir para determinar com precisão as datas das festas, e era esse, no seu espírito, o objeto mais importante da reforma. Em todo o caso, estava seguro da obediência dos países católicos, e estes tinham então poder e influência suficientes para que as outras nações se vissem em breve forçadas a imitar o seu exemplo. Contudo, os países protestantes resistiram longamente, preferindo não estar de acordo com o Sol a estarem de acordo com a corte de Roma. A Alemanha, a Dinamarca, a Suécia e a Suíça só aceitaram a reforma em 1600; a Inglaterra apenas em 1751. Ainda hoje, o Oriente da Europa conservou o Calendário juliano, e as datas russas ou gregas têm 12 dias de atraso em relação às nossas.
Há ainda uma terceira tentativa de reforma do Calendário cujo lembrar importa preservar. Mas, desta vez, tratava-se de uma mudança radical na forma de distribuir os dias do ano: queremos falar do Calendário republicano. É inútil observar que, embora tenha funcionado durante treze anos, esse Calendário não conseguiu conquistar o favor geral, mesmo em França; pelo contrário, o decreto de Napoleão que restabeleceu o Calendário gregoriano foi recebido com viva satisfação. Além disso, o Calendário republicano nunca foi aplicado fora de França. Mas, em 1793, a época era particularmente favorável a uma reforma de alguma importância. A Convenção, toda-poderosa, podia impor a sua vontade com a certeza de ser obedecida sem sombra de resistência e até com alegria por grande parte da população; uma necessidade de mudança, uma febre de inovação, tinham tomado conta de todos os espíritos inteligentes, e esse desejo de tudo modificar, de tudo reconstruir sobre bases novas, produziu as maiores realizações. Para citar apenas uma, devemos-lhe o sistema métrico. É profundamente lamentável que os autores do Calendário republicano se tenham deixado levar demasiado longe por esse caminho e não se tenham limitado a algumas modificações importantes, sem revolver de alto a baixo o Calendário dos séculos passados e do mundo inteiro. No meio de todas as reformas devidas à Revolução Francesa, a do Calendário teria sem dúvida permanecido duradoura e definitiva, apesar dos governos que se sucederam depois; enquanto o Calendário republicano, apesar das suas qualidades muito reais, contrariava demasiado os hábitos de toda a gente e feria profundamente os sentimentos religiosos de um número demasiado grande de pessoas para sobreviver à menor tentativa de reação.
Seja como for, as circunstâncias atuais são muito diferentes das que presidiram a essas três grandes reformas históricas. Ninguém pode pensar em recorrer à autoridade todo-poderosa de um monarca, de uma assembleia ou de um pontífice para impor ao mundo novas regras de contagem dos dias e dos anos. Nada podemos esperar senão do livre consentimento dos povos, representados pelos seus governos ou por delegados nomeados para esse fim. É certo que qualquer tentativa de reforma encontrará resistências, mais ou menos fortes, e devemos procurar reduzi-las ao mínimo, evitando introduzir no nosso projeto quaisquer disposições novas que não sejam justificadas por uma vantagem prática incontestável. Essa vantagem deve, inclusive, ser suficientemente evidente para chamar a atenção de todos e compensar amplamente os inconvenientes que possam resultar da mudança. Só a esse preço poderemos esperar adesões numerosas e suficientemente gerais para concretizar a reforma. Daí resulta a necessidade de nos abstermos de qualquer modificação de caráter teórico ou especulativo; devemos resignar-nos a manter as imperfeições do Calendário gregoriano que não acarretam inconvenientes materiais e concentrar-nos exclusivamente naquelas que, na vida comum, são fonte de incómodo, aborrecimento ou perda de tempo.
3.º Para obter esse consentimento geral, que nos é indispensável, é ainda necessário que o projeto de reforma possua uma qualidade essencial, aliás exigida pelo espírito e pelas tendências da civilização moderna: tem de ser universal. Um dos mais graves inconvenientes do método atual de contar os dias reside precisamente no facto de os povos do Oriente da Europa ainda não terem aceitado a reforma gregoriana. Quanto à Ásia, à China e ao Japão, essa parte importante do mundo pode não permanecer para sempre fora do concerto científico europeu. Pode até dizer-se que, para o interesse da tentativa atual, isso é favorável, pois esses povos aceitarão com maior facilidade mudar os seus usos antigos para adotar um Calendário universal quando virem as outras nações dispostas a sacrificar, elas próprias, os seus hábitos seculares em nome do interesse geral.
Que se deve entender por este termo, universal? Ele implica necessariamente a ausência de qualquer disposição ligada a uma nação, a uma religião ou a um clima em particular; mas também indica que o novo Calendário poderá adaptar-se facilmente aos usos de todos os povos e que cada um poderá servir-se dele para organizar as suas atividades conforme o clima, as leis civis e as prescrições religiosas que lhe são próprias. O carácter mais essencial que ele deve ter, talvez, é não recordar nada que seja específico de uma nação qualquer. O orgulho nacional é um dos sentimentos mais sensíveis do coração humano, e todo projeto de reforma que o fira, em qualquer grau, está condenado ao fracasso. Basta recordar os repetidos insucessos das tentativas de estabelecer um meridiano internacional. Entre todas as razões que impediram o êxito do Calendário republicano, deve citar-se, em primeiro lugar, o seu carácter exclusivamente francês: os nomes dos meses, que evocavam os fenómenos meteorológicos da França, teriam ficado deslocados noutras partes da Europa e teriam constituído verdadeiros contrasensos no hemisfério austral. O início do ano fora fixado no equinócio de outono, mais para homenagear o aniversário da proclamação da República do que para obedecer a qualquer indicação retirada do movimento aparente do Sol. Se se tivessem considerado apenas razões astronómicas, teria sido mais lógico fazer começar o ano no solstício de inverno ou no equinócio da primavera. Por fim, o nome insólito de sans-culottides, dado aos dias suplementares, não parecia ter sido escolhido de propósito para desacreditar a obra da Convenção?
Pelo contrário, o Calendário gregoriano goza em alto grau dessa qualidade de universalidade. Nada nele recorda as estações de um clima particular nem a história de uma nação específica. Apenas as festas distribuídas ao longo do ano parecem dar-lhe um carácter católico, mas é evidente que a questão das festas está completamente fora do nosso tema; não são elas que constituem o Calendário propriamente dito. Nada impede substituir as festas católicas pelas de outra religião, e foi necessariamente isso que fizeram os povos não católicos; nem por isso modificaram o Calendário. Pode-se até, como propuseram vários concorrentes, substituir as festas religiosas por festas civis e os nomes dos santos por nomes de homens ilustres, em cuja memória se consagrariam sucessivamente todos os dias do ano; nem por isso se teria reformado o Calendário. Já o dissemos muitas vezes: o nosso projeto de Calendário deve constituir uma ordenação dos dias e dos anos por vir; depois, cada um organizará o seu tempo e os seus dias segundo os seus hábitos e a sua consciência, para os dedicar à veneração dos santos, à memória dos grandes homens ou à lembrança dos grandes acontecimentos da sua história nacional. Trata-se aqui de uma obra astronómica. Examinemos, pois, a questão desse ponto de vista.
III
Inspirando-nos nos princípios que acabamos de recordar, vamos agora discutir as críticas dirigidas pelos concorrentes ao Calendário gregoriano:
1.º A desigualdade dos anos, que ora têm 365 dias ora 366, deve-se ao facto astronómico de o ano trópico não ser composto por um número exato de dias. A vontade humana nada pode contra isso; já explicámos suficientemente acima as razões que nos obrigam a aceitar anos de duração desigual, para que as estações se reencontrem sempre, em média, nas mesmas datas.
2.º A duração do ano gregoriano é de 365d,2425, ao passo que a duração do ano trópico é de 365d,242217. A diferença é, portanto, 365,242 217 - 365, 2425 = 0,000 283.
Ao fim de 1000 anos, a data média do equinócio terá, portanto, recuado 0d,283; e, para que essa data recue um dia inteiro, será necessário esperar 1/0,000283, isto é, 3533 anos. Só ao cabo desse longo período se terá contado um único dia a mais. Parece-nos que, nestas condições, o ano gregoriano representa o ano trópico com toda a aproximação desejável. Que interesse terão os homens do ano 5400 em que o equinócio lhes chegue exatamente na mesma data que no ano de graça de 1886? Se isso lhes importar muito, nada os impedirá de suprimir nessa altura um ano bissexto, para anular o efeito do dia contado em excesso. Em todo o caso, devemos ocupar-nos sobretudo das gerações presentes, e nem sempre é um bem prever as coisas com demasiada antecedência. Entendemos, portanto, que não há nada a alterar no ciclo gregoriano. Acrescente-se que a regra de intercalação é extremamente simples e engenhosa, e parece praticamente impossível imaginar outra que reúna no mesmo grau esse duplo carácter de simplicidade e comodidade; sabe-se que os anos bissextos são os anos cujo número é divisível por 4, com exceção dos anos seculares, que só são bissextos se o número das centenas do ano também for divisível por 4. Esta regra, que nada deixa ao arbítrio, constitui por si só quase toda a reforma gregoriana; é claramente superior à regra estabelecida no Calendário republicano, segundo a qual se deveriam fazer anos bissextos regularmente de 4 em 4 até que a data média do equinócio tivesse recuado um dia; só então se suprimiria um ano bissexto. É, pois, prudente não voltar a esta regra de intercalação e conservá-la tal como está.
3.º O mês tem evidentemente origem no período das fases da Lua; os povos muçulmanos, os árabes, os persas, ainda têm um Calendário cujos meses são aproximadamente iguais, em média, à duração da lunação. A religião judaica também se serve, ainda hoje, do Calendário lunar. O mesmo acontecia no Calendário dos antigos gregos. Como o ano trópico não contém um número exato de lunações, era extremamente difícil realizar um Calendário lunar que estivesse ao mesmo tempo de acordo com o Sol. O ano muçulmano, composto invariavelmente por 12 meses lunares, é demasiado curto, e as estações voltam a cair em todas as datas ao fim de poucos anos; os antigos gregos só conseguiram resolver a dificuldade por meio da combinação de anos deficientes de 12 meses com anos abundantes de 13 meses, distribuídos de forma conveniente entre os 19 anos do ciclo de Méton. Entre os romanos, não se hesitou durante muito tempo em sacrificar a contagem dos dias pelo movimento da Lua e, para que o ano fosse composto por um número exato de meses, estes foram formados com 30 ou 31 dias, sem mais preocupação com as fases lunares. Foi assim que se constituiu o mês tal como hoje o conhecemos. Já não corresponde certamente a nenhum período astronómico; a sucessão dos meses já não está de modo algum em acordo com o movimento da Lua e o regresso das suas fases; mas daí resulta algum inconveniente prático? Com o nosso modo de vida e os nossos hábitos, terão as fases da Lua para nós um interesse tão grande que seja indispensável usá-las para contar o tempo? Quem pensaria em preferir ao nosso Calendário o Calendário exclusivamente lunar dos povos muçulmanos? E quanto ao antigo Calendário lunissolar dos gregos, com anos abundantes que excediam em 29 dias os anos deficientes, será preciso demonstrar o quão incómodo ele era?
Também se disse que os meses nem sequer são duodécimos do ano, já que ora têm 30 dias, ora 31; sem dúvida, mas, como 365 não é divisível por 12, é impossível dividir o ano em 12 partes com o mesmo número de dias. Será isso motivo para suprimir os meses? Estamos longe de o pensar. Duração intermédia entre o dia e o ano, o mês é uma espécie de unidade de tempo muito prática para cálculos aproximados. Não serve para cálculos exatos; mas é muito útil na vida civil. Poder-se-ia, sem dúvida, uma vez que a sua duração já não está ligada a nenhum fenómeno natural, tentar outra divisão do ano. Em várias memórias, encontrámos a divisão do ano em 13 meses iguais de 28 dias e um dia complementar, divisão que teria a vantagem de formar meses com um número exato de semanas; mas a que preço em inconvenientes seria comprada essa vantagem! O número primo 13 não permite qualquer partilha cómoda do ano; nem metade, nem terço, nem quarto do ano se comporiam de um número inteiro de meses. O número 12, pelo contrário, fornece da forma mais conveniente essas divisões auxiliares: metade do ano são 6 meses, um quarto são 3 meses, um terço são 4 meses, etc. Note-se, a este propósito, que a possibilidade de dividir 12 em 2, 3, 4 e 6 partes iguais é seguramente a razão pela qual se usou esse número nas subdivisões das antigas medidas. Pode até lamentar-se que o sistema de numeração não tenha sido estabelecido desde o início na base 12, em vez da base 10, que provavelmente se impôs aos primeiros homens pelo número de dedos das mãos. Quanto à divisão do ano em 10 meses, ofereceria os mesmos inconvenientes da divisão em 12, pois 365 não é divisível por 10, sem oferecer as mesmas vantagens de divisibilidade. Acrescente-se que o sistema decimal só é cómodo para cálculos exatos e operações escritas, para os quais o mês não serve de forma alguma. Já para cálculos aproximados e mentais, a divisão duodecimal é certamente mais vantajosa. Em suma, suprimir os meses ou mudar o modo de divisão do ano traria mais inconvenientes do que vantagens, sem contar que interromperia totalmente os hábitos mais difíceis de alterar. Não há, pois, motivo para tentar qualquer modificação nesse sentido.
4.º O mesmo já não acontece com o modo de repartir os 365 dias do ano pelos 12 meses. É realmente absurdo termos 7 meses de 31 dias, 4 de 30 e 1 de 28, elevado a 29 nos anos bissextos. Esta repartição arbitrária, que não tem outra razão de ser além de ideias supersticiosas herdadas da República romana, perpetuou-se ao longo dos séculos apesar dos seus inconvenientes evidentes; destrói a simetria dos quatro trimestres e complica o cálculo dos dias entre duas datas, sem contar que a curta duração de fevereiro é fonte de incómodo e de atraso para as pessoas cujas atividades se regulam pela sucessão e pelo regresso dos meses. Todos os anos é preciso um esforço de atenção, demasiadas vezes esquecido, para lembrar que, a 27 de fevereiro, resta apenas um dia antes do regresso de março. A distribuição simétrica dos dias e dos meses é, sem dúvida, um dos pontos sobre os quais a reforma projetada deverá incidir.
5.º A semana, tal como o mês, não assenta em nenhum fenómeno natural; mas o uso desta duração de sete dias é tão universal que nem se pode pensar em suprimi-la ou modificá-la. A necessidade de um período curto de dias é, aliás, absolutamente indispensável para regular atividades periódicas que não se repetem diariamente. É também necessário que quem trabalha tenha um dia de descanso, ou pelo menos de alternância, após alguns dias de esforço mais ou menos penoso, e que o regresso desse dia seja regulado periodicamente. É uma necessidade tanto para a saúde do corpo como para a integridade do espírito. Quanto à duração desse período, ela depende de condições fisiológicas que a limitam e de considerações económicas que impedem que os dias de descanso sejam demasiado numerosos e próximos; não se pode negar que a semana, com descanso de sete em sete dias, responde perfeitamente a essas duas condições. A Convenção quis substituí-la pela década, mas a década era longa demais; na prática, dividia-se em duas e tomava-se um descanso de cinco em cinco dias. Reprovou-se à semana o facto de conter um número primo de dias e, por isso, não se prestar a divisões; pelo contrário, abstraindo do domingo, os seis dias de trabalho podem repartir-se facilmente em dois ou três grupos, circunstância muito prática para organizar tarefas que se renovam de dois em dois ou de três em três dias, sem contar o domingo. De resto, esta pequena duração só pode ter sido considerada muito conveniente para que o seu uso se tivesse espalhado de forma tão universal. Qualquer tentativa de alteração da semana seria evidentemente muito mal acolhida pelo público e não teria qualquer hipótese de êxito.
6.º A falta de concordância entre os dias da semana e as datas do ano é, sem dúvida, o defeito mais grave do Calendário atualmente em uso: as festas fixadas em datas invariáveis calham em todos os dias da semana, conforme os anos. As nossas atividades acabam assim reguladas por duas contagens distintas, as datas e os dias da semana, que se sucedem independentemente uma da outra e obrigam a verificações sempre que é necessário determinar a sua correspondência. Daí resulta uma fonte de incómodos e desajustes: prazos e compromissos marcados com antecedência podem cair num domingo, e essa coincidência traz atrasos e perda de tempo. Todos estes inconvenientes desapareceriam se fosse possível pôr em acordo os dias da semana com as datas do ano; em suma, construir um Calendário que fosse o mesmo para todos os anos e suficientemente simétrico para se memorizar facilmente. É precisamente nisso que deve consistir a parte capital da reforma proposta.
7.º Todos os inconvenientes que resultam da falta de concordância entre os dias da semana e as datas do ano reaparecem, embora em grau menor, devido à falta de concordância entre os dias da semana e as datas de cada mês. Seria evidentemente muito desejável que a mesma data do mês caísse no mesmo dia da semana nos doze meses do ano; infelizmente, é praticamente impossível realizar tal combinação sem introduzir no Calendário alterações inadmissíveis. A questão será estudada mais adiante.
8.º Já explicámos suficientemente como e porquê a divisão decimal dos períodos de tempo mais usuais é impossível de realizar; é evidente que tal divisão não poderia conciliar-se nem com o ano gregoriano, nem com o mês, nem com a semana.
9.º A data de início do ano variou muitas vezes ao longo dos séculos. Os antigos romanos faziam começar o ano a 1 de março. Daí vieram as designações quintilis, sextilis, september, october, november e december, aplicadas respetivamente aos meses que ocupavam o 5.º, 6.º, 7.º, 8.º, 9.º e 10.º lugares. O mês de fevereiro, consagrado ao culto dos mortos e às cerimónias fúnebres, encerrava o ano. No fim da República romana, o mês quintilis foi dedicado a Júlio César e passou a chamar-se Julius. Mais tarde, sextilis foi dedicado ao imperador Augusto com o nome de Augustus, que, por contração, deu o nome francês de agosto. Por fim, no Império, alguns imperadores quiseram ver consagrado em seu nome um dos quatro últimos meses; mas essas tentativas, ridiculamente vaidosas, não foram sancionadas pela posteridade, e os quatro meses em causa conservaram, através dos séculos, os nomes que tinham recebido segundo a sua posição no Calendário romano. Carlos Magno, querendo que o começo do ano fosse santificado por uma importante cerimónia religiosa, fixou-o na festa do Natal, embora esta, por cair a 25 de dezembro, não coincidisse com o início de nenhum mês.
Sob os reis capetíngios, a festa do Natal foi substituída pela festa da Páscoa, embora esta fosse móvel e estivesse longe de reaparecer todos os anos na mesma data. Dessa prática singular resultava uma irregularidade perpétua dos anos. Assim, o ano de 1347 começou a 1.º de abril e só terminou a 20 de abril do ano seguinte, de modo que todas as datas compreendidas entre 1 e 20 de abril ficaram repetidas duas vezes no mesmo ano, no primeiro mês e no décimo terceiro. Um tal estado de coisas era evidentemente muito incómodo e continua a ser, ainda hoje, uma fonte constante de erros para os cronologistas. Para lhe pôr termo, Carlos IX promulgou, em 1563, um édito que prescrevia que o ano de 1564 e os seguintes começassem a 1 de janeiro. Restabelecia-se assim uma prática antiga, antes seguida na Alemanha, depois abandonada e novamente retomada em 1500.
A Igreja recusou-se durante muito tempo a submeter-se a uma regra que parecia colocar os primeiros dias do ano sob a invocação de uma divindade pagã, Jano, a quem o mês de janeiro era consagrado no Calendário dos antigos romanos; mas, por fim, as razões de conveniência e de comodidade prevaleceram sobre os motivos supersticiosos, e hoje quase todas as nações civilizadas fazem começar o ano em 1 de janeiro.
A Inglaterra só se resignou, em 1751, a adotar essa regra já seguida há dois séculos por todos os povos do continente. Foi lorde Chesterfield quem promoveu o bill segundo o qual o ano de 1752 deveria começar em 1 de janeiro, em vez de 25 de março, como era costume nos anos anteriores. Daí resultou que o ano de 1751 não chegou a completar-se e teve apenas nove meses. O povo inglês era então tão ignorante e supersticioso que se resignou com dificuldade a «envelhecer um ano em nove meses». Lorde Chesterfield quase foi vítima da fúria popular, que o perseguia no meio de tumultos a gritar desesperadamente: Rendez-nous nos trois mois [«devolvam-nos os nossos três meses»], como se uma mudança no modo de contar os anos pudesse provocar uma mudança real na idade de alguém.
Compreende-se agora, à luz desses acontecimentos, como surgiram as bizarrices e as designações ilógicas que constituem certamente uma das imperfeições mais flagrantes do nosso Calendário atual. É assim que os meses chamados setembro, outubro, novembro e dezembro são, na realidade, o nono, o décimo, o décimo primeiro e o décimo segundo do ano. É verdade que a data de 1 de janeiro nada tinha de particularmente recomendável para servir de início. É seguramente lamentável que o édito de Carlos IX não tenha fixado o começo do ano em 1 de março, o que, por um lado, o teria aproximado da primavera e, por outro, teria mantido, para os quatro meses com nomes numéricos, a razão das suas designações. Melhor ainda seria que o ano começasse numa época marcada por uma circunstância astronómica particular do movimento da Terra em torno do Sol.
Se se tratasse de elaborar um projeto de Calendário teórico, ou se tivéssemos liberdade para alargar a reforma tanto quanto desejaríamos, seria evidentemente necessário determinar o início do ano com base em considerações astronómicas. Haveria então escolha entre dois sistemas: o primeiro consistiria em escolher como data de início do ano a data média de um dos dois equinócios ou de um dos solstícios; nesse caso, o equinócio da primavera pareceria a data mais racional. O segundo sistema consistiria em dividir o ano em quatro períodos, cada um com o seu centro numa dessas quatro épocas astronómicas. Esta solução foi proposta numa das memórias; parece-nos inferior à primeira, porque os quatro períodos em que se divide o ano, bastante simétricos, é verdade, do ponto de vista do movimento da Terra e da duração dos dias e das noites, que dependem apenas da declinação do Sol, sê-lo-iam muito menos no que respeita aos fenómenos meteorológicos e à distribuição da temperatura. É incontestável que as variações da temperatura influenciam muito mais o desenvolvimento da vegetação, bem como todos os fenómenos vitais, e têm muito mais importância prática do que a simples duração dos dias e das noites. Os fenómenos meteorológicos manifestam, aliás, um atraso considerável, perfeitamente explicável, em relação aos fenómenos astronómicos que lhes dão origem. Assim, para citar apenas um exemplo, o máximo da temperatura anual ocorre muito depois do solstício de verão, que certamente não tem título para receber o nome de meio do verão. Do mesmo modo, não se pode qualificar de primavera o período que vai de 3 de fevereiro a 5 de maio. Daríamos, portanto, preferência ao primeiro método, por estar mais conforme à sucessão dos fenómenos meteorológicos. Mas, na prática, uma reforma desta natureza apresentaria um inconveniente grave. Se ainda se tratasse apenas de mudar a data de início do ano e transportá-la de 1 de janeiro para o princípio de outro mês, o inconveniente reduzir-se-ia a diminuir ou aumentar de alguns meses o ano em que se operasse a reforma; mas as épocas dos equinócios caem a 20, 21 ou 22 de março e de setembro: seria então necessário reduzir um desses meses a 20 ou 22 dias para fazer coincidir o equinócio com o início do novo mês. Tal modificação traria uma perturbação considerável dos hábitos; tornar-se-ia fonte de erros e complicaria, nos anos seguintes, o cálculo dos dias decorridos entre uma data do estilo antigo e uma data do novo estilo. Haveria certamente aí um motivo de resistência por parte das populações, resistência essa que poderia comprometer o sucesso da reforma.
Não hesitaríamos, ainda assim, em propor essa mudança se daí resultassem vantagens futuras capazes de compensar os incómodos momentâneos da reforma; mas é preciso reconhecer que fixar o início do ano numa data astronómica constituiria apenas uma satisfação especulativa dada ao espírito de ordem e simetria de pessoas um pouco versadas em Astronomia. Não se consegue imaginar que vantagem material daí adviria. Na prática, o dia do equinócio não se distingue nem dos anteriores nem dos seguintes. Os fenómenos meteorológicos seguem incontestavelmente o movimento da Terra nas suas manifestações gerais; mas as perturbações locais e acidentais são tão consideráveis que o dia do equinócio da primavera de um certo ano em nada se parece com o do ano seguinte. Acrescente-se que, em consequência da sucessão de anos demasiado curtos de 365 dias e de anos demasiado longos de 366 dias, o equinócio não cai todos os anos no mesmo dia do mês; a sua data varia atualmente entre 19 e 21 de março. Trata-se de uma circunstância astronómica inevitável; o próprio objetivo da reforma não ficaria, portanto, totalmente atingido, e o equinócio cairia ora no último dia do ano, ora no primeiro, e até no segundo. Finalmente, o equinócio da primavera, no hemisfério boreal, é o equinócio de outono no hemisfério austral, e as razões que levariam a preferir um dos dois equinócios seriam, em qualquer caso, aplicáveis apenas a um dos hemisférios. Por estes motivos, entendemos que a data de início do ano é uma questão de importância secundária e que não convém aumentar, por este motivo, as dificuldades que acompanham qualquer projeto de reforma. Julgamos prudente deixar este ponto fora da reforma projetada e conservar a data de 1 de janeiro, hoje tão universalmente adotada. Para harmonizar os nomes dos quatro últimos meses com a sua posição, o futuro poderá modificá-los, como o passado modificou os outros. Isso seria mais simples, para os cálculos cronológicos futuros, do que fazer começar o ano em 1 de março, data agradável para o nosso hemisfério, mas não para o hemisfério austral.
10.º A era cristã foi vivamente criticada em várias memórias. É incontestável que a escolha desta era é essencialmente arbitrária e foi motivada por considerações extraídas de uma religião que, embora muito difundida, não é a de todos os homens civilizados da Terra. Essa escolha carece evidentemente do carácter de universalidade que seria tão desejável. Além disso, a era cristã nem sequer corresponde à sua própria definição; os melhores cálculos cronológicos concordam em fixar no ano -3 a data do nascimento de Jesus Cristo. Do ponto de vista prático, o uso da era cristã apresenta o inconveniente de dividir as datas históricas em duas categorias: datas depois de Cristo, ou positivas, e datas antes de Cristo, ou negativas, o que obriga a empregar processos de cálculo diferentes na comparação das datas, conforme se trate de datas positivas, negativas ou de espécies diferentes. Acrescente-se que não foi contado o ano 0, sucedendo o ano +1 imediatamente ao ano -1 na cronologia habitual. Daí resulta que, se quisermos calcular, por exemplo, o número de anos decorridos desde uma data negativa, não basta somar os dois anos: é preciso subtrair ainda uma unidade ao resultado. Assim, a data da fundação de Roma, adotada na antiga cronologia romana, corresponde ao ano -753 da era cristã. Desde a fundação de Roma até à época atual de 1886, decorreram, portanto, 1886 + 753 - 1 = 2638 anos. Sem dúvida que estes inconvenientes não são muito graves; mas mostram bem em que sentido deveria operar-se uma reforma destinada a fazê-los desaparecer.
Muitas pessoas atribuem grande importância às questões de escolha de origem. Para os homens com alguma prática das ciências exatas, essa ideia é totalmente falsa. A escolha de uma origem é, em geral, uma escolha essencialmente arbitrária. Já vimos há pouco um exemplo disso a propósito do início do ano; vemos aqui outro. Sem dúvida, há casos em que a escolha pode ser determinada por certas considerações de conveniência: é o caso do começo do dia, fixado à meia-noite, e também da escolha do primeiro meridiano na superfície da Terra, sobre a qual os povos civilizados ainda não conseguiram chegar a acordo. Mas, na maioria das vezes, tais considerações não existem. A melhor origem é então aquela que é aceite por todos, e as qualidades que se devem procurar numa nova escolha, quando houver motivo para a fazer, são: 1.º que a origem proposta não recorde nenhuma circunstância particular de um povo mais do que de outro, para que nada se oponha à sua adoção universal, pois é este o ponto principal; 2.º que a origem seja suficientemente recuada para evitar, tanto quanto possível, o uso de números negativos. Fora destas duas condições, não há geralmente nada que diminua o arbítrio.
É bem evidente que uma era começando numa data mais próxima de nós do que o nascimento de Jesus Cristo aumentaria o incómodo resultante das datas positivas e negativas. Seria preciso, pelo contrário, adotar uma era convencional começando numa data arbitrária, mas suficientemente distante para que a maioria dos acontecimentos da história do mundo fosse representada por datas positivas. Como, ainda assim, em alguns casos raros, poderia ser necessário usar datas negativas, seria também preciso convencionar que se contaria um ano 0 entre os dois tipos de datas. Quanto aos projetos de instituir uma nova era começando em algum grande acontecimento histórico dos tempos modernos, como por exemplo a era da Revolução Francesa, a era da Renascença, ou ainda a era da invenção da Imprensa, ou da descoberta da América, que encontrámos propostas em algumas memórias, são projetos assentes em ideias sentimentais certamente respeitáveis, mas sobre as quais não podemos deter-nos em razão das considerações práticas já expostas acima. De resto, a questão da era é inteiramente diferente da questão do Calendário. Como já o dissemos muitas vezes, trata-se aqui de distribuir da maneira mais cómoda e simétrica os 365 dias que compõem o ano. Isso pode fazer-se independentemente de qualquer regra sobre a numeração dos anos sucessivos. Entendemos, portanto, que não há motivo para procurar modificar, por esta questão, hábitos com quase vinte séculos, e que a reforma não deve incidir nesse ponto. A questão da era ficará assim mais reservada do que afastada, e nada impedirá, mais tarde, se se julgar útil, propor nova reforma que deveria, em qualquer caso, limitar-se a acrescentar 3000 ou 4000 unidades aos anos de toda a era cristã.
11.º Já explicámos acima a origem das principais incoerências apresentadas pelos nomes dos meses. Resta-nos dizer uma palavra sobre os nomes atribuídos aos sete dias da semana. À parte domingo, que é uma contração de dominica (dies), dia do Senhor, esses nomes são tirados dos nomes dos planetas: Lunae dies, Martis dies, Mercurii dies, Jovis dies, Veneris dies e Saturni dies, etc. Perguntou-se por que razão eles não seguem a ordem das distâncias sucessivas dos planetas ao Sol.
Eis a razão: segundo Dion Cássio, ela remonta a uma prática outrora usada entre os antigos egípcios, a de consagrar às diferentes planetas as horas sucessivas do dia. Supunha-se que os sete planetas então conhecidos, incluindo a Lua e o Sol, giravam em torno da Terra e estavam tanto mais afastados quanto mais tempo levavam a completar a sua revolução. A ordem da sua sucessão era, portanto, segundo as distâncias decrescentes: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio, Lua. A primeira hora de um certo dia era, por exemplo, consagrada a Saturno, a segunda a Júpiter, e assim sucessivamente. Então, a 1.ª, a 8.ª, a 15.ª e a 22.ª horas eram consagradas a Saturno, a 23.ª a Júpiter, a 24.ª a Marte, e a 1.ª hora do dia seguinte ao Sol. Calculando da mesma forma, vê-se que a primeira hora do dia seguinte era consagrada à Lua, e assim por diante. Cada dia, tomando o nome do planeta que presidia à sua primeira hora, reencontra-se, prosseguindo o cálculo, a própria ordem dos dias da semana, desde que se faça corresponder o domingo ao Sol, seguindo nisso o uso antigo que deixou vestígios no nome de domingo em certas línguas: Sunday em inglês, Sonntag em alemão. Vê-se a que épocas recuadas remontam as designações do nosso Calendário e que razões bizarras, pouco em harmonia com as nossas ideias modernas, contribuíram para a sua adoção. Não cremos, contudo, que seja necessário mudá-las. Estamos tão habituados a elas que já não chocam, e o seu desaparecimento não produziria outro efeito além de uma simples satisfação intelectual. É certo que essas designações não são causa de qualquer inconveniente prático. Acrescente-se que a questão dos nomes deve, no nosso entender, permanecer completamente fora do nosso trabalho. Infelizmente, há mais pessoas do que se pensa a atribuir importância exagerada às palavras e a acreditar que algo foi realmente mudado ou melhorado quando apenas se alterou um nome. Quanto a nós, entendemos que a nossa tarefa é fazer a repartição dos meses e dos dias do ano; depois, cada povo lhes dará os nomes que lhe convierem, isso já não nos diz respeito. De resto, confessamos que encontramos certo encanto nestas velhas denominações bizarras e incoerentes, que nos transportam para tempos desaparecidos e nos fazem pensar nas lendas e superstições dessas épocas distantes: é como um eco dos séculos passados que regressa periodicamente para nos lembrar que, afinal, somos filhos dos homens de então e que a civilização de que tanto nos orgulhamos é obra lenta e fruto penosamente amadurecido dos esforços das gerações que nos precederam.
IV
Há ainda outro ponto que certo número de autores considerou dever abordar nas suas memórias: a questão da divisão do dia em horas. A antiga divisão em vinte e quatro horas, recomendável pela antiguidade e pela generalidade do seu uso, tem o inconveniente de não se prestar facilmente aos cálculos de duração. Todos os que já tiveram de efetuar cálculos deste tipo sabem como é penosa a conversão de segundos, minutos e horas em frações decimais do dia, e vice-versa. É profundamente lamentável que as ideias que presidiram à revisão do antigo sistema de pesos e medidas e ao estabelecimento do sistema métrico não tenham conduzido a uma reforma completa da nossa maneira de contar o tempo e à instituição de horas decimais. Bastam alguns instantes de reflexão sobre os princípios da Astronomia esférica para nos convencermos de que a divisão do dia se liga à divisão da circunferência, e que uma reforma da medida do tempo deveria ter por consequência, ou antes por acompanhamento necessário, uma reforma da medida dos ângulos. Mas, em rigor, esta questão, embora esteja evidentemente ligada à do Calendário, é contudo distinta dela, e entendemos que não há motivo para a abordar neste momento; pensamos que agir de outro modo talvez não estivesse conforme ao espírito do generoso benfeitor cujas liberalidades deram origem aos numerosos trabalhos submetidos à nossa apreciação; entendemos, no entanto, que a questão fica inteiramente reservada e até cremos que nos será permitido emitir sobre ela a nossa opinião. Pela nossa parte, ficaríamos satisfeitos se se regressasse, para a medida dos ângulos, à divisão do ângulo reto em 100 graus decimais, segundo o voto da antiga Comissão do Sistema Métrico, e se, por corolário necessário, se adotasse uma divisão do dia médio em 40 horas, correspondendo cada hora a uma rotação diurna aparente do Sol médio de 10 graus. Mas, repetimo-lo, formulamos esta opinião apenas como simples voto, porque consideramos esta questão fora do objeto do presente relatório.
V
Parece-nos resultar das discussões anteriores que a reforma projetada deve manter-se estritamente nos limites indicados pelos autores dos dois artigos de L'Astronomie, novembro de 1884, p. 409, e agosto de 1885, p. 287.
O único problema a resolver consiste, portanto, em distribuir os dias do ano de tal forma que as durações dos vários meses difiram o menos possível e, sobretudo, que as mesmas datas do ano caiam sempre nos mesmos dias da semana. Quanto a esta última condição, é evidente que só há duas soluções possíveis. A primeira consiste em compor o ano com um número exato de semanas. Sabe-se que 365 dias formam 52 semanas e 1 dia. Haveria então, nesta perspetiva, que estabelecer anos deficientes de 52 semanas e anos abundantes de 53 semanas; a repartição dos anos abundantes entre os anos deficientes deveria ser objeto de um trabalho especial, análogo ao que foi feito para a intercalação dos anos bissextos no Calendário gregoriano. Seria necessário que a regra de intercalação fosse prática e simples, e que a duração média dos anos do ciclo fosse tão próxima quanto possível da do ano trópico. A aritmética fornece uma solução muito fácil para um problema deste género. Sabe-se que basta exprimir a duração do ano tomando a semana como unidade de tempo e desenvolver o número obtido em fração contínua. As sucessivas reduzidas darão durações aproximadas, cujo denominador fornecerá o número de anos que deverá compor o ciclo, enquanto o numerador indicará o número de semanas a distribuir entre todos os anos do ciclo; é numa feliz repartição desse número de semanas que residirá sobretudo a habilidade do autor do projeto. Mas as reduzidas, tal como a aritmética as fornece diretamente, podem conduzir a regras de intercalação incómodas; pode haver vantagem em substituir uma dessas reduzidas por uma fração próxima que, embora menos aproximada da verdadeira duração do ano trópico, dê ainda assim uma aproximação suficiente e tenha a vantagem de fornecer uma regra de intercalação mais simples e mais prática. Recebemos dois projetos concebidos nesse sentido; teremos ocasião de voltar a eles, mas não insistimos mais, por agora, porque pensamos que esta solução apresenta inconvenientes demais para ser praticamente aceitável. Já se censurou o ano gregoriano por ser ora de 365 dias ora de 366 dias. Que se diria se o ano do novo Calendário fosse ora de 364 dias ora de 371 dias? Essa semana intercalar não seria fonte de incómodo e perturbação nas transações comerciais e na liquidação de salários ou honorários dependentes do tempo decorrido? Parece-nos que é preciso reduzir ao mínimo a diferença de duração entre os anos sucessivos, já que o ano serve de unidade de tempo e a propriedade de uma unidade de medida é ser sempre igual a si mesma. Não se pode evitar a diferença de um dia; não se deve aumentá-la arbitrariamente.
A segunda solução exige que, num determinado momento, se interrompa a sucessão contínua dos dias da semana. Não escondemos que se trata de algo sério, que talvez pareça dificilmente aceitável para um grande número de pessoas; mas, refletindo bem, reconhecer-se-á que a semana não merece o caráter inviolável que se tende a atribuir-lhe. Explicámos acima por que razão queremos conservá-la; mas uma rutura acidental e pouco frequente da sucessão dos sete dias tradicionais parece-nos atingir apenas preconceitos muito enraizados, é verdade, mas tanto mais desenraizáveis quanto a medida proposta poderia passar quase despercebida e não acarretaria, com certeza, qualquer inconveniente positivo. Seria necessário compor os anos comuns de 52 semanas mais um dia que não receberia nenhum dos sete nomes consagrados e seria contado fora de qualquer septenário; nos anos bissextos, haveria dois desses dias suplementares. É claro que a época mais cómoda para essa intercalação, que se repetiria necessariamente todos os anos, seria a da renovação do ano, sendo o primeiro dia do ano um dia festivo geralmente designado por dia de Ano Novo, durante o qual as ocupações habituais ficam suspensas e ao qual, por conseguinte, em geral não se atribui nenhum dos sete nomes do septenário. Pode quase dizer-se que, atualmente, o dia de Ano Novo está realmente fora da semana e nela deixa um vazio. É esse vazio que nos propomos preencher. Assim, o problema ficará resolvido, pelo menos para os anos comuns. Quanto aos anos bissextos, a questão seria um pouco mais delicada; mas pensa-se realmente que haveria grande inconveniente em dar a esse dia complementar, que só reaparece de quatro em quatro anos, um carácter festivo análogo ao do dia de Ano Novo? Cremos que o público se habituaria muito depressa a ter dois dias de festa em vez de um, de quatro em quatro anos. A solução que acabamos de indicar não é, no fundo, senão a que foi desenvolvida no segundo dos dois artigos a que há pouco nos referimos; acreditamos que é a única prática, a única aceitável, e que a sua adoção pela maioria das nações civilizadas constituiria a verdadeira reforma do Calendário. Resta, naturalmente, distribuir da forma mais simétrica as 52 semanas do ano; e é nisso que se diferenciam os projetos cujos autores se colocaram neste terreno e que, por consequência, nos pareceram merecer a maior atenção.
VI
ESTUDO DOS DIVERSOS PROJETOS PROPOSTOS.
Os projetos absolutamente conformes ao programa que acabámos de desenvolver são três. Aquele que nos pareceu mais felizmente combinado traz o n.º 39 da nossa coleção; eis a sua estrutura:
O ano é dividido em quatro trimestres iguais de 91 dias cada, repartidos por três meses, sendo o primeiro de 31 dias e os outros dois de 30 dias. Cada trimestre contém assim exatamente 13 semanas. Daí resulta que os mesmos dias da semana recaem nas mesmas datas não só todos os anos, mas também em todos os trimestres; esta simplificação pareceu-nos muito vantajosa, na medida em que não será difícil, com o hábito forçado que o uso contínuo deste Calendário dará, aprender de cor a distribuição dos 91 dias em três meses; como os meses correspondentes de cada trimestre são absolutamente semelhantes entre si, haverá apenas três meses a memorizar. Os doze meses do ano, cujos nomes são conservados, formam assim 364 dias; para completar o ano, o 365.º dia é colocado no início do ano, fora da semana e fora dos meses; dar-se-lhe-á o nome que se quiser, o autor não propõe nenhum. Será, se se quiser, o «dia de Ano Novo» ou janeiro 0. Mas esse dia de Ano Novo não será nem o primeiro de janeiro, nem o primeiro dia da primeira semana. O mês de janeiro começará numa segunda-feira, que será o segundo dia do ano; terá 31 dias. Os meses de abril, julho e outubro começarão igualmente numa segunda-feira e terão 31 dias; os de fevereiro, maio, agosto e novembro começarão numa quinta-feira e terão 30 dias; os quatro restantes começarão num sábado e terão 30 dias. O autor atribui certa importância ao facto de o primeiro dia de cada mês ser um dia útil, para facilitar transações e a fixação de vencimentos, tão frequentemente estabelecidos para o dia 1 do mês; essa consideração parece-nos, de facto, ter valor do ponto de vista prático. Quanto ao 366.º dia dos anos bissextos, seria colocado no fim do ano, sob um nome qualquer, mas o autor pede que ele fique fora dos meses e também fora das semanas, e que não se faça dele um 31 de dezembro.
O autor aborda, mas sem insistir, a questão do início do ano; pensa, como nós, que seria desejável avançar o início do ano cerca de dez dias, para o transportar para as proximidades do solstício; veria nisso também a vantagem de que, aceitando assim um certo sacrifício dos nossos hábitos, talvez levássemos mais facilmente os povos do Oriente da Europa a adotar o Calendário comum; poderia talvez objetar-se que, sem mudar o início do ano, os povos eslavos só teriam 12 dias a suprimir para ficarem de acordo connosco, ao passo que, na hipótese indicada, teriam 22; mas não temos de insistir nesse ponto, já que o próprio autor se assusta com a dificuldade de fazer adotar essa segunda reforma e a assinala, diz ele, apenas «a título de memória». Como se vê, este projeto é totalmente conforme às ideias que, a nosso ver, devem dominar o espírito da reforma, e a distribuição dos dias e dos meses apresenta a simetria mais feliz. Não acreditamos que se encontre muita resistência em aceitar a contagem, fora dos meses, de dias tão excecionais como o primeiro dia do ano e o dia complementar dos anos bissextos.
O projeto n.º 24 apresenta muita analogia com o anterior. O autor enviou-nos apenas um quadro simples, sem texto explicativo; mas não lhe podemos censurar essa sobriedade. Tal como no n.º 39, o ano divide-se em quatro trimestres iguais cujos três meses têm, respetivamente, 31 dias, 30 dias e 30 dias, o que perfaz exatamente 13 semanas, de modo que aqui também os quatro trimestres são absolutamente semelhantes. Há, contudo, exceção para dezembro, que conta 31 dias nos anos comuns e 32 dias nos anos bissextos. O ano começa num domingo, em 1 de janeiro. Há assim quatro meses que começam num domingo; o segundo mês de cada trimestre começa numa quarta-feira e o terceiro numa sexta-feira; 30 de dezembro é sábado; o dia 31 não recebe nome de semana e chama-se completudi ou compledi; o dia 32, nos anos bissextos, chama-se bissextudi ou bissexdi. Este projeto pareceu-nos algo inferior ao anterior, por duas razões principais: a primeira é que o dia sem nome semanal não coincide com o dia festivo tradicional de Ano Novo; a segunda é que, além de janeiro, há três meses que começam num domingo, os de abril, julho e outubro. Pensamos que, para a prática dos negócios, é mais vantajoso que todos os meses comecem em dias úteis. Por fim, não apreciamos muito um mês de 32 dias e preferimos a combinação que coloca os dias suplementares fora dos meses. Quanto a fazer começar o ano num domingo, sabemos bem que, segundo a tradição judaico-cristã, o domingo é o primeiro dia da semana; mas, na prática, tende-se antes a considerar o dia de descanso como o último do septenário e, além disso, não é por uma tradição desta natureza que convém regular-se. É sobretudo preciso considerar as comodidades que possam resultar do conjunto do projeto.
O n.º 1 corresponde também bastante bem ao programa que entendemos adotar. Este projeto chegou-nos sob a forma de um quadro impresso, datado de 1881. O autor não adotou a divisão cómoda e simétrica em quatro trimestres iguais. Os doze meses sucessivos têm alternadamente 30 dias e 31 dias, salvo o décimo segundo, que por essa lógica deveria ter 31, mas conta apenas 30 nos anos comuns e 31 nos anos bissextos. Os meses são designados por simples números de ordem, tendo o autor entendido reservar por completo a questão das designações e também a do início do ano. Como no n.º 39, o primeiro dia do ano não tem nome semanal; o autor propõe para esse dia o nome de annidi ou de heliodi, ou ainda de equinodi ou solstidi, se se quiser fazer começar o ano no equinócio ou no solstício. Este primeiro dia do ano conta como o primeiro do primeiro mês; o segundo dia do primeiro mês é uma segunda-feira, e o ano comum termina num domingo. Nos anos bissextos, o 31.º dia do último mês fica ainda fora da semana, sob o nome de bissextidi. Este projeto não oferece a simetria tão notável dos dois anteriores: os doze meses começam indiferentemente em todos os dias da semana. Além disso, devemos considerá-lo incompleto, pois o autor não dá a sua opinião sobre a data do início do ano e suprime as designações usuais dos meses sem dizer como pretende substituí-las. Pensamos, ainda assim, que merece distinção, embora a título inferior aos dois anteriores.
Fora desses três projetos, que respondem de forma mais ou menos completa às exigências que tão longamente desenvolvemos, vários trabalhos chamaram a nossa atenção e pareceram-nos dignos de menção especial: o projeto n.º 19 assegura antes de mais a concordância dos dias da semana com os meses, colocando fora da semana o primeiro dia do ano, a que chama annidi, e que é ao mesmo tempo o primeiro dia do primeiro mês. O dia 2 do mesmo mês é uma segunda-feira e o ano comum termina num domingo. Nos anos bissextos, o 366.º dia chama-se bissexdi. O autor atribui grande importância a que o Calendário seja, por assim dizer, a imagem da viagem anual da Terra em torno do Sol. Em consequência, como tem sobretudo em vista o hemisfério boreal, que é o mais habitado, quer assegurar uma maior duração aos meses de verão e, para o conseguir, distribui em maior número nessa estação os meses de 31 dias. Além disso, preocupa-se em que as épocas dos solstícios e equinócios, que considera como meias-estações, caiam no meio dos meses. Pede, portanto, que o início do ano seja deslocado para o meio do intervalo entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera, isto é, para o atual dia 4 de fevereiro. Conserva os nomes dos meses, mas o primeiro mês do seu ano chama-se março, de modo que todos os meses ficariam adiantados, em média, 35 dias. As durações respetivas dos meses são as seguintes: março, 30 dias; abril, 30; maio, 31; junho, 30; julho, 31; agosto, 31; setembro, 30; outubro, 31; novembro, 30; dezembro, 31; janeiro, 30; fevereiro, 30. Por fim, os dias dos solstícios e equinócios são designados como festas civis, com os nomes de meio da primavera, meio do verão, etc. Este conjunto de disposições recomenda-se, evidentemente, por qualidades sérias e constitui um sistema bem estudado, cujos detalhes estão perfeitamente justificados do ponto de vista teórico. Mas, do ponto de vista prático, que é sobretudo aquele que nos cabe considerar, não se pode negar que este Calendário não apresentaria a mesma comodidade que o dos n.os 39 e 24, e deve reconhecer-se que as modificações propostas, sobretudo quanto ao início do ano e ao deslocamento dos meses, vão além do necessário e provavelmente do que é possível obter.
Nos projetos n.º 6 e 25, os autores propuseram-se estabelecer a concordância dos dias da semana com as datas do ano, compondo o ano com um número exato de semanas. Em consequência, os seus anos são ora deficientes ora abundantes; os anos deficientes têm 52 semanas, ou 364 dias, e os abundantes 53 semanas, ou 371 dias. Foi-lhes também necessário preocupar-se com a regra de intercalação dos anos abundantes entre os anos ordinários. Os dois autores chegaram a combinações um pouco diferentes, mas que atribuem ambas ao ano médio uma duração igual à do ano gregoriano; isto é, o seu ciclo abrange um período de 400 anos e conta exatamente o mesmo número de dias que o ciclo de igual duração do Calendário gregoriano. Note-se, de facto, que os 400 anos do ciclo gregoriano compreendem um número exato de semanas. Contêm, com efeito, (365 x 400 + 97) dias, ou (364 x 400 + 497) dias. Ora, sendo 364 múltiplo de 7, o mesmo acontece com 364 x 400. Os 497 dias restantes formam exatamente 71 semanas. A repartição dessas 71 semanas em 400 anos constituía o problema que os dois autores procuraram resolver. A solução do n.º 25 parece preferível, porque faz intervir apenas dois tipos de anos: os de 52 semanas e os de 53 semanas. Segundo o projeto, seriam abundantes todos os anos cujo número fosse divisível por 5 sem o ser por 40, a menos que o fosse por 400. Deste modo, o número de semanas suplementares contadas em 400 anos seria:
400/5 - 400/40 +1 = 80-10+1=71
No n.º 6, o autor, seduzido por uma regularidade aparente maior, só suprime o ano abundante quinquenal de 50 em 50 anos em vez de 40; mas então vê-se obrigado, no fim do ciclo de 400 anos, a estabelecer um ano que se poderia chamar bideficiente, com apenas 51 semanas. Assim, segundo ele, seriam abundantes todos os anos cujo número fosse divisível por 5 sem o ser por 50, com a exceção de que qualquer ano cujo número seja divisível por 400 teria apenas 51 semanas. O número de semanas intercalares continua a ser 71:
400/5 - 400/50 -1 = 80-8-1 = 71.
Este sistema teria o inconveniente de estabelecer entre os vários anos uma diferença que pode ir até 14 dias; a data do equinócio oscilaria assim num intervalo de 14 dias, isto é, de 10 a 24 de março, enquanto no n.º 25 essa oscilação ficaria reduzida a uma amplitude de 7 dias. Outra diferença assinala ainda os dois projetos: o n.º 6 pede a supressão total dos meses e propõe simplesmente numerar as semanas do ano de 1 a 52. Dataria-se, por exemplo, quarta-feira 43. Já explicámos longamente as razões que nos impedem de aceitar esta proposta. O n.º 25 conserva os meses, mas fá-los alternadamente de 28 dias, ou 4 semanas, e de 35 dias, ou 5 semanas, para assegurar a concordância dos dias da semana com as datas de todos os meses. Pede também que o ano comece no mês de março; a disposição que adota é a seguinte:
ANO DEFICIENTE OU COMUM.
| Março | 28 | 91 | Setembro | 28 | 91 |
| Abril | 35 | Outubro | 35 | ||
| Maio | 28 | Novembro | 28 | ||
| Junho | 28 | 91 | Dezembro | 28 | 91 |
| Julho | 35 | Janeiro | 35 | ||
| Agosto | 28 | Fevereiro | 28 |
O ano deficiente fica assim repartido em quatro trimestres iguais e semelhantes; nos anos abundantes, é o mês de fevereiro, último do ano, que passa para 35 dias. Estes dois projetos são perfeitamente estudados e parecem realizar, sobretudo o n.º 25, o melhor que se pode fazer do ponto de vista dos seus autores. Mas as mudanças que forçariam a introduzir nos hábitos, e a desigualdade entre anos de 364 e 371 dias, constituem, a nosso ver, uma inferioridade manifesta face aos anteriores.
O n.º 25 não é o único em que se procurou realizar uma concordância perfeita entre os dias da semana e as datas dos meses, pela introdução de meses de 28 e 35 dias; temos ainda mais quatro a assinalar. Neles, o ciclo gregoriano é inteiramente conservado e o acordo é restabelecido no fim de cada ano pela introdução de um dia complementar. O n.º 30 é talvez o melhor dos que se baseiam neste sistema. O dia complementar é colocado no início do ano, fora da semana e dos meses: é o dia de Ano Novo. O resto do ano divide-se em quatro trimestres iguais e semelhantes, formados por um primeiro mês de 28 dias, um segundo de 35 e um terceiro de 28. Os anos bissextos têm, além disso, um 366.º dia anónimo; o autor não diz onde o coloca. O segundo dia do ano, que é o primeiro dia do trimestre, é um domingo; o ano comum termina, portanto, num sábado.
No n.º 26, o dia complementar é colocado no fim do ano, que se divide em quatro trimestres, tendo o primeiro mês de cada trimestre 35 dias e os outros dois 28, salvo o décimo segundo e último, que tem 29 nos anos comuns e 30 nos anos bissextos. O autor do n.º 26 é o único que se preocupou com a época em que conviria efetuar a reforma. Recomenda, para esse efeito, um ano que comece num domingo, uma vez que todos os seus anos começam nesse dia.
O n.º 13 não diz onde quer colocar o dia complementar; pede que o ano comece no equinócio da primavera. Recebemos e classificámos sob o n.º 4 um conjunto com nada menos de doze projetos concebidos segundo ideias muito diferentes. Entre eles, há três conformes ao princípio dos dois anteriores e que diferem entre si apenas pela posição do mês de 35 dias no trimestre; é evidente, de facto, que esse mês de 35 dias pode ser colocado no 1.º, no 2.º ou no 3.º mês do trimestre. Em todos os casos, o autor do n.º 4 faz começar o ano num domingo e coloca o dia complementar no fim do último mês. Não nos deteremos neste projeto. Parece-nos que, ao enviar doze projetos muito diferentes, incluindo anos de 4, 6, 8, 12, 13 e até 16 e 24 meses, é difícil não acertar em algumas combinações felizes. O grande mérito, em nosso entender, numa questão deste género, é saber decidir-se no meio da multidão de combinações que o espírito facilmente oferece. Por isso, limitamo-nos a assinalar os três últimos projetos do n.º 4. Por fim, observaremos, a propósito dos n.os 26, 13 e 4, que é lamentável que os autores não tenham colocado o dia complementar no início do ano, em vez de o colocarem no fim.
Resta-nos dizer algumas palavras sobre os outros projetos enviados ao concurso; é o que faremos da forma mais breve possível. Classificámos esses projetos por categorias, segundo o tipo de modificações que propõem; iremos passá-los em revista, começando pelos menos desejáveis.
PRIMEIRA CLASSE.
Calendários que não estão conformes com a duração do ano trópico.
N.º 40. Calendário decimal. - Já discutimos o que pensar desta ideia; mas o autor do projeto atual parece querer torná-la ainda mais inadmissível, se isso for possível. Toma como unidade fundamental de tempo não o dia, mas o vigésimo de dia, a que chama hora; seguem-se o dia de 20 horas, depois um período de 5 dias chamado centistheure, um mês de 50 dias chamado hilostheure e um ano de 500 dias com o nome de kilostheure. Não se fala de todo nas estações; mas todos os dias do myriastheure são consagrados a grandes homens, cujo detalhe é longamente exposto em três enormes folhas de belo papel adornadas com um soberbo mostrador de relógio dividido em 12 e em 10, para mostrar a concordância entre as horas antigas e as horas novas.
N.º 3; ainda um Calendário decimal. - O autor considera vantajoso que o Calendário seja independente das estações. Em consequência, propõe as seguintes divisões do tempo:
- 1.º A década de 10 dias;
- 2.º O mês de 10 décadas, ou 100 dias;
- 3.º O ano de 10 meses, ou 1000 dias.
Por fim, pede que se estabeleça uma nova era e que se faça começar na nossa época, em honra da Astronomia, que pela primeira vez nos esclarece sobre a constituição do universo e nos faz viver no conhecimento da verdade.
N.º 34. - É o ano vago de 365 dias dos antigos egípcios; o autor não diz nada nem sobre a semana nem sobre os meses; quer apenas que todos os anos sejam iguais.
N.º 44. - Todos os anos têm 366 dias; enormes quadros manuscritos acompanham o projeto; não conseguimos compreender por que razão o autor preferia o número 366 ao número 365.
SEGUNDA CLASSE.
Esta classe não contém propriamente projetos de reforma; os autores enviaram-nos calendários perpétuos ou quadros destinados a facilitar o cálculo das datas e dos dias da semana para épocas distantes, no passado ou no futuro.
O n.º 6, de que já falámos, vem acompanhado de um quadro deste género, muito bem construído.
O n.º 7 compõe-se de um quadro do mesmo tipo, mas mais completo e bastante engenhoso, permitindo encontrar facilmente o dia da semana correspondente a qualquer data num período alargado da era gregoriana. O mesmo quadro fornece também a data das festas móveis nesse mesmo período.
O n.º 8 é análogo ao anterior, mas é muito menos engenhoso e nada diz sobre as festas móveis.
O n.º 43 é um cômputo bíblico, místico e bizarro. Fala-se nele de anos de 364, 365 e 367 dias; mas não há projeto de reforma.
O n.º 32, assinalado mais adiante, vem acompanhado de um quadro que não é mais do que o calendário perpétuo vendido por cinco cêntimos aos escolares.
TERCEIRA CLASSE.
Modificação do ciclo gregoriano com o objetivo de tornar o ano médio mais próximo do ano trópico.
O n.º 9, ao qual voltaremos mais adiante, propõe um ciclo de 33 anos com 8 anos bissextos, o que produz um desvio de um dia em 4800 anos.
O n.º 37 propõe um ciclo de 128 anos contendo 31 anos bissextos: o ano médio fica assim em 365d,24219, e o desvio de um dia só surge ao fim de cerca de 30 000 anos; infelizmente, o cômputo dos anos bissextos é complicado, tanto mais que o autor distribui esses anos no ciclo de 128 anos de maneira pouco simples e pouco prática. O mesmo projeto pede que se abandone a era cristã para a substituir pela era da Criação e contém regras empíricas para calcular as fases da Lua numa data qualquer. O autor baseou os seus cálculos na observação seguinte, que apresenta com total certeza: a primeira Lua Nova do primeiro ano da Criação ocorreu no quinto dia, às 5h39m10s da tarde. O ano 1 da era cristã corresponde, segundo os seus cálculos, ao ano 6305 da Criação.
O n.º 41 adota também o ciclo de 128 anos, mas pelo menos os anos bissextos são aí repartidos de 4 em 4 entre os 32 anos cujo número é divisível por 4, salvo o último do ciclo, que permanece comum. O autor conclui, por cálculos exatos, que o seu ciclo causaria uma diferença de um dia ao fim de 28 800 anos e propõe ingenuamente restabelecer, no fim desse período, o 32.º ano bissexto no final do ciclo de 128 anos. Voltaremos a este projeto, em que o ano é dividido em 13 meses (5.ª classe).
QUARTA CLASSE.
Projetos de reforma que suprimem a semana.
Primeiro, os n.os 3 e 40 assinalados na primeira classe.
O n.º 9 propõe três reformas que chama radical, intermédia e moderada. Na primeira, haveria um ciclo de 33 anos, a era da Criação (-6640), 12 meses numerados primestre, secundimestre, etc., com alternância de 30 e 31 dias, divididos quer em 3 décadas, quer em semanas alternadas de 7 e 8 dias, ficando o 31.º dia fora da década ou da semana. O ano começaria na primavera. Por fim, o dia seria dividido em 10 horas e as horas em minutos e segundos decimais. Na reforma intermédia, conservar-se-iam a era vulgar e o ciclo gregoriano de 400 anos. Finalmente, a reforma moderada reduz-se a fazer começar o ano na primavera e a fazer os meses alternadamente de 30 e 31 dias. Este trabalho carece de uma conclusão precisa.
O n.º 10 contém dois projetos. O primeiro não altera a distribuição dos nossos meses; mas cada mês divide-se em 3 décadas cujos dias recebem as designações do Calendário republicano, e num extradi nos meses que têm 31 dias; os décadis e os extradis são feriados, o que perfaz no ano seis pares de 2 dias feriados consecutivos. A última década de fevereiro fica incompleta.
O segundo pertence à quinta classe.
O n.º 15 divide os meses em semanas e oitainas alternadas. Este projeto fora redigido, há vários anos, pelo autor do n.º 19, mencionado acima. Foi-nos enviado por outra pessoa sob a forma de um folheto impresso; tendo o autor abandonado esse projeto e substituído-o pelo n.º 19, ele figura aqui apenas para memória.
O n.º 17 faria começar o ano no solstício de inverno e dividiria o ano em 73 cinquennes ou em 12 meses de 3 décadas.
O n.º 20 quer pôr a semana em harmonia com a lunação. Para o conseguir, imagina semanas alternadas de 7 e 8 dias, cuja reunião de quatro forma uma lunação bastante próxima, em média, da lunação astronómica; mas sente-se realmente a utilidade de tal reforma? Acrescente-se que ele muda os nomes dos dias da semana e, em proposta mais séria, faz meses alternados de 30 e 31 dias, suprimindo assim a irregularidade de fevereiro.
No n.º 22, encontramos semanas de 6 dias, chamados primus, secundus, ..., sextus; 12 meses de 30 dias; 5 ou 6 dias complementares no fim; uma era universal começando em 1901 e, por fim, a divisão decimal do dia em 20 horas.
O n.º 23 forma um ano de 366 dias dividido em 12 meses de 30 e 31 dias, com um ano deficiente de 360 dias de 8 em 8 anos, e dois de 800 em 800 anos, o que dá a mesma média do Calendário gregoriano; mas que intercalação bizarra! O ano começaria na primavera e a semana ficaria reduzida a 6 dias, para que houvesse um número exato deles no ano.
O n.º 27 é uma memória muito longa para chegar a 12 meses, os sete primeiros de 30 dias e os cinco últimos de 31, sendo o último de 32 nos anos bissextos; as semanas são substituídas por períodos de 6 dias, o 31.º dia dos meses abundantes fica fora desse período e chama-se festat; o dia intercalar dos anos bissextos fica igualmente fora e chama-se sextile; os meses recebem nomes novos relativamente bem compostos.
O n.º 36 forma 60 semanas de 6 dias repartidas em 12 meses de 30 dias, mais uma semana de 6 dias; de 8 em 8 anos, há apenas 60 semanas, para suprimir os dias contados em excesso.
Variantes. - 60 semanas de 6 dias com uma série final de 5 dias, e 6 dias nos anos bissextos. Outra variante conserva a semana ordinária e entra, assim, na classe seguinte.
O n.º 29 é uma longa memória que procura provar a excelência do Calendário republicano, proposto sem alterações.
O n.º 38 é uma memória muito extensa, aliás bastante interessante, sobre a história do Calendário republicano. Retoma dele os nomes dos meses e a década; mas faz apenas 10 meses de 36 dias, começando por um dia de civismo e contendo duas décadas e meia; a década recomeça em cada mês. Há três variantes para o início do ano. Em suma, este projeto é claramente inferior ao Calendário republicano.
O n.º 35 constitui um trabalho absolutamente extraordinário, que se distingue de todos os outros por uma originalidade extrema. O ano é repartido em 4 trimestres de 90 ou 92 dias, eles próprios divididos em décadas, cada uma com dois dias consecutivos de descanso. O ano começa no solstício de inverno. Todos os nomes são alterados e as novas designações são tiradas da antiga língua céltica. O autor entra em grandes pormenores sobre a distribuição das ocupações de cada dia do ano; acompanha cada linha do Calendário com uma máxima ou um preceito útil e preocupa-se com muito cuidado na distribuição das festas civis ao longo do ano. Chega ao ponto de apresentar o programa detalhado de todas essas festas. Assim, “o dia bissexto será consagrado à grande festa astronómica de quatro em quatro anos. Receberá um nome particular, curto, significativo e sobretudo eufónico: Ilanaddez, feito de han (solstício), ad (radical de adição) e dez (dia); os astrónomos organizarão a festa diurna como entenderem, mas a festa noturna compreenderá:
- 1.º Um Sol radiante esférico de 2 m, iluminando num raio de 2 km,-
- 2.º Um lunicíclide ou cinetmia lunar (sic), aparelho destinado a representar os movimentos da Lua.
Como os arredores do Observatório não são suficientemente amplos para receber todos os parisienses de uma só vez, estes desfilarão por bairro e o movimento do lunicyclide será repetido várias vezes durante a noite.”
Na festa da Indústria, celebrada durante o segundo trimestre, haverá um carro no qual “reinará a gentil Télopre, coroada de hera com uma fileira superior de resedá; o seu busto será cingido por um corpete de couro repuxado com oito mamas (sic), símbolo da abundância que deve proporcionar o bom emprego dos oito dias úteis da década”. Interrompemos aqui as citações: o que antecede basta para dar uma ideia do espírito em que foi redigida esta memória de 48 páginas.
QUINTA CLASSE.
Projetos de reforma que conservam a semana, mas revolucionam os meses.
Devemos primeiro recordar, para memória, os n.os 6, 25, 13, 26 e 30, bem como três projetos do n.º 4, já mencionados antes da classificação.
Entre os restantes, os mais numerosos são os que repartem o ano em 13 meses de 28 dias; os autores deixaram-se seduzir pela comodidade de meses com exatamente 4 semanas, mas não sentiram o incómodo de dividir o ano em 13 partes em vez de 12. Encontramos nesta linha o n.º 12, qualificado como Calendário dos empregados, porque os empregados pagos ao mês ficariam felizes, segundo o autor, por receber o vencimento mensal 13 vezes em vez de 12.
O n.º 41, já assinalado na terceira classe, designa o 13.º mês com o nome de Rectember.
O n.º 31 coloca o dia suplementar fora da semana, no primeiro dia do ano, e o dia intercalar dos anos bissextos no segundo dia do ano. O autor quer começar o ano no equinócio da primavera e pede que se divida o dia em 20 horas. Designa os meses por nomes numéricos e altera a ordem dos dias da semana para os pôr de acordo com a ordem das distâncias dos planetas ao Sol.
O n.º 16 dá aos seus 13 meses nomes de astrónomos e aos 7 dias da semana nomes de invenções que não especifica, salvo electrodi, que cita como exemplo. Pretende começar o ano no equinócio de outono. Por fim, propõe como primeiro meridiano internacional o meridiano do Himalaia, porque, segundo ele, é o mais longo.
Por fim, o n.º 18 estabelece a concordância dos dias da semana com as datas do ano pela introdução de um dia complementar sem nome semanal no fim do ano. Dá aos seus 13 meses nomes tirados do Calendário republicano e chama aos dias da semana: pridi, duodi, tescli, carcli, quindi, etc. Todos os meses começam por um quindi.
Eis agora os que adotam outra divisão do ano:
O n.º 2 faz 10 meses de 36 dias com 5 ou 6 dias complementares no fim do ano. O autor insiste na comodidade comercial de um ano fictício de 360 dias; resignar-se-ia ao ano de 12 meses, desde que esses 12 meses tivessem todos 30 dias e que os 5 ou 6 dias complementares fossem relegados para o fim ou para o início do ano.
O n.º 28 faz também 10 meses de 36 dias, incluindo 5 semanas e um dia complementar sem nome semanal chamado final.
O n.º 10 (2.º projeto) divide o ano em quatro quadrins de 91 dias, salvo o último, que conta 92 ou 93. Muda todas as designações e propõe várias variantes que diferem pela época de início do ano. Cada quadrin contém exatamente 13 semanas e há todos os anos, no fim, um ou dois dias sem nome.
O n.º 36 é semelhante aos anteriores, salvo as designações e o início do ano, que conserva como atualmente. Não diz onde coloca o dia intercalar dos anos bissextos.
O n.º 33 propõe 10 meses de 35 dias e um décimo primeiro de 15 dias; o último dia do ano fica fora da semana; o ano começa numa segunda-feira.
Por fim, o n.º 4, já citado, contém calendários de 6, 8, 16 e 24 meses.
SEXTA CLASSE.
Reformas de pormenor relativas à origem do ano, ao número de dias dos meses, às designações, etc., sem procurar estabelecer concordância entre a semana e o ano.
O n.º 5 limita-se a mudar as designações atuais, a fazer os meses alternadamente de 30 e 31 dias e a substituir a era vulgar por uma era dita da Renascença, começando no ano 1400, data do nascimento de Gutenberg. O autor parece querer fazer todos os anos com 366 dias; nada diz sobre os anos bissextos.
N.º 9. O ano começaria na primavera e os meses teriam alternadamente 30 e 31 dias.
O n.º 11 começa o ano no solstício de inverno; os meses têm 30 ou 31 dias: 31 dias nas estações de verão e 30 dias nas estações de inverno. Os anos não bissextos têm o 1.º mês com 30 dias. Pretende voltar às designações do Calendário republicano para os meses; na falta delas, conserva os nomes usuais, exceto setembro, outubro, novembro e dezembro, que substitui por Pitágoras, Copérnico, Kepler e Cristóvão Colombo. Gostaria de começar a nova era com a descoberta da América.
No n.º 12, limita-se a indicar festas civis em todos os domingos e a substituir os nomes dos santos por nomes de personagens célebres.
N.º 14. Meses de primavera e verão, 31 dias; os outros, 30 dias, salvo o último do inverno, que tem 29. Começa o ano no solstício de inverno, retoma as designações de meses do Calendário republicano, ou então Primose, décimose, tertiose; Qnartinal, quintial, etc. Os dias da semana têm nomes de cores.
O n.º 21 começa na primavera, divide o ano em meses segundo os solstícios e equinócios, muda os nomes dos meses:
- Vernal, bivernal, trivernal, 31 dias;
- Fugal, bifugal, trifugal, 31 dias;
- Médial, bimédial, trimédial, 30 dias...;
- Nodal, binodal, trinodal, 30 e 29 dias.
Os dias da semana têm nomes numéricos.
No n.º 32, os meses têm alternadamente 31 ou 30 dias, salvo o último, que tem 29 ou 30 conforme os anos; os nomes são alterados (primile, deutérile, etc.) e os nomes não são os mesmos para os dois hemisférios.
O n.º 45 muda a data de início do ano e designa os meses pelos nomes dos signos do Zodíaco. Nada diz sobre a semana.
VII
PRÉMIOS A ATRIBUIR
Em consequência, propomos repartir o prémio de cinco mil francos nos seguintes termos:
- 1.º Um prémio de mil e quinhentos francos à memória com o n.º 39;
- 2.º Um prémio de mil e duzentos francos à memória inscrita sob o n.º 24;
- 3.º Um prémio de mil francos à memória inscrita sob o n.º 1;
- 4.º Um prémio de oitocentos francos à memória com o n.º 19;
- 5.º Um prémio de duzentos e cinquenta francos à memória n.º 25;
- 6.º Um prémio idêntico de duzentos e cinquenta francos à memória n.º 6.
Estes prémios consistirão em medalhas às quais será acrescentado, em dinheiro, o complemento do prémio atribuído.
VIII
RESUMO E CONCLUSÃO.
A reforma do Calendário é desejável.
Os anos podem ser todos iguais entre si. Em vez de mudar todos os anos, o Calendário pode ser perpétuo.
No projeto de reforma aqui adotado, os anos compor-se-iam de doze meses repartidos em quatro trimestres iguais, formados por três meses de 31, 30 e 30 dias, contendo cada trimestre exatamente 13 semanas.
O 365.º dia, ou dia suplementar das 52 semanas, seria considerado fora das semanas e dos meses e chamar-se-ia «dia de Ano Novo» ou janeiro 0.
Nos anos bissextos, haveria dois dias festivos na renovação do ano.
Todos os anos poderiam começar por uma segunda-feira, todos se pareceriam e as mesmas datas corresponderiam indefinidamente aos mesmos dias da semana.
É desejável que um Congresso internacional se reúna por ocasião da Exposição de 1889, para acordar sobre as vantagens e a oportunidade desta reforma que, por mais importante que seja, é tanto mais fácil de aplicar quanto passaria quase despercebida.
O Relator,
PHILIPPE GERIGNY.
PRÉMIOS ATRIBUÍDOS
SESSÃO DE 14 DE DEZEMBRO DE 1887.
A Comissão, composta pela Direção da Sociedade para 1887:
- Srs. CAMILLE FLAMMARION, Presidente;
- PAUL HENRY, Vice-Presidente;
- PROSPER HENRY, Vice-Presidente;
- General PARMENTIER, Vice-Presidente;
- E. L. TROUVELOT, Vice-Presidente;
- PHILIPPE G2RIGNY, Secretário;
- A. GUNZIGER, Secretário adjunto.
tendo aprovado o relatório anterior, o prémio de cinco mil francos foi distribuído como segue na sessão de 14 de dezembro de 1887:
- 1.º Sr. G. ARMELIN, de Paris, medalha de vermeil. Prémio de 1500 francos.
- 2.º Sr. HANIN, de Auxerre, medalha de prata. Prémio de 1200 francos.
- 3.º Sr. DE ROUCY, de Compiègne, medalha de prata. Prémio de 1000 francos.
- 4.º Sr. BABNOUT, de Paris, medalha de prata. Prémio de 800 francos.
- 5.º Sr. Rémy THOUVENIN, de Nancy, medalha de bronze. Prémio de 250 francos.
- 6.º Sr. BLOT, de Clermont, medalha de bronze. Prémio de 250 francos.
REFORMA DO CALENDÁRIO
Projeto que recebeu o primeiro prémio por estar em conformidade com os princípios expostos no termo do concurso (p. 69). Autor: Sr. G. ARMELIN.
Quando se examina a questão do Calendário e se propõe reformar o sistema gregoriano, é preciso antes de tudo ter bem presente esta necessidade: toda reforma, para ter alguma hipótese de êxito, deve ser fácil de aplicar, ou seja, simples e concebida do ponto de vista prático.
A questão da designação dos meses e a da coincidência do início do ano com o início de uma estação, ambas de ordem puramente especulativa, embora mereçam exame, não constituem contudo os pontos que devem atrair mais particularmente a atenção.
Os defeitos mais importantes do Calendário gregoriano, do ponto de vista prático, são os seguintes:
- 1.º Falta de correlação definida entre os dias da semana e os dias do mês. Um mesmo dia do mês cai num ano a segunda-feira, noutro a terça, e assim por diante. Os anos começam sempre em dias de semana diferentes. Por fim, no mesmo ano, os diferentes meses também começam, e sem qualquer ordem, em dias diversos da semana.
- 2.º Falta de ordem na disposição dos meses de 30 e de 31 dias. Ora alternam exatamente, ora se seguem dois meses de 31 dias.
- 3.º Anomalia de fevereiro que, sem razão, tem apenas 28 ou 29 dias.
- 4.º Por fim, inconveniente, do ponto de vista dos negócios, de o dia 1 e o dia 15 de diferentes meses, datas geralmente escolhidas para vencimentos, caírem com bastante frequência num domingo.
Depois de examinadas estas considerações, importa compreender bem a importância de conservar a semana de sete dias, divisão que entrou nos nossos costumes desde os egípcios da mais remota Antiguidade, e que não se poderia suprimir sem ferir sentimentos, lesar interesses, contrariar hábitos enraizados e ignorar as exigências de descanso que toda fadiga de trabalho justifica.
Ora, se se dividir o ano em 4 estações ou 4 trimestres, o quociente dá 91 dias mais uma fração; e o número inteiro 91, sendo felizmente divisível por 7, dá por trimestre um número inteiro de semanas, ou seja, exatamente 13 semanas. Isso permite ter trimestres iguais e idênticos, começando todos no mesmo dia, por exemplo numa segunda-feira.
- O primeiro mês de cada trimestre, começando numa segunda-feira, teria 31 dias.
- O segundo mês de cada trimestre, começando numa quinta-feira, teria 30 dias.
- O terceiro mês de cada trimestre, começando num sábado, teria 30 dias.
Como estes quatro trimestres, em virtude da fração forçosamente desprezada, dão apenas 364 dias, o 365.º seria colocado fora do mês e da semana, para não romper a perfeita harmonia dos anos. Seria como um dia complementar, caindo no dia de Ano Novo, uma espécie de dia 0.
De quatro em quatro anos, haveria um dia bissexto, igualmente complementar, fora do mês e da semana, colocado no fim do quarto ano. (Excetuando, evidentemente, três anos seculares em cada quatro, segundo o método gregoriano).
Deste modo, todos os anos e mesmo todos os trimestres se assemelhariam, e o Calendário perpétuo reduzir-se-ia ao quadro seguinte:
| 1. DIA DE ANO NOVO | ||
|---|---|---|
| Primeiro mês de cada trimestre. Janeiro Abril Julho Outubro |
Segundo mês de cada trimestre. Fevereiro Maio Agosto Novembro |
Terceiro mês de cada trimestre Março Junho Setembro Dezembro |
| 1 Segunda 2 Terça 3 Quarta 4 Quinta 5 Sexta 6 Sábado 7 Domingo 8 Segunda 9 Terça 10 Quarta 11 Quinta 12 Sexta 13 Sábado 14 Domingo 15 Segunda 16 Terça 17 Quarta 18 Quinta 19 Sexta 20 Sábado 21 Domingo 22 Segunda 23 Terça 24 Quarta 25 Quinta 26 Sexta 27 Sábado 28 Domingo 29 Segunda 30 Terça 31 Quarta |
1 Quinta 2 Sexta 3 Sábado 4 Domingo 5 Segunda 6 Terça 7 Quarta 8 Quinta 9 Sexta 10 Sábado 11 Domingo 12 Segunda 13 Terça 14 Quarta 15 Quinta 16 Sexta 17 Sábado 18 Domingo 19 Segunda 20 Terça 21 Quarta 22 Quinta 23 Sexta 24 Sábado 25 Domingo 26 Segunda 27 Terça 28 Quarta 29 Quinta 30 Sexta |
1 Sábado 2 Domingo 3 Segunda 4 Terça 5 Quarta 6 Quinta 7 Sexta 8 Sábado 9 Domingo 10 Segunda 11 Terça 12 Quarta 13 Quinta 14 Sexta 15 Sábado 16 Domingo 17 Segunda 18 Terça 19 Quarta 20 Quinta 21 Sexta 22 Sábado 23 Domingo 24 Segunda 25 Terça 26 Quarta 27 Quinta 28 Sexta 29 Sábado 30 Domingo |
| De quatro em quatro anos, um dia bissexto após 30 de dezembro | ||
Com este sistema de Calendário, o mesmo trimestre repete-se indefinidamente, sempre igual.
- Os anos são todos semelhantes.
- Apenas três dias, segunda, quinta e sábado, podem iniciar os meses, e isso numa ordem regular e constante.
- Os meses de 31 e de 30 dias regressam igualmente numa ordem regular e constante.
- Conhecendo a posição de um determinado mês no trimestre, saber-se-á sempre quantos dias deve ter e em que dia começa; por conseguinte, todo o mês fica conhecido.
- O mês de 28 dias é suprimido.
- Nem o dia 1 nem o dia 15 de qualquer mês caem nunca num domingo.
- As mesmas datas caem todos os anos nos mesmos dias da semana.
- A semana encaixa no trimestre.
Se isso fosse facilmente praticável, seria lógico avançar o início do ano para o solstício de inverno, começo racional para nós, já que é o momento em que os dias começam a aumentar, muito próximo do nosso atual dia de Ano Novo. Quanto aos nomes dos meses, seria desejável substituí-los, pelo menos os quatro últimos, por nomes de sábios ou pelos nomes dos signos do zodíaco. Mas estes dois pontos, sendo mais difíceis de aplicar e podendo comprometer a implementação da reforma, devem ser reservados e aqui são apenas indicados para memória.